Fotojornalismo

Na semana do Dia do Repórter Fotográfico, conheça nomes da profissão

O repórter fotográfico compartilha pelas imagens um olhar jornalísticos

Lisa Veit*
postado em 03/09/2020 08:24
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

O trabalho dos repórteres fotográficos se relaciona com a luz, os ângulos, o recorte de uma cena, a espera do momento certo, os enquadramentos e finalmente, a câmera: muitas vezes, uma extensão deles mesmos. É o olhar jornalístico que enxerga, registra e compartilha a realidade. É o saber definir qual a melhor estratégia para fazer uma composição clara e objetiva, seja do momento histórico, do cotidiano ou da cultura. É o clique minucioso e cheio de informação.

Conheça nomes importantes na profissão que atuam em Brasília:

Ed Alves

  • 13/08/2019. Credito: Ed Alves/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Expedicao fotografica na Cidade de Pedra em Cocalzinho-GO.
    13/08/2019. Credito: Ed Alves/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades. Expedicao fotografica na Cidade de Pedra em Cocalzinho-GO. Ed Alves/CB
  • Manifestação contra o governo. Mortes na Pandemia.
    Manifestação contra o governo. Mortes na Pandemia. Ed Alves
  • Copa America de 2019, no Rio de janeiro. Brasil Campeão.
    Copa America de 2019, no Rio de janeiro. Brasil Campeão. Ed Alves


“Eu digo para todos que eu sou fotógrafo 24h por dia”, revela Ed Alves, repórter fotográfico há 14 anos. Aos 18 anos, comprou uma câmera analógica, trabalhou em outras áreas, até que aos 30, iniciou a faculdade. Começou a viver a fotografia dentro e fora do expediente. “Casei com uma mulher que entende e sempre soube que sou assim, que é o que eu gosto de fazer o tempo inteiro. É sempre especial chegar em casa e contar para os filhos como foi o dia. Poder falar que registrei algo para a história”, avalia e completa:“toda a fotografia que a gente faz é a história, especialmente nesse momento tão importante que estamos vivendo. Daqui a 5, 10, 15 anos vamos poder lembrar, questionar e ver erros e acertos”, reflete.

Ele conta que um momento marcante, de realização pessoal e profissional, ocorreu ano passado, no Rio de Janeiro na Copa América. “Fui para o Rio e fotografei a final no Maracanã, foi muito marcante para mim. Fui por minha conta e olho todo o sacrifício que fiz para estar lá, fui de ônibus, enfrentando várias coisas. Mas é parte da profissão, tem que ir e conseguir as suas coisas. Não pode ficar esperando caírem na sua mão. Foi muito bom, foi um sonho que eu realizei", conta o fotógrafo, que já cobriu eventos como posse presidencial, votações, impeachment. Quando questionado sobre a foto mais significativa da carreira, respondeu: “Se você me perguntar: Qual a melhor foto que você já fez? Digo que é aquela que ainda não deu tempo de fazer. A que ainda vou fazer”, responde.

Valério Ayres

  • Final da Copa de 1990
    Final da Copa de 1990 Valério Ayres
  • OAB caminha para o impedimento de Collor (1992)
    OAB caminha para o impedimento de Collor (1992) Valério Ayres
  • Final da Copa América de 1989. Gol de Romário.
    Final da Copa América de 1989. Gol de Romário. Valério Ayres


Entre idas e vindas profissionais, do sul ao centro do país, além de outros lugares do mundo, o gaúcho de Pelotas, Valério Ayres já viveu diversas experiências marcantes em seus 38 anos como repórter fotográfico. Muitos deles devido a sagacidade que só um fotojornalista tem de estar no lugar certo, no momento certo para o registro. “No campo esportivo, nas eliminatórias de 1986 eu estava no Paraná cobrindo a Seleção Brasileira, e o Zico, que era a nossa estrela, lamentavelmente torceu o joelho, no amistoso. De 30 fotógrafos que haviam em campo, somente eu consegui fazer a foto do momento exato que ele torceu o joelho e saiu de campo, foi muito importante”, lembra. O esporte também foi responsável pelo segundo clique marcante e exclusivo na história de Valério como fotojornalista, “a outra seria a do Renato (Gaúcho), em 1990 (no Mundial na Itália). Ele se rebelou com os outro jogadores da Seleção e teve uma conversa reservada com Lazaroni, que só eu registrei”, revelou.

