Terror

Noturnos: Série do Canal Brasil mostra lado B de Vinicius de Moraes

Série de terror dos premiados diretores Caetano Gotardo e Marco Dutra chama a atenção para obras menos populares do Poetinha que, para além de contar sobre amor, sabia assustar

Ricardo Daehn
postado em 21/10/2020 06:00
Andrea Marquee é destaque em Noturnos, à frente de cinco personagens -  (crédito: Emiliano Capozoli/Divulgação.)
Andrea Marquee é destaque em Noturnos, à frente de cinco personagens - (crédito: Emiliano Capozoli/Divulgação.)

Adaptar obras de Vinicius de Moraes para o audiovisual pavimenta inúmeras possibilidades. Junto com Renato Fagundes, o idealizador da série Noturnos (estreia esta quarta-feira 21/10, no Canal Brasil e no GloboPlay), a dupla de diretores Caetano Gotardo e Marco Dutra optou pelo tom soturno. “A maioria textos que usamos é pouco conhecida. Uma exceção é O operário em construção, que dá base para um dos seis episódios. Nele, pesa um forte caráter social. O poema Balada do morto vivo dá abertura para a série, com uma pessoa contando para outras uma história de fantasma. O incriado, um dos poemas recriados, é bastante abstrato, sombrio e perturbador. Quisemos passear por todos os textos na busca de chaves do universo do gênero de terror”, explica Caetano Gotardo.

A partir de textos com direitos negociados, entre os quais A grande voz, mas com total liberdade para criações, Gotardo e Marco Dutra, entre lidas e relidas, notaram nos escritos de Vinicius, entre os anos de 1930 e 1950, claros diálogos com questões presentes em fortes discussões de hoje. “A gente está passando um momento muito cheio de horrores. O Brasil tem uma história muito rica em horrores, infelizmente. Muita coisa terrível costuma acontecer. No momento atual, isso está muito evidente”, avalia Caetano Gotardo. Sem vontade imposições, transpareciam nos textos camadas que aderiam temas como escravidão, amarras religiosas, feminicídio, extermínio de índios e de transgêneros. Para lembrar do poder de fogo da dupla, vale a lembrança de que ambos dirigiram Todos os mortos, filme sobre a perpetuação do colonialismo e que foi exibido nos festivais de Berlim e Gramado.

“Li um tanto de Vinicius (antes da série). Um dos traços interessantes dele é ser acessível. Ele traz o rigor formal, mas lida com universos populares", observa Gotardo, coautor de Matéria, livro de poesia feito junto a Marco e Carla Kinzo. Chamado de Noturna Companhia de Teatro, um grupamento de atores lidera a ação de Noturnos. Em meio à tempestade e alagamentos, personagens dos atores Ícaro Silva, Rafael Losso e Marjorie Estiano se desdobram no comando de cada episódio: um a um, são eleitos para, sob o manto do fantástico e da estranheza, narrarem vivências ou contos ouvidos. "A literatura de gênero, como em Noite na taverna, e o cinema têm, na tradição, discutir aflições do mundo. E o que nos causa medo geralmente está calcado na nossa realidade”, comenta Gotardo.

Diálogos afinados


A trupe toda reunida: os intérpretes dos atores que protagonizam a série Noturnos
A trupe toda reunida: os intérpretes dos atores que protagonizam a série Noturnos (foto: Emiliano Capozoli/Divulgação)

 

A relação entre música e dramaturgia, nutrida por obras de Bertolt Brecht, pelos musicais cinematográficos, por Chico Buarque e chanchadas, inspira a dupla Gotardo e Dutra (responsável ainda por canções de Noturnos); e, claro, tangencia o envolvimento de ambos por Orfeu da Conceição (peça de Vinicius de Moraes), num “bolo de referência” nas inspirações. “Espalhamos, na série, algumas pistas ligadas à figura do Vinicius, entre os personagens. Há um que escreve poesia, outro é chamado de Poetinha (num bar), há ainda o personagem Marcos (Vinícius de Moraes era Marcus Vinicius)”, demarca Gotardo.

