Música

Sincretismo musical marca primeiro álbum da banda brasiliense Saci Wèrè

'Cabeça sem tampa' cristaliza anos de pesquisa em que estilos brasileiros e latino-americanos se sucedem em cada uma das músicas

Devana Babu*
postado em 16/10/2020 18:00
 (crédito: Saulo Brandão/Divulgação)
(crédito: Saulo Brandão/Divulgação)

“A figura do Saci, originalmente, era uma entidade dos tupi-guarani. Eles tinham essa ideia de que havia na floresta um serzinho que andava nos redemoinhos e fazia estripulias por aí. Quando chegaram os europeus, houve uma espécie de sincretismo do saci com um duende português, e ele passou a ter um gorro vermelho. E, com a chegada dos negros escravizados, ele também incorporou elementos da cultura africana e se tornou preto e com uma perna só”, explica o historiador, ator, músico e dançarino Chris Barea, cantor e compositor da banda brasiliense Saci Wèrè.

A carapuça serve perfeitamente ao primeiro álbum do grupo, Cabeça sem tampa, lançado nesta sexta-feira (16/10) nas diversas plataformas digitais. O sincretismo cultural do Saci também descreve as 11 faixas do álbum, em que uma profusão de estilos se sucedem e misturam a cada música. “Wèrè significa louco, em iorubá. Mas é uma loucura que é meio que uma transe, logo, um saci louco. A gente gosta de pensar que é essa mistura louca que só poderia acontecer no Brasil, que é a brasilidade, uma mistura louca. Porque o saci anda em redemoinhos e é imprevisível”, complementa.

Gravado no estúdio Zarabatana Records, o álbum foi financiado com recursos do FAC (Fundo de Apoio à Cultura) do Distrito Federal. Haverá cópias em CD e uma tiragem de 300 LPs já está no prelo. As cópias já podem ser pré-encomendadas, diretamente com a banda, pelas redes sociais.

Comunhão

A origem da banda remete a um grupo de amigos que se formou ao redor do IluMina, espaço de ecologia, cultura e educação holística situado na região conhecida como Serrinha do Paranoá, área rural próxima à região administrativa de mesmo nome. Por volta de 2014, começou a se estabelecer essa espécie de comunidade artística que se reunia entre vinhos e rituais de Ayahuasca. “Era um grupo de amigos que gostava muito das músicas uns dos outros. Virou uma espécie de movimento poético, onde a gente se encontrava e mostrava poesias e músicas novas uns para os outros, e isso dava vontade de escrever mais música para mostrar aos demais”, descreve Barea.

Foi neste contexto ele conheceu Abacate, futuro parceiro, comungando Ayahuasca no terreiro do IluMina. Abacate é cofundador do projeto, uma ecovila que mantém um projeto de reflorestamento da área ao redor do Córrego do Palha. “Ele morava lá quando eu o conheci e aí nos apaixonamos e agora moramos juntos”, conta Chris, que também mora no centro cultural e ajuda nas atividades de reflorestamento. “A gente começou, devagar e lentamente a se conhecer musicalmente, e percebemos que tínhamos apetites muito parecidos, e esses apetites deram origem ao Saci”, explica.

Os apetites em questão referem-se a “uma vontade de entender o que é a música brasileira, como podemos incutir a ideia de brasilidade e latinidade em uma pesquisa musical que dê origem a arranjos a uma estética própria”.

 

Um redemoinho de ritmos e linguagens artísticas, como o teatro, caracterizam a arte da banda Saci Wèrè
Um redemoinho de ritmos e linguagens artísticas, como o teatro, caracterizam a arte da banda Saci Wèrè (foto: Thaís Mallon/Divulgação)



Os amigos passaram, então, cerca de dois anos apenas pesquisando sonoridades e compondo juntos, e desse período surgiu a maior parte das músicas do repertório. “Eu e Abacate sempre fomos muito apaixonadas pela ideia da diversidade rítmica e musical do Brasil. Começamos a pesquisa e fomos agregando aos poucos, até formar realmente uma banda”, pincela. “Tudo é feito dentro de uma antropofagia não ipsis literis, de trazer para a nossa realidade e dar uma leitura nossa para cada uma dessas pesquisas.”

