Música

Após experiência na literatura e no slam, Patrícia Meira se lança na música sertaneja

'Pensei que seria importante me lançar como cantora preta no sertanejo', conta a artista em entrevista ao Correio

Adriana Izel
postado em 14/01/2021 06:00 / atualizado em 14/01/2021 10:49
 (crédito: Carol Vidal/Divulgação)
(crédito: Carol Vidal/Divulgação)

A música sertaneja é um dos gêneros majoritariamente feito por pessoas brancas. Desde a popularização do ritmo, poucos artistas negros tiveram destaque ao defender o estilo musical. Entre eles, estão João Paulo, que fez dupla com Daniel e morreu em 1997; os cantores Pena Branca & Xavantinho, que atuaram juntos até 1999; e Rick, que foi parceiro de Renner até 2015 e hoje está em carreira solo. Quando se trata da presença feminina, então, a ausência no mainstream é quase completa.

Com o objetivo de quebrar esse paradigma, e seguir um estilo que sempre ouviu na infância, a baiana Patrícia Meira se lançou no cenário sertanejo. A decisão ocorreu após anos dedicada à literatura — ela tem cinco livros publicados — e a poesia falada, o slam. “Eu já gostava de sertanejo. Ouvia muito Chitãozinho & Xororó, Pena Branca & Xavantinho e Sula Miranda. Mas sempre escondido, porque era muito ligada à igreja. Quando, em 2016, aceitei minha sexualidade, me assumi lésbica, voltei a compor e vi que os arranjos que eu criava eram parecidos com da Paula Mattos e da Marília Mendonça (duas expoentes do sertanejo feminino). Eu não sabia classificar o que fazia, se era sertanejo, MPB ou outro gênero musical. Mas depois que passei a escutar essas artistas, ficou nítido para mim”, explica.

Percebendo que as composições que escrevia tinham características de sertanejo, resolveu abraçar a “classificação”. O que a impulsionou mais ainda foi a percepção de que não haviam outras cantoras negras no sertanejo, nem de forma solo, nem em dupla. Durante uma pesquisa, encontrou apenas o nome de Carmen Silva, que ficou conhecida como A Pérola Negra, nos anos 1970 no Brasil. A artista chegou a gravar música sertaneja, depois foi pressionada para migrar para o samba e, no fim da vida — ela morreu em 2016 aos 71 anos — se dedicou ao gospel. Porém, na atualidade, não encontrou nenhuma artista.

“Pensei que seria importante me lançar como cantora preta no sertanejo. Até resisti um tempo, fiquei receosa de começar. Porque tenho certeza que existem outras cantoras pretas por aí pelo Brasil, cantando em barzinhos, que não tiveram projeção”, comenta.

Namoro

O início do projeto foi com o single Deus é mais, disponibilizado nas plataformas digitais no ano passado. A letra fala sobre o bem que o término de um namoro fez, após tanto sofrimento. “Deus é mais de voltar com você/ Deus é mais de aceitar ir te ver/ Só se eu sofresse de memória curta/ Roubou a minha vida e pôs em mim a culpa/ Tudo mudou quando você saiu/ O sol nasceu e o tempo se abriu”, diz trecho da canção. Composta por Patrícia Meira, a faixa foi produzida por Carol Vidal e Lika Rosa.

Para este ano, Patrícia pretende lançar o primeiro EP da carreira, que será composto por seis faixas sob o título de Entre o verso e o copo. “A maioria das músicas vai falar de amores e desamores, do papel de trouxa que a gente faz e da volta por cima. Tenho tentado fazer músicas que não tragam tristeza. A gente já tem sugado muito com a pandemia. As canções são divertidas e descontraídas”, adianta.

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