Música

Pupillo, ex-Nação Zumbi, lança álbum em que celebra trilhas de novelas

Com o projeto Sonorado, ao lado de Thomas Harres (percussão e voz), Marcio Arantes (baixo e voz), Zé Ruivo (teclados, sintetizadores e voz), Guri (guitarra e voz) e Ângelo Medrado (caxixi e voz), dá nova roupagem a sucessos dos folhetins

Devana Babu*
postado em 24/10/2020 06:00
 (crédito: Céu/Divulgação.)
(crédito: Céu/Divulgação.)

Após 23 anos como baterista da banda Nação Zumbi, e pelo menos dois produzindo e acompanhando outros artistas (como Gal Costa, Elza Soares, Céu e Nando Reis), o pernambucano Pupillo lançou o primeiro projeto autoral, Sonorado apresenta novelas. Ao lado de Thomas Harres (percussão e voz), Marcio Arantes (baixo e voz), Zé Ruivo (teclados, sintetizadores e voz), Guri (guitarra e voz) e Ângelo Medrado (caxixi e voz), o músico revisita trilhas sonoras clássicas de novelas dos anos 1970, com levadas do hip-hop clássico, sob a alcunha de Sonorado.

O projeto pode ser considerado uma espécie de estreia de Pupillo, que não se sente muito confortável com a definição. “É um pouco difícil, porque, agora, a gente está lançando esse disco e soa como uma banda, apesar de eu estar à frente. Mas, sem dúvida, é um projeto em que eu estou lançando algo que tem um carimbo meu como artista; mais como artista do que como produtor. Então, sim, vamos dizer que Sonorado seja o nome dado à minha carreira como artista”, admite. “Ainda é delicada, para mim, essa coisa, porque eu sempre fui um músico de banda, sempre trabalhei coletivamente, então, está sendo uma novidade falar sobre algo que seja lançado como o início de uma carreira solo”, pondera.

Foi por meio do hip-hop que ele chegou às trilhas sonoras de novela. E foi a partir do trabalho com a Nação Zumbi que ele se familiarizou com a cultura do hip-hop, um dos alicerces do Manguebeat. Em casa, durante a adolescência, apenas assistia às novelas por tabela, com a família. Mais tarde, imerso na cultura do sample e da discotecagem, descobriria na música feita para as novelas de 1969 a meados dos anos de 1970 um tesouro. “Muitas dessas canções são cultuadas pelo DJs, e foi dentro deste contexto que eu resolvi fazer esse projeto”, esclarece.

 

Capa do álbum do projeto Sonorado
Capa do álbum do projeto Sonorado (foto: Sonorado/Divulgação.)

 

“Quando eu comecei a pesquisar, formar minha coleção de vinis, eu descobri que as trilhas de novela, nesse período, eram feitas especialmente para as atrações, e as emissoras contratavam arranjadores e músicos incríveis, que criaram um estilo próprio, e isso reverberou muito na música brasileira. Algumas foram compostas por artistas importantíssimos, como Antônio Carlos & Jocafi, Roberto e Erasmo Carlos”, aponta.

Depois desse período, ele avalia, esse zelo se perdeu. “O que era feito com um cuidado estético foi mudando de acordo com o que a indústria foi fazendo com as emissoras. “Desde os anos 1980, isso virou basicamente um negócio para as gravadoras. Vários artistas apareciam na rádio devido às novelas, e isso se inverteu. As gravadoras viram que era um excelente negócio colocar seus artistas nas trilhas, porque tinha uma audiência enorme”, conta.

Sampleado

Sonorado imprimiu roupagem moderna à música, importando elementos dos primórdios do hip-hop. Primeiro, por causa da predominância do breakbeat, batida que remonta às origens do estilo. Segundo, ao criar arranjos com ar de discoteca, valorizando o balanço em vez do virtuosismo dos instrumentistas. “A intenção é de que as pessoas possam dançar e ouvir a música, sem prestar atenção a algo específico, como normalmente se faz em um show instrumental”, destaca. “É como um DJ imaginário dando o play nessa música, como se estivesse discotecando.”

As músicas têm trechos em que os demais instrumentos cessam para que a sessão rítmica brilhe sozinha, ainda em referência ao estilo das discotecas. “É quase um chamado: pode samplear, porque foi feito e existe esse espaço na música, para isso”, completa.

Serviço
Sonorado apresenta novelas, álbum de Sonorado (projeto de Pupillo). Deck, 9 faixas. Disponível nas plataformas digitais (https://sonorado.lnk.to/SonoradoApresentaNovelasPR).

*Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira

As novelas, faixa a faixa

Selva de pedra

Composta por Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, a música é tema de abertura da novela homônima de Janete Clair, exibida em 1972. Nela, Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco) é um jovem interiorano que, ambicioso, põe em risco o casamento com Simone (Regina Duarte).

O bem amado

O tema de abertura da novela de mesmo nome foi composto por Toquinho e Vinícius de Moraes e interpretada pelo MPB4. Na produção de 1973, de Dias Gomes, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), um político corrupto e demagogo, que quer se eleger como prefeito.

Primeiro amor

Composta por Antônio Carlos, Jocafi e Ildazio Tavares, a música é tema de abertura da novela homônima de 1972, escrita por Walther Negrão. O professor Luciano Lima (Sérgio Cardoso) se apaixona pela governanta, Paula (Rosamaria Murtinho), mas encontra resistência dos filhos.

Irene

A música de Caetano Veloso fez parte da trilha sonora de Véu de Noiva, novela de Janete Clair exibida em 1969 que foi a primeira do Brasil a ter trilha sonora original, produzida por Nelson Motta. A trama, cheia de reviravoltas amorosas, mostrava a rivalidade entre Andréa (Regina Duarte) e Irene (Betty Faria).



Mentira

Composta por Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, a música fez parte da trilha sonora da novela Carinhoso, exibida em 1973. A trama é sobre o romance de Cecília (Regina Duarte) e Eduardo (Marcos Paulo), o irresponsável filho dos patrões do pai da namorada.

Pela cidade

Interpretada por Bertrame e o Conjunto Azymuth, a composição de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle fez parte da trilha sonora de O Espigão, novela de 1974 escrita por Dias Gomes. A história é sobre Lauro Fontana (Milton Moraes), um homem pobre que se deu bem dando o golpe do Baú.

Tema de Kiko

Composição de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, a música interpretada pelo conjunto The Youngsters era tema do personagem Kiko, da novela Pigmalião 70, de 1970. Escrita por Vicente Sesso, conta a história de Fernando Dalba (Sérgio Cardoso), que recebe lições de boas maneiras da viúva Cristina (Tônia Carrero).

Luzes... câmera... ação

Composta por Chico Anísio e Carlos José, a música fez parte da trilha sonora de O Cafona. Escrita por Bráulio Pedroso, a novela de 1971 tinha como personagem principal novo-rico Gilberto Athayde (Francisco Cuoco).

O Semideus

Escrita por Janete Clair e exibida em 1974, a história gira em tordo do sumiço do excêntrico milionário Hugo Leonardo (Tarcísio Meira). O tema de abertura, homônimo, foi composto por Baden Powell e Paulo César Pinheiro.

*Todas as novelas foram exibidas pela Rede Globo

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