Apenas em 2017 as experiências se consolidariam como uma banda de fato, quando os músicos recrutaram Amanda Duarte (voz), Danilson Oliveira (baixo), Gui Campos (guitarra) e Fernando Mazoni (bateria) para integrar o projeto. Os músicos foram pinçados por meio de indicações ou de locais em comum que frequentavam, com base no pré-requisito de que também fossem pesquisadores, artistas multidisciplinares e abertos à um amplo leque de influências possíveis. Cada qual com suas pesquisas e influências, contribuiu decisivamente para o resultado final de cada uma das músicas. Além das parcerias e composições individuais de Chris e Abacate, Amanda e Gui também contribuíram com suas próprias músicas.

Colaboradores

O álbum contou com participações do saxofonista Esdras Nogueira (Ex-Móveis Coloniais de Acaju), da cantora Nanãn Matos, do percussionista Macaxeira Acioli (Muntchako) e da Orquestra Nzinga de Berimbaus. “Desde quando eu era moleque gostava de Móveis e já reparava no Esdras, e ele é amigo do Gui (o guitarrista). Quando a gente pensou em metais, a primeira pessoa que veio à cabeça foi o Esdras, porque ele tem uma personalidade na forma como se relaciona com o instrumento, que a gente admira. Foi muito fácil lembrar dele”, conta Barea.

A participação de Nanãn Matos também surgiu por afinidades. Amiga de longa data e frequentadora dos encontros daquele grupo de amigos, ela foi uma das primeiras pessoas para quem Barea mostrou a música Xangô quando ele a compôs. Tempos atrás, eles ensaiaram um projeto e fizeram arranjos de vozes e violão para a música, que não foi para a frente por conflitos de agenda. Mas a experiência ficou na cabeça e foi retomada no disco. “Foi muito legal porque ela é do axé, então ela sentiu mesmo uma conexão com essa música. Ela consegue incorporar... aliás, não é nem incorporar, porque ela já é isso, ela é o axé, ela é essa coisa de Xangô e Iemanjá, traz essa força no canto, e eu não pensei duas vezes antes de chamá-la. Foi uma das pessoas que me apresentou o axé e hoje em dia eu sigo esse caminho”, enaltece.

Um coro formado por Priscila Lima, Raquel Lopes e Simone campos fortalece as harmonias, incrementadas ainda pelo naipe de metais de Lili do Trombone, Paulo Black (trompete), Raildo Ratho (sax tenor) e pelo violoncelo de Lúcia Valeska. Para completar, o poeta João Pedreira contribuiu com um poema. “Ele fez um poema sinistro, lindo, uma das coisas mais lindas do disco, que ele começa a falar meio rápido, meio Kerouac”, empolga-se o vocalista.

O disco foi produzido por Samuel Mota (Muntchako). Entre as contribuições dele, pode-se destacar a introdução de elementos eletrônicos ao universo musical da banda. “A gente sempre teve a perspectiva de beber na fonte da música popular, e negligenciamos o eletrônico. O Samuel abriu nossa cabeça para deixarmos de ser puritanos. Popular é popular, mas a grande sacada é que somos urbanos e precisamos atribuir a nossa própria leitura desses elementos. Os elementos eletrônicos dão ao disco uma cara de novidade”, conclui o vocalista.

Lives

Como parte das atividades de lançamento do álbum, a banda está recebendo, ao longo do mês, uma série de convidados para bate-papos sobre assuntos pertinentes ao disco. As primeiras convidadas foram Nanãn Matos e Flaira Ferro. Confira a programação:

Terça-feira (20/10)
21h
Eu Vou – Brasilidades e Latinidades
Convidado: Gomes Rafael (Franscisco el Hombre)

Quinta-feira (22/10)
21h
Iabás - o feminino (sagrado e profano)
Convidada: Duda Brack

Terça-feira (27/10)
21h
Pra enfeitar - (Cultura popular)
Convidadas: Shaira e Letícia Coralina (Seu Estrelo)

*Estagiário sob a supervisão de Adriana Izel

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