Severa e com a mão firme, mas nunca impositiva, a personagem de Thaia Perez, uma diretora de teatro que é contraditório farol para a trupe que protagoniza Noturnos tem amplo destaque na trama. Batizada Tatiana foi inspirada em famosos da cena teatral, entre as quais Ariane Mnouchkine, Antunes Filho, Twyla Tharp e Pina Bausch. Boêmia, independente, apreciadora da bebida e do fumo, a diretora Tatiana carrega, à la Vinicius, uma garrafa de uísque para os ensaios. Na conjuntura, dialoga com os atores, optando por nutrir processos criativos vivos e complexos.

Métodos e visões diferenciadas também despontam em Noturnos, já que para as narrativas dos episódios, sob direção-geral de Gotardo e Dutra, vários diretores foram acionados. “Quisemos a variação de olhares, com liberdades estéticas para um grupo heterogêneo”, explica Caetano Gotardo. Gustavo Vinagre, Aaron Salles Torres, Vinícius Silva e Rodrigo Aragão (ainda responsável pelos efeitos visuais) formaram a ala masculina, enquanto a diretora Gabriela Amaral Almeida e a corroteirista Alice Marcone trouxeram o talento feminino para a série. Uma metalinguagem ainda se insere em Noturnos: “Com o grupo de teatro como personagens, os atores reaparecem diversas vezes em diferentes personagens. Isso alimenta questões de fabulação e de representação”, conclui Gotardo.

ENTREVISTA // Marco Dutra, codiretor

O terror gráfico é menos impactante do que o psicológico?
O gênero fantástico e seus subgêneros sempre fizeram uso de uma infinidade de ferramentas na tentativa de produzir efeitos diversos: medo, desconfiança, pavor, tensão, expectativa. Tanto o gore – a violência gráfica – quanto o suspense de sugestão funcionam; não acredito que um seja necessariamente mais impactante do que o outro. Tudo depende do contexto de cada história e, claro, da sensibilidade de quem está assistindo. Na série, aproveitamos a diversidade das histórias para usar tanto elementos gráficos quanto não gráficos, dependendo do subgênero de cada episódio: a história de fantasmas, a alegoria, a ficção científica.

É perceptível a convicção crescente de trabalharem (você e Caetano Gotardo) com atores negros, não?
É preciso que haja diversidade entre criadores para que a arte possa evoluir e conseguir ler e refletir o mundo de maneira forte e relevante — não apenas no universo dos atores, mas em todas as áreas da criação. No mundo, e especialmente no Brasil, não há como ignorar os dilemas raciais e de gênero. É um dos maiores desafios que temos como sociedade na busca pela igualdade de direitos.

A musicalidade de Vinicius inspira a dramaturgia que compõem, sendo você e Gotardo também autores de músicas? Como notam a obra dele?
Eu e Caetano gostamos muito de música, e a presença de canções têm marcado muitos dos nossos filmes e projetos. Vinicius de Moraes nunca foi uma de nossas referências maiores, mas ele certamente faz parte do nosso imaginário. Conscientemente ou não, suas letras, seus poemas e muitas das suas ideias estão na base de nossa formação. Na série, tentamos abordar o complexo e amplo universo do Vinicius, sem deixar de criticá-lo e se opor a ele quando necessário. Uma das características do Vinicius é justamente a amplitude das suas áreas de atuação: ele escreveu poesia e prosa, mas também teatro, música, crítica de cinema e tantas coisas. Para nós, foi incrível descobrir esses textos menos lidos e divulgados. Encontramos também, durante a preparação da série, críticas de cinema de Vinicius em que aparece um carinho grande pelo cinema de horror (em muitos casos, admirando filmes B pouco conhecidos). Textos como Conto carioca e Balada do morto vivo mostram um Vinicius sombrio, porém não tão distante do universo trágico e romântico do autor de Garota de Ipanema e Orfeu da Conceição. Já textos como O mágico e O incriado revelam um aspecto surreal e apocalíptico que nos surpreendeu e nos estimulou.

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