Cinema

Uma violenta locomotiva

Ricardo Daehn
postado em 04/01/2021 21:37
 (crédito: Tobias Sshiwarz/AFP - 16/2/19 )
(crédito: Tobias Sshiwarz/AFP - 16/2/19 )

Com extrema delicadeza a diretora alemã, com muita vivência na Argentina, Nora Fingscheidt, estreou na direção em longa-metragem no filme Transtorno explosivo. Com o filme, ela alcançou seleto grupo estando ao lado dos reconhecidos Marco Bellocchio, Pedro Almodóvar e Roman Polanski no Festival de Berlim. Na base do perfeccionismo, Nora criou a jornada impactante da pequena personagem Benni (Helena Zengel). Aos 9 anos, a menina é enérgica, revoltada e rompe com sistema de educação e normas corretivas propostas em orfanatos e núcleos de assistência social.

Distante de amarras, Transtorno explosivo abre mão de apontar estigmas e desvia até de falar especificamente de Borderline. “Tentamos ficar longe de qualquer rótulo. Não existe um diagnóstico específico usado para Benni e o comportamento dela. É fácil categorizar o comportamento humano, mas queríamos colocar o foco nos problemas individuais”, explica a diretora, em entrevista ao Correio. Benni vive de complicações com a família (a mãe hesita em assumi-la) e com qualquer sistema.

A diretora Nora, aos 37 anos, detém no currículo quatro curtas e um documentário, ainda assim, obteve conquistas como as de vencer (com Transtorno explosivo) o Urso de Prata no Festival de Berlim e ser destacada como a melhor nova diretora, pela Mostra de SP. Para o roteiro do longa, que assinou, Nora conta que pesquisou muitos anos, passando muito tempo em diferentes instituições. “Benni é uma mistura de muitas crianças que conheci e até um mix de adultos que me contaram sobre o passado. E, claro, há muita ficção e algumas experiências muito pessoais na composição também”, observa.

Luminosa

Um escândalo de talento está depositado na atriz mirim Helena Zengel que, em premiações, disputou em pé de igualdade com atrizes como Olivia Colman e Adèle Haenel. “Preparei o papel dela durante seis meses de uma forma bem lúdica. Sempre nos concentramos nas diferenças entre ela e Benni para que a atriz nunca se confundisse. Trabalhar com adultos é diferente, pesam as semelhanças”, conta a diretora. Com exibição no streaming www.cinemavirtual.com.br, Transtorno explosivo traz uma especial atuação de Gabriela Maria Schmeide na pele da assistente social Banafé.

Mas, fora do filme, como Nora percebe a restrição de crianças, em tempos de pandemia? “São tempos super desafiadores e, para algumas crianças, é mais difícil do que para outras. Se você tem uma boa família, irmãos e um jardim, então está tudo bem. Mas se você está preso em um pequeno apartamento com pais violentos, com irmãos como os de Benni?! Além disso, a quantidade de tempo na frente das telas não é bacana para o desenvolvimento do cérebro infantil”, comenta.

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