Hoje, como subeditor de fotografia no Correio Braziliense, conta que a profissão exige preparação, como quando tirava fotos sem filme de partidas esportivas pela tevê, ou planejava a fotografia que gostaria de fazer. “A fotografia não volta. O ápice de um momento ocorre entre às 9h e 10h, se você não estiver atento você perde. Meu primeiro chefe,Telminho, me dizia você chega e respira. Se você sentir o cheiro da fotografia, ela está lá. Exige envolvimento do repórter”, reflete.

Minervino Júnior

  • Ipê-branco
    Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Queda no setor de Turismo em Brasília com a pandemia do coronavírus.
    Movimentação de turistas na praça dos Três Poderes.
  • Queda no setor de Turismo em Brasília com a pandemia do coronavírus.
    Movimentação de turistas na Catedral de Brasília.


Com 16 anos de profissão, o fotojornalista Minervino começou a compôr sua história como repórter fotográfico, na Secretaria de Comunicação do GDF, a princípio como laboratorialista. Já como repórter passou por diversos veículos de comunicação da cidade, até se estabelecer no Correio Braziliense. Para ele, a fotografia jornalística é uma ferramenta de interação e de impacto. “Esse momento é muito especial para a fotografia, porque estamos retratando essa mudança de comportamento mundial. É uma nova fotografia que estamos fazendo. A fotografia é um olhar diferente sobre algum determinado assunto. Aquele sair do trivial para um bom enquadramento, uma boa filtragem de luz, até chegar a uma fotografia de impacto”, explica.

Um momento marcante na profissão, se deu na cobertura do carnaval de 2017, no Bloco dos Raparigueiros.“Estava uma confusão, o bloco. Era o último dia de carnaval, e a combinação fatal de muita bebida e empolgação causou muitas brigas. Eu pude fotografar uma sequência de dois caras brigando. Um deles tinha uma faca e esfaqueou o outro. A foto noturna é um desafio e saíram bem nítidas. Além do registro único da violência que todo mundo sabe que acontece, elas serviram de prova para que a polícia chegasse ao autor do delito. É o poder que a fotografia tem de apreender e elucidar, por exemplo, algum tipo de crime”, lembra.


Carlos Vieira (Kaká)

  • Manifestação de estudantes da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, marcada pelo Facebook em que pedem justiça pela tragédia ocorrida na boate Kiss, com o trajeto que passa pela Câmara Municipal de Vereadores, Delegacia Regional e Gabinete do Prefeito.
    Manifestação de estudantes da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, marcada pelo Facebook em que pedem justiça pela tragédia ocorrida na boate Kiss, com o trajeto que passa pela Câmara Municipal de Vereadores, Delegacia Regional e Gabinete do Prefeito. Carlos Vieira
  • Santa Maria - RS. Tragédia na boate Kiss. Missa oficial de 7ª Dia na Catredal Metropolitana de Santa Maria - RS.
    Santa Maria - RS. Tragédia na boate Kiss. Missa oficial de 7ª Dia na Catredal Metropolitana de Santa Maria - RS. Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil.
  • Santa Maria - RS. Tragédia na boate Kiss. Amigos e parentes das vítimas fazem homenagem enfrente a Boate Kiss em Santa Maria.
    Santa Maria - RS. Tragédia na boate Kiss. Amigos e parentes das vítimas fazem homenagem enfrente a Boate Kiss em Santa Maria. Carlos Vieira/CB/D.A Press. Brasil.


O carioca Carlos Vieira, mais conhecido com KK, aos 28 anos de profissão, elucida que a principal virtude do repórter fotográfico é o respeito pela ética pessoal e profissional. “Na fotografia, você está informando por meio da imagem. Mas existe sim o viés fotográfico. É a realidade do fotógrafo e ele pode enquadrá-la como quiser. Isso leva a uma questão ética, de que se está lidando com um produto que vai afetar as pessoas no ponto de vista da cidadania e da informação. A fotografia também é um fazer político, do buraco na Ceilândia à posse do presidente da República, se faz política da mesma forma. E o fotógrafo tem que estar ciente de que aquilo que ele faz irá gerar opinião. Essa é uma questão que deve ser bastante discutida nas redações, e muitas vezes não é”,destaca. 

