ARTES PLÁSTICAS

Com galeria em Planaltina, artistas buscam dar visibilidade à produção do Planalto Central

João Angelini e outros artistas criaram a galeria Pé Vermelho para propor um espaço alternativo ao circuito tradicional

Nahima Maciel
postado em 17/01/2021 06:00
 (crédito: João Angelini/Divulgação)
(crédito: João Angelini/Divulgação)

João Angelini nunca se sentiu confortável com a ideia de ter que mudar para São Paulo para ganhar projeção no circuito de artes plásticas. O artista é um nome reconhecido no cenário nacional. Fez parte do grupo Empreza, um coletivo de performance importante, tem representações em galerias do Rio e de São Paulo e está nas coleções do Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) e da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Ao lado do também artista Luciana Paiva, pensou em comprar um apartamento na capital paulista para montar ateliê e residência, mas desistiu. Resolveu voltar-se para Planaltina, onde nasceu, cresceu e mora até hoje.

Na Praça da Igrejinha São Sebastião, no centro da cidade, Angelini abriu, em 2018, a Pé Vermelho, misto de galeria, ateliê e centro cultural com o qual pretende movimentar o circuito de artes no Planalto Central. O projeto é uma parceria do artista com Luciana Paiva e Marcela Campos. “A Pé Vermelho surge de uma inquietação relativa à precariedade de atuação profissional e da formação. Existe uma consciência, que a gente foi tomando, do que é atuar fora de São Paulo, em um país que tem um único circuito de arte concentrado em uma região. Fica claro que essa hegemonia custa nossa precarização. E, como superar? A gente está chamando de colonização interna, que está além da arte. O Brasil inteiro se arrebenta muito para manter aquela abundância chamada São Paulo”, diz Angelini.

João Angelini e outros artistas criaram a galeria para propor um espaço alternativo ao circuito tradicional
João Angelini e outros artistas criaram a galeria para propor um espaço alternativo ao circuito tradicional (foto: Minervino Junior/CB)

Para o projeto, o artista planejava comprar a casa de dona Negrinha, patrimônio cultural da cidade que acabou demolido. Mesmo assim, ele conseguiu um espaço central que, nos últimos dois anos, tem passado por reformas para se adaptar ao projeto. Este ano, os idealizadores da galeria dão início a uma série de residências artísticas que prometem movimentar Planaltina até o final de 2021.

No total, o espaço terá três ateliês de 40 m² e uma galeria de 90 m² que vão receber cinco residências com duplas de artistas ao longo do ano. O projeto tem apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e foi pensado em parceria com Léo Góis. “Será sempre um artista já com certa inserção e um iniciante”, avisa Angelini. No fim de cada residência, haverá uma exposição e, durante o programa, serão oferecidos cursos introdutórios de arte para a comunidade de Planaltina. Clarice Gonçalves é uma das convidadas.

A seco, obra de João Angelini
A seco, obra de João Angelini (foto: João ANgelini/Divulgação)

“Pensamos em um conjunto de residências que pudesse abarcar uma amplitude grande de gestos, técnicas e discussões, considerando diversidade étnica, gênero e raça. E, no fim, vai ter sempre uma série de palestras. Vamos trazer curadores de grande relevância nacional e internacional para olhar a produção daqui e fazer uma fala”, adianta Angelini.

Cada um dos 10 artistas selecionados vai receber uma bolsa e o atelier ficará aberto para visitação ao longo da residência. “A exposição, claro, é importante, mas ver o atelier em funcionamento, enquanto as obras são produzidas, é muito mais rico”, garante. Para Angelini, a prática de residência pode gerar um deslocamento muito produtivo na obra do artista. “É um dos períodos mais ricos, ele acaba sendo contaminado por outro entorno. E Planaltina é um lugar esquisito, porque é Brasília e não é Brasília”, diz o artista, que sempre é questionado sobre a influência modernista na sua produção, mas acaba sendo muito mais tocado pelo aspecto colonial de Planaltina.

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