Histórias cênicas pelo zap

Em meio à pandemia, teatro se reinventa com projetos inovadores. Entre eles, iniciativas de espetáculos pelo WhatsApp

Adriana Izel
postado em 08/09/2020 21:07


A pandemia do novo coronavírus impactou diretamente na forma de socialização. Sem poder se aglomerar, os aplicativos de mensagens e de vídeos e as redes sociais viraram alternativas. Mais do que um meio de comunicação entre amigos, os formatos se tornaram em opção de linguagem também para as artes. O teatro, um dos segmentos que mais sofreu com o fechamento, tem utilizado o formato em projetos inovadores de dramaturgia.

O grupo pernambucano Magiluth foi um dos pioneiros no Brasil em utilizar WhatsApp, Instagram, YouTube e Spotify, todos serviços digitais, como forma de contar uma história. A primeira iniciativa foi com Tudo que coube numa VHS: Experimento sensorial em confinamento, que deu origem a um spin-off, o espetáculo Todas as histórias possíveis, que estreou em agosto e segue em cartaz até 13 de setembro, com sessões de quinta a domingo, com ingressos gratuitos.

“Tudo isso surge numa questão de necessidade. A pandemia chegou e começou o movimento natural e coerente de fechar os espaços. Mas para todo mundo da área artística foi algo muito avassalador. Ficamos desamparados. O ano de 2020 que se desenhava promissor e nos colocou numa situação de falência. Fazer esses espetáculos foi uma busca nossa de sobrevivência emergencial. Para que a gente seguisse tendo uma renda e um trabalho. Foi a forma que encontramos de continuar trabalhando”, explica Giordano Castro, um dos integrantes do grupo ao lado de Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Mário Sergio Cabral, Lucas Torres e Pedro Wagner.

A ideia do primeiro espetáculo veio de um texto já escrito por Giordano que foi adaptado para as plataformas que estavam sendo utilizadas na quarentena. “A nossa preocupação era criar um espetáculo que falasse da forma com que a gente tem falado hoje. Por isso é um trabalho que transita entre essas plataformas. Buscamos também as mais acessíveis, para que o formato não fosse excludente”, completa. As histórias propostas pelo grupo são todas contadas por meio de ligação, mensagens de textos, áudios, vídeos e músicas.

Em Tudo que coube numa VHS, o espectador se depara com as memórias gravadas de uma pessoa antes dela morrer. Em Todas as histórias possíveis, a premissa da narrativa é o acidente da primeira história, que se desdobra em três narrativas de personagens com envolvimento no fato. No entanto, a plateia não sabe qual dessas trajetórias será narrada. A principal diferença entre as peças é a mensagem por trás delas e a atmosfera: “Nas duas experiências, a gente propõe uma relação com o espectador, uma busca por envolvimento da história. Estamos tentando falar muito sobre essa relação com a vida. Acho que tem muito a ver com o momento, em que há essa eminência da morte. A situação da pandemia deixou muito explícita essa fragilidade da vida. O VHS é muito voltado para a finitude e Todas as histórias possíveis fala sobre a possibilidade de vida, de entendermos que já que estamos vivos precisamos aproveitar isso de uma forma responsável”.

Os dois projetos só foram viabilizados por causa do apoio do Sesc Avenida Paulista, que tem feito lives e exibições cênicas na quarentena. “De alguma forma é louvável o papel que o Sesc tem desempenhado dentro dessa situação para os artistas no país. Os espetáculos só foram possíveis por causa dessa busca do Sesc de fazer com esse movimento cultural continuasse acontecendo. Não só para os artistas, mas também para o público”, avalia o autor dos textos.

Nomes de peso

A partir de 14 de setembro, outro projeto cênico feito pelo WhatsApp terá início no Brasil. É Amor de quarentena, versão brasileira de uma iniciativa que nasceu na Argentina e está em cartaz em seis países. A proposta reúne artistas de peso, mantém o teatro em voga e ainda tem um cunho social. “Por onde passa, esse espetáculo angaria elenco de peso, por causa do cunho social. Os artistas não recebem cachê para fazer, ensaiar. Tudo que é arrecadado será destinado para o fundo Marlene Colé (que auxilia artistas e técnicos das artes cênicas na pandemia)”, explica o diretor Daniel Gaggini. Também há intenção de ampliar as doações a outros fundos.

O espetáculo retrata uma história de amor, de uma antiga paixão que reaparece em tempos de isolamento. A peça tem duração de 13 dias. A cada dia, em diferentes horários, o espectador é surpreendido com novas interações pelo aplicativo de conversas. Do outro lado, esse amor será encenado por um dos quatro atores do projeto: Reynaldo Gianecchini, Mariana Ximenes, Débora Nascimento ou Jonathan Azevedo. “Criamos uma obra via WhatApp. São mais de 60 mensagens, arquivos que vão desde mensagens de voz a fotografias, vídeos e músicas. Tudo isso foi feito pelos atores, nas casas deles. A nossa ideia é que seja o mais real possível para quem receba essa experiência”, completa.

O diretor diz que o fato de ser uma narrativa amorosa é o que fará com que o público se relacione facilmente com a trama. “Primeiramente, porque não temos gênero. Isso é espetacular. Já foi pensado para que conseguisse atingir todos os públicos. Todos contam a mesma história, mas cada um a sua maneira. Aqui no Brasil a gente teve a liberdade de adaptar para o nosso universo daqui, onde as mensagens são mais curtas. Também bolamos uma coisa que quando a pessoa recebe o primeiro aviso no WhatsApp, ela só continua a receber se salvar aquele número com o nome de alguém. Isso já torna algo muito pessoal. Pode ser um amor do passado, de um parente. Torna o público ativo também na construção da história”, avalia Gaggini. O texto é de autoria de Santiago Loza com tradução de Luciana Rossi.

 

Amor de quarentena
Dirigido por Daniel Gaggini com tradução de Luciana Rossi e produção de elenco de Juliana Brandão. Protagonizado por Reynaldo Gianecchini, Mariana Ximenes, Débora Nascimento e Jonathan Azevedo. De 14 de setembro a 5 de novembro. Duração de 13 dias. Ingressos a R$ 40. À venda em www.sympla.com.br. Não recomendado para menores de 14 anos. O que é necessário: um fone de ouvido e acesso ao WhatsApp.


Todas as histórias possíveis
Do grupo Magiluth. De quinta a domingo, a partir das 19h, pela internet. Os ingressos são gratuitos e podem ser retiradas pelo site www.sescsp.org.br/avenidapaulista. O que é necessário: um fone de ouvido e acesso ao WhatsApp. Duração de 30 minutos.

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