O retorno das rodas de samba

Com a flexibilização, seguindo o protocolo de segurança, criado pelas autoridades sanitárias, artistas voltam a se reunir em pontos tradicionais da cidade

Irlam Rocha Lima
postado em 23/10/2020 20:50

 

“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é/ Ou é ruim da cabeça ou doente do pé”’, cantava Dorival Caymmi em Samba da minha terra, ao prestar homenagem a um dos gêneros mais representativos da música popular brasileiro. O compositor baiano, mestre do ofício, é autor também de outras preciosidades desse segmento da MPB, como Doralice, João Valentão, Lá vem a baiana, O que é que a baiana tem e Saudade da Bahia, que foram gravados por intérpretes da importância de João Gilberto, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia e Rosa Passos, sem esquecer de Carmem Miranda.
Alguns desses clássicos fazem parte do repertório de muitos dos cantores e grupos que comandam rodas de samba espalhadas por todas as regiões do país, inclusive, Brasília, onde elas se proliferam por vários pontos. Com a promulgação do decreto do Governo do Distrito Federal que revogou a proibição de shows — determinada por causa da pandemia — em bares e restaurantes, alguns estabelecimentos da capital voltaram a oferecer essa atração ao público. Para tanto, buscam seguir o protocolo de segurança, criado pelas autoridades sanitárias.
Os apreciadores das rodas de samba aos poucos têm voltado a prestigiá-las em locais como o Outro Calaf (Setor Bancário Sul), às terças-feiras, a partir das 21h; Bar Brahma (201 Sul), Basic Bar (Avenida Araucária, Águas Claras), às quartas-feiras, às 20h; Bar Brahma, aos sábados, com início às 13h30; Pinella (408 Norte), às 20h; e Primeiro Bar (SIG Quadra 08), aos domingos, às 15h e 17h30. Hoje, ao meio-dia, quem retoma às atividades é o Café Musical do Clube do Coro, no Eixo Monumental. Confira onde sambar.

Outro Calaf, 7 na Roda — Interrompida no começo de março, a tradicional roda de samba comandada pelo grupo 7 na Roda, ocorre às terças-feiras, no Outro Calaf, e voltou no dia 6 último, agora a partir das 21h. “No período em que ficamos sem ter contato com o público, em função da covid-19, fizemos algumas lives, pesquisamos novos sambas para incluir no repertório, mas sentíamos muita falta de apresentações ao vivo, trocando energia com as pessoas que têm nos acompanhado ao longo dos anos”, ressalta o cantor e pandeirista Breno Alves. “Retomamos as apresentações em outro formato. Antes, as apresentações eram no meio do salão e, agora, obedecendo a orientação do protocolo de segurança, estamos tocando no palco. Com esse novo normal houve a necessidade de limitar a capacidade do espaço, com todos os espectadores sentados em mesas. Em volta da mesa, é colocada uma linha demarcatória, com os ocupantes dos quatro ou seis lugares usando máscara”, completa.

Basic Bar, Coisa Nossa — O mais antigo grupo de samba de Brasília, criado há 40 anos, o Coisa Nossa sempre esteve em atividade, com passagem por vários palcos da capital e de algumas cidades do país. No momento, o cantor e pandeirista Marcelo Sena, líder e fundador do conjunto, se apresenta às quartas-feiras, a partir das 20h, no Basic Bar, na Avenida Araucária, em Águas Claras, acompanhado por Calabar (cavaquinho), Júnior Morgado (violão) e Carlos Henrique (surdo). “Temos orgulho de ser o único grupo de samba de Brasília que se mantém firme e forte, perto de comemorar 41 anos de carreira. Depois da flexibilização, voltamos a nos apresentar, o que nos traz grande satisfação”, celebra Marcelo.

Bar Brahma, Sambadubar — Cavaquinista com atuação destacada na cena musical da cidade, Nelsinho Serra é o líder do Sambadubar, grupo que comanda a roda de samba do Bar Brahma, desde o dia 10 deste mês, sempre aos sábados, com início às 13h. “Tenho em minha companhia Vinicius Viana (violão 7 cordas) e Júnior Viegas (percussão). No vocal, se revezam as cantoras Anahi e Karla Sangaletti. As pessoas, que estavam saudosas de curtir samba ao vivo, está de volta, mas, por enquanto, só para assistir, porque ainda não podem dançar”, conta Nelsinho. “Por causa do corona, ficamos sete meses sem fazer uma das coisas que mais gostamos, que é tocar e cantar. Quem gosta de ouvir choro também é atendido, pois clássicos do gênero de mestres como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo, fazem parte do nosso repertório”, anuncia o instrumentista.

Pinella, Carla Sangaletti Trio – Bar e restaurante localizado no chamado Baixo Asa Norte, o Pinella, há algum tempo, se tornou um lugar de paquera, mas, principalmente de boa música. A roda de samba do local é muito concorrida e isso pode ser notado, agora no retorno da programação. “Mesmo me ocupando com vários afazeres em meio à pandemia, inclusive participando de lives, não via a hora de voltar a me apresentar em rodas de samba, com a presença do público. A do Pinella, que comando há algum tempo, foi retomada, o que me trouxe grande alegria”, comemora Carla Sangaletti. Ela tem ao seu lado o violonista Rodrigo Dantas e o cavaquinista Pedro Molusco. “Sinto que as pessoas estão adorando a retomada da programação musical. Temos aqui um público cativo, na faixa dos 25 anos, que aprecia o samba tradicional, de mestres do gênero”, complementa a cantora.

Café Musical, Teresa Lopes — Com as portas fechadas há sete meses, o Café Musical do Clube do Choro retoma a programação, hoje, ao meio-dia, tendo como atração Teresa Lopes, nome de destaque do samba na cidade. “A nossa roda de samba, regada por deliciosa feijoada, firmou-se como uma das boas opções, para quem aprecia música de qualidade na cidade”,afirma Marília Castro, que dirige o estabelecimento. “Depois do paradeiro geral, vamos celebrar a reabertura da casa, com o samba de primeira de Teresa Lopes e dos músicos que vão acompanhá-la”, festeja.

Primeiro Bar, Elas que Tocam — Banda formada só por mulheres, que surgiu em 2019, o Elas que Tocam é o destaque da roda de samba que ocorre aos domingos, a partir das 15h, no Primeiro Bar, no Setor de Indústrias Gráficas/ Sudoeste, com abertura de grupo convidado. “Decidimos formar o Elas que Tocam no ano passado, depois de observarmos que, na cena musical de Brasília, não havia nenhum grupo feminino tocando pagode. Como sempre gostamos desse gênero, decidimos nos juntar, para tocar e cantar sucessos de Thiaguinho, Dilsinho, Ferrugem e Sorriso Maroto”, explica a vocalista, Maísa Lameira. “Estamos felizes por poder voltar a mostrar nosso trabalho, nos apresentando no Primeiro Bar, que nos deu ótima acolhida”, ressalta.

 

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