Na memória, a primeira lembrança de um trabalho significativo que emerge é a cobertura do acidente na boate Kiss. “Fomos a Santa Maria, morreram 245 pessoas e a cidade estava inteira de luto. Chegamos ainda meio atônitos e entendendo o que estava acontecendo. A cidade pequena e muitos jovens entre os mortos”, conta. Outro trabalho importante na carreira lhe rendeu o prêmio Ayrton Senna como fotojornalista, “Foi um trabalho sobre prostituição infantil no Rio de Janeiro. Fomos para o Rio, e tínhamos um texto de Olavo Bilac, escrito 104 anos atrás, que falava sobre o tema. Voltamos lá para ver como estava a situação, 104 anos depois deste texto. Foi um trabalho todo em preto e branco, feito por conta própria e muito bonito”, relembra.

O fotojornalista também reforça a importância de ter sensibilidade e respeito, especialmente em personagens que lidam com o luto. Aos aspirantes à profissão, aconselha a ter um olhar analítico e referências. Especialmente na arte, que originou os preceitos da fotografia.

Marcelo Ferreira

  • Parentes dos jovens desaparecidos em Luziania
    Parentes dos jovens desaparecidos em Luziania Marcelo Ferreira
  • 1-04-2--20. Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Show da cantora Rita Lee, no Green Move Festival, na Esplanada dos Ministérios.
    04/11/2012. Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Show da cantora Rita Lee, no Green Move Festival, na Esplanada dos Ministérios. Marcelo Ferreira/CB
  • 0-04-2--20. Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Show da cantora Rita Lee, no Green Move Festival, na Esplanada dos Ministérios.
    04/10/2012. Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Show da cantora Rita Lee, no Green Move Festival, na Esplanada dos Ministérios. Marcelo Ferreira/CB
  • 0-04-2--20. Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. A cantora Rita Lee mostra o bumbum durante o show, no Green Move Festival, na Esplanada dos Ministérios.
    0-04-2--20. Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. A cantora Rita Lee mostra o bumbum durante o show, no Green Move Festival, na Esplanada dos Ministérios. Marcelo Ferreira/CB

 

Nas fotos de infância de Marcelo Ferreira, ele é quem estava atrás da câmera. O primeiro equipamento veio aos 10 anos. Em 1994, o hobbie infantil se tornou profissão, e aí se vão 26 anos trabalhando com a fotografia. “É um clichê: Mas a fotografia é luz e grafia, escrita. O que nos destaca é que no momento que fazemos o trabalho de repórter fotográfico sempre tentamos fazer uma foto diferenciada, pensamos em trabalhar com a luz e composição para que passe informação. No trabalho jornalístico, também existe e é necessária uma equipe inicial de no mínimo três pessoas, o fotógrafo, o repórter e o motorista. Esses três têm que ter uma sintonia perfeita para fazer o trabalho”, explica. Ele também destaca a importância de saber escutar e estar aberto ao diálogo para compor a melhor fotografia.

Ele compartilhou dois momentos de imersão na notícia, como repórter fotográfico, muitas vezes necessária para trazer a informação aprofundada. “Destaco o sumiço de seis adolescentes na cidade de Luziânia em Goiás, foi uma pauta que no início estava apenas eu, o motorista do jornal Orlando, e o repórter Ary Filgueira. Antes dela se tornar uma matéria nacional ficamos semanas trabalhando nela e nos envolvemos muito com os familiares, criamos um vínculo com os mesmos. Outro momento mais tranquilo, que gosto de lembrar foi um show da cantora Rita Lee. Apenas eu e um cinegrafista ficamos cobrindo o show, enquanto os colegas de profissão resolveram acompanhar o evento do plantio virtual de uma árvore. Do nada, durante uma música a cantora começou a falar de política e baixou as calças em protesto. Esta foi uma foto minha que percorreu todo o Brasil”, conta.


