ARTE

Brasília recebe exposição com 140 peças do Egito antigo

Exposição no CCBB traz a Brasília 140 peças do Egito antigo para contar a história de uma cultura de mais de 4 mil anos

Nahima Maciel
postado em 05/02/2021 06:00
 (crédito: Museo Egizio/Divulgação)
(crédito: Museo Egizio/Divulgação)

Múmias, sarcófagos, pirâmides, tumbas, hieróglifos, esfinges, escribas e faraós. O universo da civilização egípcia, nascida há mais de 4 mil anos, é povoado por fantasias e seduz cientistas e leigos há décadas. Curador de Egito Antigo — do cotidiano à eternidade, o holandês Pieter Tjabes sabe bem como funciona esse fascínio e foi pensando um pouco nisso, mas também na capacidade didática de uma exposição, que ele montou a mostra em cartaz a partir de amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Vista por 1,4 milhão de pessoas no Rio de Janeiro e vencedora do prêmio de melhor mostra da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Egito antigo reúne 140 peças do Museo Egizio de Turim, dono da segunda maior coleção do gênero, e é fruto de um feliz acaso, quando se tem em perspectiva a pandemia que fechou museus no mundo todo. Como as obras já estavam no Brasil, foi possível seguir com a programação de realizar a exposição em Brasília. Mas, mesmo assim, houve atraso no cronograma, pois a visitação foi suspensa durante sete meses, no Rio de Janeiro, por causa da quarentena.

Montar esse tipo de mostra em meio a uma pandemia, com fronteiras fechadas e voos suspensos no mundo inteiro, exigiu uma logística enorme. Os comissários do museu, geralmente presentes nas montagens, acompanharam tudo por meio de câmeras. Além disso, foi preciso criar equipes separadas e com poucas pessoas para evitar aglomeração e contato. O próprio curador não esteve presente fisicamente mas montagens, mas assistiu a tudo por vídeo.

Tjabes dividiu a exposição em três núcleos temáticos — vida cotidiana, religião e eternidade — como forma de conduzir o público pelos aspectos mais significativos da civilização egípcia. A sala da vida cotidiana é amarela porque é a cor do Sol, a cor da luz do dia. Ali, estão objetos que possibilitam compreender um pouco do cotidiano dessa sociedade, que floresceu por volta de 4.000 a.C. “É um geral sobre essa civilização. Porque, numa exposição de uma cultura que durou mais de 4 mil anos, você não consegue mostrar tudo em 140 peças. O que a gente quer é que as pessoas tenham uma ideia sobre a riqueza da civilização egípcia e como eram a religião e as crenças”, avisa Tjabes.

Em uma estela funerária datada de 1550 a.C., a pintura em calcário mostra cenas de um casal comendo e sendo servido. Uma caixinha de joias da IV Dinastia, de 2543 a.C., prova o quão preciso e delicado era o trabalho do marfim e da faiança, e uma pequena escultura de um cozinheiro lembra que há profissões tão antigas quanto a própria civilização.

Na parte dedicada à religião, múmias de animais e um corpo mumificado, além de esculturas e representações de deuses apresentam um povo politeísta cuja crença maior era na vida após a morte. “A religião era muito importante na vida dos egípcios e o Egito sempre foi politeísta. Esses deuses mudavam de caráter ao longo do território e da história. Às vezes, se fundiam para formar um novo deus, muitas vezes por motivações políticas, frutos de negociações quando um novo povo era incluído no império egípcio, e cada cidade tinha seus deuses favoritos, todos venerados em templos, que eram pontos de convergência de fiéis”, explica o curador.

Na sala dedicada à religião, a cor verde domina o ambiente e faz uma referência ao papirus, a planta sagrada utilizada para fazer o papel. É, também, a cor da pele de Osíris, o deus do além. Os templos costumavam ser antecedidos por uma praça na qual eram depositadas as oferendas. “E quem queria ficar de bem com os deuses tinha que doar alguma coisa, nesse sentido não mudou nada. Quando você era rico, mandava fazer esculturas”, explica Tjabes.

