Música

Aos 87 anos, o mestre Monarco lança disco 'Minha vontade', em setembro

Estão sendo lançados CD Ao Vivo e DVD com sambas de terreiro compostos por bambas

Irlam Rocha Lima
postado em 14/09/2020 07:00 / atualizado em 14/09/2020 15:04
 (crédito: Marcos Hermes/Divulgação)
(crédito: Marcos Hermes/Divulgação)

Maior vencedora do carnaval carioca, com 22 títulos, a Portela, uma das escolas de samba mais queridas pelos brasileiros, tem sido cantada em prosa e verso por escritores, poetas e compositores. Difícil imaginar quem não conheça, por exemplo, Foi um rio que passou em minha vida, clássico da MPB, de autoria de Paulinho da Viola, tido como o hino portelense. A agremiação, criada em 1923, no bairro de Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio de Janeiro, que ostenta as cores azul e branco e tem a águia como símbolo, volta a ser celebrada.

Sob o título Minha vontade, estão sendo lançados CD Ao Vivo e DVD com sambas de terreiro compostos por bambas, responsáveis pela história musical da Portela e interpretados pelos integrantes da Velha Guarda, grupo do qual o mestre Monarco, que comemora 87 anos em 2020, é o único remanescente da formação original. O projeto, com direção do maestro Mauro Diniz, traz o registro de um show realizado na quadra da escola, em 2015 e conta com a participação das cantoras Maria Rita, Teresa Cristina e Cristina Buarque.

Este é o terceiro disco que reúne composições de expoentes da agremiação. Os anteriores foram o Passado de glória, de 1970, produzido por Paulinho da Viola, marcando a chegada do cantor e compositor à Portela; e o Tudo azul, registro da trilha sonora de documentário homônimo, dirigido por Carolina Jabour e Lula Buarque de Holanda, em que Marisa Monte, ao demonstrar seu amor pela agremiação, resgatou a obra musical de antigos compositores da escola. Tanto o filme quanto o álbum chegaram ao mercado em 1998.

Minha vontade, que dá título a este novo trabalho, é nome também de uma composição de Chatim. Entre as 17 músicas escolhidas para o repertório, nada menos que sete têm a assinatura de Monarco. Passado de glória ele fez sozinho; enquanto Lenço, Lindo, Corri para você, Vivo isolado do mundo, Coração em desalinho e Vai vadiar compôs com parceiros: Chico Santana, Noca da Portela, Alcides Malandro Histórico e Ratinho.

As outras faixas são criações de nomes históricos da Portela: Manacéia (Natureza e Quantas lágrimas), Aniceto (Desengano), Candeia (Vai saudade), Paulo da Portela (Cidade mulher e Cocorocó), Alberto Lunato (Você me abandonou), Argemiro e Casquinha (A chuva cai). Nas gravações, a Velha Guarda foi acompanhada por banda de 12 músicos, sob a batuta do cavaquinista Mauro Diniz. O grupo teve como convidadas especiais Teresa Cristina (Sofrimento de quem ama), Cristina Buarque (Quantas lágrimas) e Maria Rita (Coração em desalinho).


Entrevista// Monarco


O senhor é portelense desde quando?

Sou ligado à Portela há 75 anos. Eu era um adolescente, que acabara de chegar a Oswaldo Cruz com a família, vindo de Nova Iguaçu. Mas naquela cidade da Baixada Fluminense já era portelense. Aliás, aos 8 anos fiz minha primeira composição, um samba chamado Criolinho Sabu.


Quando ocorreu o seu primeiro contato com a escola?

Em Oswaldo Cruz, fomos morar na Rua Taubaté, que ficava a 10 minutos da Portelinha. Na mesma noite que chegamos, quis conhecer a antiga sede da escola. Ao voltar para casa, minha mãe, preocupada com o sumiço, me chamou a atenção. Mas continuei indo ao terreirão, e o primeiro compositor da escola que conheci foi Alcides Malandro Histórico, de quem tive boa acolhida; assim como de Alvaiade e Manacéia.


A partir dali já passou a participar dos ensaios?

Eu praticamente não perdia nenhum ensaio. Com 15 anos, escrevi meu primeiro samba, intitulado Retumbante vitória. A partir dali fui promovido por Seu Natal (eterno presidente da Portela). Tempos depois João Nogueira gravou Retumbante vitória, mas com outro nome Passado da Portela.


Qual foi seu primeiro samba gravado?

Demorou um pouco para eu ter um samba gravado.O primeiro foi Lenço, por Paulinho da Viola, em 1970. Mas não aconteceu. Até então, as coisas eram bem difíceis. Eu ainda era chamado pelo meu nome de batismo, Hildemar, e trabalhava em feira, vendendo peixe; e como guardador de carros em frente ao prédio do Jornal do Brasil, na Avenida Brasil.


O que determinou a mudança em sua vida?

O pessoal do Jornal do Brasil, principalmente o Juarez Barroso, que era amigo do José Ramos Tinhorão, começou a falar de mim para algumas pessoas. Mas a mudança veio mesmo em 1971, depois que Martinho da Vila gravou Tudo menos amor, o meu primeiro sucesso. Aí comecei a fazer shows e fui pela primeira vez a Brasília, para me apresentar na Aruc, a convite do Zico, que era o presidente da escola, afilhada da Portela. À época conheci o Moa, de quem me tornei amigo.


Quem mais gravou músicas suas?

Zeca Pagodinho, sem dúvida. Acredito que tenho samba em todos os discos lançados por ele. Os maior sucesso são Coração em desalinho, Vai vadiar e Falsa alegria. A Beth Carvalho também gravou vários. Coração em desalinho foi gravado por Maria Rita depois como tema para a abertura de uma novela (Insensato coração).


Por que o senhor, que é presidente de honra da Portela, nunca compôs um samba enredo para a escola?

Creio que não tenho dom para escrever samba enredo. Deixo isso para os outros. Prefiro compor samba de terreiro.


Minha vontade foi gravado em 2015. Por que só agora está sendo lançado?

O show que fizemos na Portela, com a quadra superlotada, num clima de grande entusiasmo, foi gravado e havia promessa de ser registrado num DVD e CD Ao Vivo. Mas a promessa não foi cumprida. Felizmente a Biscoito Fino se interessou pelo projeto e agora faz o lançamento. É um sonho que foi realizado. O título veio de um samba composto por Chatim. Este é o segundo lançamento da Velha Guarda, mas temos muitos sambas inéditos em nosso acervo, que podem vir a ser gravados.


Quem são os componentes da Velha Guarda, atualmente?

Eu sou o único da formação original da Velha Guarda, criada pelo Paulinho da Viola. Os atuais integrantes, além de mim, são Serginho Procópio e Marquinhos do Pandeiro; e também as pastoras (vocalistas) Surica, Neide Santana, Áurea Maria e Jane Carla. E tem ainda o grupo que nos acompanha.


O Carlos Elias, que mora em Brasília, foi da ala de compositores da Portela. Que lembranças guarda dele?

Guardo boas lembranças do Carlos Elias, que era muito atuante na Portela. Tínhamos muita consideração por ele. Quando fui a Brasília participar do projeto Flores em vida, no CCBB, ele estava na plateia e no final do show trocamos abraço. Temos a mesma idade, 87 anos.


SERVIÇO

Minha Vontade

CD da Velha Guarda da Portela, com 17 faixas, disponível nas plataformas digitais. O CD e DVD físico sai este mês. Lançamento da Biscoito Fino.

 

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