Wanderlei Pozzembom

  • Multidão segura a corda da romaria do Ciro de Nazaré, em Belém
    Multidão segura a corda da romaria do Ciro de Nazaré, em Belém Wanderlei Pozzembom
  • Ditador e ex-presidente do Paraguai ,Alfredo Stroessner. Ultima aparição em vida refugiado no Brasil
    Ditador e ex-presidente do Paraguai ,Alfredo Stroessner. Ultima aparição em vida refugiado no Brasil Wanderlei Pozzembom
  • Abrigo de crianças portadoras de doença mental
    Abrigo de crianças portadoras de doença mental Wanderlei Pozzembom


Do trabalho de cobertura nas ruas à coordenação da classe trabalhadora jornalística e fotojornalística. Há 34 anos, no Correio Braziliense, é um dos coordenadores da Editoria de Fotografia e coordenador geral do SJPDF (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal). Para ele, o fotojornalismo foi fundamental para trazer conhecimento pessoal e da vida, como nenhuma outra profissão traria. "Ele me fez mais acessível às pessoas e a mim mesmo. Foram tantos momentos marcantes, ao longo da vida profissional, proporcionados pelo jornalismo”, reflete.

Alguns destes trouxeram reflexões práticas sobre o fazer fotojornalístico e sobre a coletividade, muito presente no modus operandis de Wanderlei, como coordenador. “Como visitar um abrigo de crianças com doença mental, e ter que fazer uma bela foto, sem expô-los à sociedade. Esse é um momento que se tem que refletir sobre a profissão. Ou passar semanas visitando o mesmo lugar a espera da notícia. Foi assim com a foto do ditador e ex-presidente do Paraguai Alfredo Stroessner. Última aparição em vida refugiado no Brasil. Ou a multidão segurando a corda da romaria do Ciro de Nazaré em Belém. No momento atual temos o caso, em que os repórteres fotográficos são vítimas de agressão, tanto por parte dos agentes do Estado ou por manifestantes. É preciso proteger-se como se fosse cobrir uma guerra, como a foto da capa da revista do SJPDF”, exemplifica e finaliza: “São esses momentos de realidade que sempre vão marcar a vida do repórter fotográfico”.


Ana Rayssa Silva

  • Apresentação de ballet em frente ao Congresso Nacional
    Apresentação de ballet em frente ao Congresso Nacional Ana Rayssa
  • 04/08/2019. Credito: Ana Rayssa/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. Politica. Presidente Jair Bolsonaro, durante culto na igreja Fonte da Vida, no SIG.
    04/08/2019. Credito: Ana Rayssa/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. Politica. Presidente Jair Bolsonaro, durante culto na igreja Fonte da Vida, no SIG. Ana Rayssa/CB
  • Acampamento Terra Livre acontece todo ano em Brasília. Indígenas do país todo se reúnem na Esplanada.
    Acampamento Terra Livre acontece todo ano em Brasília. Indígenas do país todo se reúnem na Esplanada. Ana Rayssa


“Acho que essa pandemia será lembrada principalmente pelas fotografias.Todo mundo ficou chocado com as fotos dos pontos turísticos vazios, do Papa solitário na Praça de São Pedro, das covas abertas nos cemitérios para receber os brasileiros que infelizmente morreram devido a covid-19. Nosso trabalho é registrar o mais fielmente possível o que acontece e assim informar a população. Na fotojornalismo não existe espaço para fake news”, abre a fotojornalista Ana Rayssa de 28 anos, oito deles de profissão. A fala resume o papel do repórter fotográfico, que precisou ir a campo, para trazer a informação visual, em um momento repleto de questionamentos, dúvidas e inseguranças.

Ana conta que a parte mais dura do trabalho são as pauta policiais, assim como lidar com a morte. “Já fiz o enterro de uma criança de 5 anos. Os familiares não tinham a quem recorrer, portanto se abriram aos gritos para a nossa equipe. Era a única forma que eles tinham de pedir justiça. Foram 40 minutos bem difíceis”, desabafa. Ela compartilha algumas dicas para ganhar experiência e se preparar para o momento do clique decisivo. “Eu acho que para se destacar você precisa acima de tudo amar essa área. Porque é difícil. Fotojornalismo é trabalho o tempo todo, demanda atenção e te impulsiona a ser criativo. Ter contato com outros fotojornalistas também ajuda a se destacar. Não parem de produzir. Nunca. Estude não só fotografia, mas artes, história, assista filmes, beba de diversas fontes. Divulguem seu trabalho nas redes sociais. Faça o seu trabalho com o que tem em mãos e divirta-se”, recomenda.

*Estagiária sob supervisão de Adriana Izel

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação