A volta por cima do cine drive-in

As noites da capital abrigam o mais antigo dos cinemas neste formato do país há 47 anos e segue resistindo

» Geovana Melo*
postado em 12/09/2020 23:58

Há 47 anos, durante todas as noites, uma grande tela de cinema ao ar livre, com um letreiro luminoso e um amplo estacionamento lotado de carros integram a história da capital e ocupa um pedaço do Autódromo Internacional de Brasília. O Cine Drive-in reúne lembranças de décadas em um só local. Até o começo do ano, o lugar era raridade: o último cinema a céu aberto do país e único da América Latina.

Desde 1975, Marta Fagundes tem uma ligação com o local que conheceu aos 15 anos. De funcionária, tornou-se administradora e, em seguida, proprietária do cinema que é patrimônio cultural da cidade. “Dois anos depois da inauguração, eu e meu pai viemos trabalhar aqui. Na época, eu fazia o segundo grau, então não ia todo dia”, relembra Marta, que aos fins de semana distribuía balinhas e cupons de refrigerante na portaria. Enquanto o pai, Jair Fagundes, administrava o Cine.

Tempos depois, ela assumiu a função do pai, mas foi em 1988 que a jovem usou todas as economias e vendeu o carro para comprar o cinema. “Tive que correr atrás de uma sociedade também, porque faltava um pedaço do projetor e era muito caro. Ficamos seis meses fechados. Esse foi um dos piores momentos, voltamos a funcionar, mas até conseguir conquistar os clientes foi difícil”, conta a proprietária.

Desde então, o cinema vem competindo com os avanços tecnológicos. O surgimento de videocassetes, do DVD, da tevê a cabo e dos serviços de streamings diminuiu a frequência do público no local. “Quando inauguramos, Brasília tinha 11 cinemas. Hoje, tem mais de 80. Então, o Drive-in acabou ficando meio esquecido nesse mundo de shoppings e complexos, e cada vez que abria um novo cinema ficava mais difícil da gente marcar filmes novos, porque na época era película, então tinha que esperar um cinema terminar de exibir, para a gente pegar e exibir aqui”, pontua a proprietária que tocava o local apenas com os filhos e com a operadora projecionista.

Para manter o lugar, Marta se afundou em dívidas. Em alguns momentos, o Cine Drive-in chegou a exibir filmes para apenas dois carros, mas tudo mudou depois de uma reportagem do Fantástico, em 2011. “Marcelo Canellas, da Globo, passou uma semana inteira gravando no Drive-in, isso deu um ‘boom’, a gente voltou com tudo. E, na época, estava estreando Somos tão jovens e Faroeste caboclo, filmes que alavancaram o nosso cinema”, garante a administradora do local.

*Estagiária sob supervisão de Igor Silveira

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