CINEMA

Festival de Brasília: diretores apresentam história sobre a luta por moradia

A dupla de diretores Aiano Bemfica e Pedro Maia traz para o Festival de Brasília a realidade dos moradores da Ocupação Eliana Silva, que lutam para se fixar em um bairro de Belo Horizonte

Ricardo Daenh
postado em 19/12/2020 06:00 / atualizado em 19/12/2020 07:30
 (crédito: Fabio Rodrigo/Divulgação)
(crédito: Fabio Rodrigo/Divulgação)

Na relação com o mundo e com as pessoas, os diretores Aiano Bemfica e Pedro Maia repelem a neutralidade e assinam obras políticas. “Os filmes que fazemos são, sim, ligados a lutas, questionadores e se propõem abertamente a participar da elaboração de outras formas de se pensar e viver em sociedade. E, por isso, são classificados por parte dos espectadores, rapidamente, como cinema engajado”, observa Bemfica, que, com o parceiro cinematográfico, assina Entre nós talvez estejam multidões, penúltimo filme a ser exibido na Mostra Oficial Longa-Metragem do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, hoje, às 23h, pelo Canal Brasil.

O documentário é o terceiro de quatro filmes realizados junto ao Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e às Ocupações Urbanas de Belo Horizonte, como explica o assumido militante. A vontade que Poliana Souza e Leonardo Péricles, coordenadores da Ocupação Eliana Silva, na capital mineira, tinham de contar a história do bairro resultou no convite para que Bemfica e Maia comandassem a obra. A comunidade se estabeleceu em abril de 2012 e ficou 21 dias cercada pela polícia. Depois de violento despejo, passados três meses, o movimento organizou novamente as centenas de famílias, que retomaram a construção da comunidade, na Região do Barreiro.

Do cotidiano de embates ao registro das relações entre indivíduos e a coletividade, Entre nós... capitaliza sonhos e pulsões de pessoas periféricas. “A circulação do filme em espaços como o Festival de Brasília significa muito. A partir da visibilidade é que sua eficácia histórica se vê potencializada, permitindo que seja inscrita em uma história e uma política mais amplas. Daí, provoca mudanças no seio da sociedade”, ressalta Bemfica.

Amortizar parte de discriminação, preconceito, perseguição policial e descaso do Estado, a partir do filme, impulsiona os realizadores. “Vivemos um período de fascistização e agravamento das ofensivas da direita reacionária e conservadora, não apenas sobre o Estado e seus espaços de governo, mas efetivamente sobre a vida das pessoas. Em especial, das pessoas periféricas, dos negros, das mulheres e dos grupos LGBT, sem contar as organizações de esquerda e seus militantes”, avalia o cineasta. Proporções alarmantes, ainda nas palavras do diretor, se estabelecem “quando chega ao poder no país uma figura como (Jair) Bolsonaro, que prega a violência deliberada como forma de fazer política e pratica uma forma de governo marcada pela irresponsabilidade e pelo descaso com a vida”.

Retrato agitado

Na mira dos realizadores, esteve o retrato vivo (“nunca imóvel”, pelo que diz Bemfica) de um período eleitoral (2018) testemunhado por uma comunidade periférica e engajada na construção política. “O filme traz ponto de vista para, a partir dele, elaborar junto, e em parceria profunda, com quem ele se realiza. O filme evoca e ajuda a pensar caminhos para superarmos a crise política e democrática em que viemos mergulhando ao longo dos últimos anos”, adianta o realizador.

Integrante da Comissão Nacional de Comunicação do MLB, Aiano Bemfica afinou a criação do longa com projetos como o Mostra Lona — Cinemas e Territórios, uma das inaugurais experiências de cinema on-line, durante a pandemia. O atual período, aliás, só aumenta a tensão frente aos governantes. “Além da política de desinformação, falta projeto que consiga suprir as demandas do povo pobre durante a pandemia. Como falar em isolamento social em casas de 50m² em que moram de quatro a sete pessoas? Como falar em higiene básica em bairros que nem sequer têm água?”, questiona.

Compondo parte da equipe de Entre nós talvez estejam multidões, estão moradores com traquejo profissional e formação, na prática, ao longo das filmagens do documentário. Substituindo violências e descasos de personagens que lutam por moradia digna e reforma urbana, despontou a amizade e a vontade de transformação coordenadas por Pedro Maia (leia Duas perguntas abaixo) e Aiano Bemfica. “Quanto aos personagens do longa, o que podemos oferecer de mais honesto é abrir o filme para que abrigue, de forma justa, a beleza e a grandiosidade do que eles são, com histórias e sonhos”, conclui Bemfica.

ASSISTA

O Festival de Brasília 2020 ocorre de maneira virtual. O filme Entre nós talvez estejam multidões será exibido hoje, às 23h, pelo Canal Brasil. Para mais informações sobre as sessões do festival, acesse cultura.df.gov.br/53-fbcb-programacao

Duas perguntas / Pedro Maia

Quando olha para o filme de vocês, identifica inspiração de outros diretores?
O cinema traz uma tradição de linguagem constante e conservada, isso quando se trata de documentário brasileiro. Impossível não contar com a postura de Eduardo Coutinho, um autor que trazia o encontro, o entendimento e a escuta. Por meio da experimentação, ele conseguia expressar a subjetividade popular brasileira. No desenvolvimento estilístico do filme, apesar de haver algo de observacional, nós, diretores, interagimos, deixando notar o espaço da dramatização.


Que ganho pessoal traz a participação em um filme de dimensões tão coletivas?
Pensamos mais no tempo do fazer o filme. Houve o momento histórico em que foi feito: onde se estava quando houve a chegada do governo facista. No contato muito intenso com as pessoas da ocupação, mostramos a luta constante e a forma necessária de, com vontades e desejos, haver luta sem perda da ternura. Reafirmar todos como gente.

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