Animais

Na exposição, há alguns exemplos dessas oferendas, como uma pequena estátua de Amenmose Ramsés III, datada de 1184 a.C., e múmias de gatos e outros animais confeccionadas para presentear os deuses. “Isso virou uma indústria e não acredito que os gatos morriam de idade, havia uma indústria dos sacerdotes para produzir essas múmias, foram achados milhares de múmias de gatos”, conta o curador. A cada deus correspondia um animal e esculturas de peixes e aves também foram encontradas em escavações.

Uma das peças mais impressionantes da mostra é uma escultura da deusa Sekhmet, datada de 1539 a.C. A estátua integrava um templo margeado por uma avenida com 360 representações de Sekhmet. Ela tem dois metros de altura e é difícil de ser manuseada. “Essa peça é muito alta e não pode ser inclinada, porque é muito frágil, pode quebrar. Todas essas esculturas são muito frágeis e essa é muito pesada, a única forma de colocar nos prédios dos CCBB era pelo elevador, mas o elevador não tem essa altura”, diz Tjabes, que acabou por descobrir a possibilidade de remover a cabeça da peça. “É a primeira escultura playmobil”, brinca.

Sekhmet é uma deusa poderosa e muitos templos foram dedicados a ela no Egito antigo. “Graças a essa deusa e ao pai dela, Rá, ainda estamos na Terra”, garante o curador. Rá teria ficado horrorizado com a desobediência dos homens e decidiu acabar com a humanidade: deu ordem a Sekhmet de fazer o serviço e ela começou a devorar os humanos com muita dedicação. O pai ficou com remorso e quis parar, mas Sekhmet não o ouvia mais. Na mitologia, Rá embebeda a filha para acalmar a fúria destruidora.

A última parte da exposição é consagrada à eternidade, um dos aspectos mais fascinantes da cultura egípcia antiga. A mumificação era importante na época, porque conservava o corpo para o além. A exposição traz um sarcófago e uma múmia, mas também uma réplica do interior da tumba de Nefertari em tamanho real e um livro dos mortos no qual era possível aprender a como se comportar ao adentrar a eternidade. “Essa tumba é uma das mais importantes do Egito, não dá para visitar por motivos de conservação. Fizemos uma réplica para a pessoa ter a sensação do que é entrar numa tumba, com relevos pintados, o que dá uma tridimensionalidade”, descreve o curador. Uma reprodução em isopor da pirâmide de Quéops completa o lado instagramável da exposição.

Tudo foi pensado para estimular a interatividade com o público. A intenção do curador é fazer o visitante se sentir acolhido, independentemente de ter ou não o hábito de visitar exposições. “Nossas exposições são sempre inclusivas, a gente quer convencer, divertir e quer que as pessoas tenham a melhor experiência. A pirâmide, a gente fez porque não posso supor que a pessoa saiba o que é e ver o modelo na sua frente ajuda a entender”, diz Tjabes. “A gente quer divertimento, além de uma qualidade impecável e importante da exposição. Tudo para entrar no clima.”

» Segurança sanitária

Para evitar o contágio pelo novo coronavírus, o CCBB preparou um protocolo de segurança para a visitação da exposição. Os ingressos serão distribuídos antecipadamente pelo site www.eventim.com.br. Serão apenas 80 ingressos por hora e serão permitidas apenas 20 pessoas em cada espaço. A movimentação do público será acompanhada pelos gestores do CCBB para realizar, se necessário, ajustes que evitem a aglomeração.

Egito Antigo — Do cotidiano à eternidade

Exposição com 140 peças do Museu Egizio de Turim. Curadoria: Pieter Tjabes. Visitação até 25 de abril, de terça a domingo, das 9h às 20h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - Setor de Clubes Esportivos Sul, Trecho 2, Lote 22 – Asa Sul). Entrada gratuita, mediante agendamento pelo app Eventim ou site www.eventim.com.br. Classificação indicativa livre

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