Pesquisa

Máscaras com válvula e protetores faciais têm proteção limitada contra o novo coronavírus

Uso isolado de visores de plástico e de máquinas com válvula não evitam a disseminação do Sars-CoV-2 quando o usuário tosse ou espirra, mostra pesquisa americana. Autores recomendam que população não abandone os acessórios feitos de tecido

Vilhena Soares
postado em 02/09/2020 06:00 / atualizado em 02/09/2020 07:24
 (foto: Justin Tallis/AFP)
(foto: Justin Tallis/AFP)

Usados sozinhos, máscaras com válvula e protetores faciais de plástico não impedem a propagação do novo coronavírus, segundo um estudo científico estadunidense. Em testes laboratoriais feitos com lasers, pesquisadores constataram que os dois dispositivos não evitam com total eficácia que o usuário propague micropartículas de água expelidas por tosse ou espirro, um dos principais mecanismos de disseminação do novo coronavírus. As descobertas foram apresentada no jornal especializado Physics of Fluids e reforçam um alerta feito pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, sobre as limitações desses artefatos.

Os pesquisadores usaram para as análises um manequim, que expeliu, de forma mecânica, uma mistura de água destilada e glicerina em forma de um pequeno jato. O mecanismo tinha força semelhante à de tosses e espirros. Os cientistas colocaram no manequim um protetor facial de plástico e uma máscara com válvula para filtragem do ar. Com a ajuda de feixes de laser horizontais e verticais, conseguiram mapear a dissipação das gotas.

Os resultados mostram que, embora os protetores faciais bloqueiem o movimento inicial do jato, as gotículas expelidas conseguem se propagar para várias direções com uma força considerável. “A partir desse estudo, pudemos observar que os protetores faciais são capazes de bloquear o movimento inicial do jato exalado. No entanto, as gotas aerossolizadas expelidas conseguem se mover ao redor do visor com relativa facilidade”, detalha, em comunicado, Manhar Dhanak, pesquisador da Faculdade de Engenharia e Ciência da Computação da Florida Atlantic University (FAU) e um dos autores do estudo. “Com o tempo, essas gotículas podem se dispersar em uma ampla área nas direções lateral e longitudinal, embora com diminuição da concentração de gotículas”, complementa John Frankenfeld, também pesquisador da universidade.

Nos testes com a máscara com válvula, os cientistas observaram um grande número de gotas passou pela válvula de exalação, driblando a filtragem. “As máscaras com válvulas restringem o fluxo de ar ao inspirar, mas permitem a saída de ar livre. O ar inalado é filtrado pelo material do dispositivo, mas o exalado passa pela válvula sem filtro”, detalha Siddhartha Verma, principal autor do estudo e pesquisador da FAU.

Os cientistas explicam que a principal conclusão do trabalho é a que protetores faciais e máscaras com válvulas expiratórias podem não ser tão eficazes quanto as máscaras normais para proteção contra a covid-19 e que, apesar do maior conforto que essas alternativas oferecem, é melhor usar os dispositivos feitos de tecidos bem construídos e de alta qualidade ou as máscaras cirúrgicas de design simples. “Há uma tendência cada vez maior de as pessoas substituírem o pano comum ou as máscaras cirúrgicas por protetores faciais de plástico transparente, bem como usar máscaras equipadas com válvulas expiratórias. Um fator determinante para essa maior adoção desses protetores alternativos é o melhor conforto (…) No entanto, vemos que eles não são as melhores opções”, frisa Verma.

Micropartículas ágeis

Milena Ponczek, pesquisadora em ciências atmosféricas na Universidade de São Paulo (USP), destaca que o estudo americano consegue, por meio de uma tecnologia avançada, comprovar como os dispositivos testados podem falhar na proteção à covid-19. “Com a ajuda do laser, foi possível enxergar como essas milhares de micropartículas conseguem se propagar com facilidade. Isso sem contar que temos partículas ainda menores que nem os lasers conseguem revelar”, destaca.

A especialista brasileira acredita que o estudo também serve de alerta para pessoas que têm usado protetores faciais como substituto de máscaras. “Isso é algo que os cientistas já desconfiavam. Agora, temos os dados que comprovam. É importante ir contra essa nova tendência”, enfatiza. A pesquisadora acredita que futuras pesquisas sobre o mesmo tema deverão surgir. “Vale ressaltar que demorou muito para que o uso de máscaras fosse recomendado pelos especialistas, somente com os estudos chegamos ao ponto que estamos hoje. Isso mostra que só aos poucos conseguimos entender melhor os efeitos desse vírus e da sua propagação pelo ar”, explica.

No ônibus

Um estudo publicado ontem, na revista Jama Internal Medicine, traz mais dados que reforçam o poder de propagação do Sars-CoV-2. Especialistas do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças entrevistaram e examinaram passageiros que foram transportados em um ônibus mal ventilado para um evento budista na cidade de Ningbo, em 19 de janeiro, início da pandemia. Em uma viagem de 50 minutos, em que ninguém usava máscara, um homem na faixa dos 60 anos contagiou 23 passageiros, de um total de 68 pessoas.

Os pesquisadores descobriram que o círculo de contágio era muito maior do que as poucas fileiras ao redor do homem infectado, com pessoas tendo sido atingidas na frente e atrás do ônibus. Os cientistas explicam que, se o vírus fosse transmitido apenas por gotículas grandes, o círculo teria sido menor, em um perímetro de um ou dois metros.

Além disso, o homem que contagiou o resto do grupo não apresentava sintomas no momento da viagem, portanto, não estava tossindo. O sistema de ar-condicionado do ônibus recirculou o ar dentro do veículo e não o renovou, possivelmente ajudando a espalhar o vírus pelo ônibus, concluíram os autores do artigo. “Essa pesquisa sugere que, em ambientes fechados onde o ar é recirculado, o Sars-CoV-2 é um patógeno altamente transmissível”, afirmam.

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