O diário de Maria Beltrão

Jornalista lança primeiro livro em que compartilha reflexões e vivências na pandemia. Em O amor não se isola, a escritora fala sobre família, casa e religiosidade

Adriana Izel
postado em 10/11/2020 23:30

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Diariamente, Maria Beltrão invade a casa do público quando está sob comando do Estúdio I, programa que apresenta desde 2008 na Globo News. Radiante e espontânea, a figura da jornalista é daquelas que o telespectador se acostuma e se arrisca a dizer que conhece, sem nem mesmo ter tido algum contato direto. Essa intimidade com a audiência é o que atrai a atenção para o primeiro livro da carreira da carioca, O amor não se isola, escrito e concluído na pandemia de covid-19, e lançado neste mês pela editora Máquina de Livros.
Apesar do contexto pandêmico, a obra foge do caos do novo coronavírus, que Maria já precisava enfrentar no dia a dia jornalístico, e traz conceitos que ganharam ainda mais valor durante o isolamento social: a casa, a família e a religião. “Muita gente se surpreendeu com a minha religiosidade, de como sou uma mulher de fé, porque isso não é óbvio para quem não me conhece com muita intimidade. (No livro) Falo muito de lar, dos meus. Brinquei com os leitores que, como eles costumam dizer que eu entro na casa deles, agora é a chance deles entrarem na minha. Vejo assim. Com o livro, você também entra na minha casa”, explica.
Em 128 páginas, a autora compartilha um diário com reflexões do que experienciou enquanto escrevia o livro, num período de 18 de abril a 1º de agosto, com dias seguidos e outros espaçados. Maria Beltrão deixou a vontade falar mais alto, já que a ideia não nasceu como um livro. Mas de um desafio proposto pelo marido a ela, a filha e a enteada de fazer um morning paper, método criado pela escritora norte-americana Julia Cameron para despertar a criatividade e que consiste em escrever assim que levanta da cama transcrevendo absolutamente tudo o que passa pela cabeça, sem edição.
Inicialmente, Maria não quis seguir o desafio. Afinal, já precisa escrever para trabalhar. Na pandemia, acatou o pedido. “Acho que sentia a necessidade de fazer essa catarse literária. Até para entender o que estava passando dentro de mim. Ficamos muito inseguros naquele começo da pandemia. Não sabia quando ia ver minha mãe, meu tio que tinha 97 anos (e hoje tem 98), quando comecei o diário. Senti essa necessidade de jogar palavras no papel. Mas se eu soubesse que estava escrevendo um livro, ele não sairia. Como eu não sabia, acabei escrevendo”, diz entre risos.

Escrita falada

A risada de Maria Beltrão peculiar do Estúdio I parece compor a narrativa, mesmo que indiretamente. Por escrever exatamente como fala, é possível imaginar a voz da jornalista narrando os textos tão cotidianos sobre a família, a paixão por musicais, os sonhos vívidos na pandemia, a falta de vontade de malhar, as espiadinhas no Big brother Brasil, a devoção a São Jorge, as despedidas, a chegada da TPM, o resgate de textos antigos, entre tantas outras coisas.
O jeito falante de Maria também compõe Amor não se isola. Como não se limitou a escrever apenas os textos do diário, fez anotações no canto, o livro também as apresenta, numa ideia dos editores. “Sou a mulher das setas. Tenho essa mania. Penso que devia ter falado isso e coloco minhas setinhas. Os editores quiseram deixar o mais fidedigno de um diário possível. Então, também puxaram e botaram as minhas setas como uma anotação ao lado”, completa.
Apenas um dia, 17 de maio, Maria Beltrão optou pelas reticências. Espaço que acaba levando o leitor a uma reflexão sobre o que ele mesmo vivenciou naquela data. “Acabei criando uma ponte que nunca imaginei que seria criada, uma relação com essa página vazia. Até de uma página vazia pode nascer uma coisa bonita”, diz, lembrando que dois amigos compartilharam com ela o que a data significava para eles. Para um, o vazio da morte do pai. Para outra, uma coisa muito maravilhosa. “Até me emocionei”, completa.
Sobre fazer um próximo livro, a jornalista afirma não se imaginar fazendo outra obra: “De jeito nenhum. (risos). Eu não sabia que estava escrevendo. Pra mim, uma página em branco é uma das coisas mais aterradoras. Escrevo na base da adrenalina. Mas estou orgulhosa, pensando ‘nossa escrevi um livro’. Dá uma alegria, fiquei muito prosa”. Ela lembra ainda que pensou que a obra não pudesse ter interesse do público. “Fiquei insegura. Será que isso vai interessar aos outros? O meu mundinho, as minhas coisas? Não é nada fantástico. É o meu cotidiano. Mas as pessoas vão se identificando”, acrescenta.

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O amor não se isola — Um diário com histórias, reflexões e algumas confidências
De Maria Beltrão. Máquina de Livros, 128 páginas. Preço: R$ 42 (impresso) e R$ 27,90 (e-book).

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