40 anos de Concerto Cabeças

Um dos eventos culturais mais importantes da história de Brasília comemora quatro décadas da primeira edição

Irlam Rocha Lima
postado em 27/11/2020 17:54

 

A ocupação de espaços públicos da capital com eventos artísticos, que vem ocorrendo frequentemente nos últimos tempos, tem um precursor: o Concerto Cabeças. Realizado inicialmente, entre o 1978 e 1979, no gramado da SQS 311, o projeto passou a ter como palco em 1980 a Rampa Acústica do Parque da Cidade, onde se manteve por 11 anos. Pela sua importância, esse evento se tornou referência cultural para o brasiliense, que agora o mantém na memória afetiva.
Isso foi reforçado em 18 de setembro de 2010, com o Encontro Cabeças, na Praça das Fontes do Parque da Cidade, do qual foram reunidos alguns dos artistas que contribuíram para perpetuar essa história e celebrar a realização, uma década depois. O principal responsável, porém, foi Neio Lúcio, idealizador, produtor e apresentador de todas as edições do concerto. Ao falar sobre sua “invenção”, ele disse: “O Cabeças trouxe o espírito de ocupação de espaço, com o que a gente tem de melhor dentro dessa urbis. Ninguém melhor do que os artistas para descrever, viver, cantar e encantar a cidade”.
O Cabeças, que foi plataforma de lançamento de cantores e compositores, como Oswaldo Montenegro, Renato Mattos, Eduardo Rangel, e os grupos Liga Tripa, Mel da Terra e Pessoal do Beijo, além, obviamente, de Cássia Eller; abriu espaço também para representantes de outras manifestações artísticas, como os poetas Nicolas Behr, Paulo Tovar, Luiz Turiba, Sóter, Luís Martins; os atores Ary Pararraios, Aluísio Batata, o Grupo Pitu (dirigido por Hugo Rodas), a trupe do Udigrudi, os artistas plástico Wagner Hermuche e Eurico Rocha e o cineasta Pedro Anísio.
“Estávamos todos começando quando surgiu o Concerto Cabeças, que se transformou numa oportunidade para a gente cantar, tocar e levar nosso trabalho ao público”, lembra Oswaldo Montenegro. “O Cabeças era também um ponto de encontro do brasiliense que ia ali para socializar. Vivíamos o final da era hippie e a palavra que regia aquele encontro era a liberdade. Até hoje, com mais de 50 anos de carreira, vivo procurando a sensação que aquelas tardes me proporcionaram”, acrescenta.
Um dos poetas de maior destaque em Brasília, com obra reconhecida em outras regiões do país, Nicolas Beher, que fez parte da a Geração Mimeógrafo, chama a atenção para os saraus que ocorriam dentro da programação do Cabeças. “Tanto eu como, Turiba, Sóter, Paulo Tovar, Martins e Chacal tínhamos espaço para mostrar nossos poemas. À época, eu já havia lançado os livros Iogurte com farinha, Grande Circular e Chá com porrada. Era um momento de celebração coletiva, uma coisa hedonista e vibrante”, ressalta.
Neio Lúcio tinha um projeto mais ambicioso, em relação ao Cabeças. Ele sonhava com a criação de uma espécie de museu virtual, para preservar a memória cultural daquela geração, que acabou não se materializando. Esse projeto, agora vem sendo levado adiante por Moacir Macedo, mineiro de Montes Claros e morador da capital desde 1965. Com o apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), o documentarista e produtor cultural está empenhado na realização de um documentário intitulado Concerto Cabeças — Memória Afetiva da Cultura Brasiliense.
“Desde 2018, estou colhendo depoimentos de músicos, poetas, atores, diretores, grupos de teatro, fotógrafos e cineastas para o documentário. Trabalho também na criação de um aplicativo multimídia, que apresentará o inventário do registro fotográfico do Concerto Cabeças, performances dos artistas, cartazes, matérias e recortes de jornais, com o registro daquelas animadas tardes de domingo, na 311/312 Sul e na Rampa Acústica do Parque da Cidade”, completa.

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