MÚSICA E POLÍTICA

"Apoio Jair. Mas não por idolatria", diz Netinho sobre Bolsonaro

Em entrevista ao Correio, cantor que fez fama com o axé, se revela fã de Jair Bolsonaro e fala do drama pessoal depois de usar, por suposta determinação médica, anabolizantes

Ana Maria Campos
postado em 17/02/2021 06:00 / atualizado em 17/02/2021 06:35
 (crédito: Ana Maria Campos)
(crédito: Ana Maria Campos)

Um dos cantores de axé mais prestigiados dos anos 1990, Netinho hoje está bem distante do músico que arrebatava multidões com sucessos como Mila e Beijo na boca, em trios na Bahia e em blocos pelo Brasil e no exterior. Tornou-se um bolsonarista, fez amigos entre aliados do atual governo, como os deputados Carla Zambelli (PSL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e enaltece a figura do presidente, a quem se refere como Jair. Até cogita, incentivado pelo grupo, entrar para a política.

Netinho estava entre os músicos que ouviram de Bolsonaro críticas à imprensa, com baixarias, num almoço em Brasília. Em entrevista ao Correio, o cantor baiano conta que se aproximou do presidente em 2018, ao ver pela televisão a história da facada na campanha presidencial, e se identificou. Ele também precisou se submeter a uma grave cirurgia no abdômen. Parte das consequências da doença que mudou a sua vida.
Hoje Netinho não esconde que chegou muito perto da morte por intoxicação no fígado provocada por uso de anabolizantes. Teve três AVCs, hemorragia, hidrocefalia, trombose, perdeu 50kg, entrou em coma e chegou a estudar detalhadamente uma forma de tirar a própria vida. Até hoje sofre com uma tontura crônica.
Netinho conta em detalhes o sofrimento por que passou. Mas afirma que usou esteroides por recomendação médica, de um profissional conceituado, apontado como o endocrinologista das estrelas. Era ele, inclusive, quem fornecia as substâncias que atacaram severamente seu organismo.

Você está bem de saúde?

Estou ótimo. Graças a Deus. Só que ficou uma tontura chamada atípica, uma desorientação espacial. Mas me disseram que eu ia andar de muleta. Já corro 50 minutos sem parar. Ninguém imaginava isso.

E o que aconteceu com você?

É uma história longa e complicadíssima. Foi (culpa) de um endocrinologista, considerado o melhor de São Paulo. É uma história criminosa. Eu sempre tive a saúde de ferro e fazia check-ups no Hospital Aliança, em Salvador. Em 2010, meu médico me chamou e disse: “Netinho, sua testosterona está baixa”. Ele disse que eu era artista de axé, cantava e dançava em trio elétrico e precisava colocar minha testosterona em nível ideal. Soube, então, que tinha varicocele. Meus testículos não produziam mais testosterona. Decidi me submeter a uma cirurgia, mas três meses depois minha testosterona que estava antes em 300 baixou ainda mais para 143. Resolvi ir a São Paulo procurar o médico considerado o melhor endocrinologista do país. Atendia vários artistas, numa mansão em São Paulo. Era chamado o médico das estrelas. Mas ele me passou uma série de anabolizantes, dizendo que não fariam mal.

Como você se sentiu?

Ótimo no começo. Cheguei em Salvador e não contei a ninguém, porque não queria ter o meu nome associado a anabolizantes. Só comentei com a minha irmã, que é fisioterapeuta. Ela me disse: “Esse médico vai lhe matar”. Mas não acreditei. Eu estava me sentindo muito bem e o médico era muito recomendado. Me tratei de dezembro de 2010 a julho de 2012. Comecei a ficar forte e a saúde parecia estar excelente.

Como você começou a adoecer?

Em janeiro de 2013, percebi que minhas mãos estavam trêmulas e a palma da minha mão estava com cor de cenoura. Liguei para o médico e ele disse: “Bem-vindo ao clube”. Ele garantiu que estava tudo bem. Mas nos shows eu sentia meu corpo formigando e doendo. Fazia uma cena abaixado que era para segurar a dor na barriga. Mas nunca achei que era por causa do tratamento. Só que, em julho de 2012, minha testosterona estava ainda mais baixa.

Todo o tratamento estava piorando a sua saúde?

Exatamente. Parei de usar os anabolizantes. No carnaval de 2013, na Vieira Souto, puxei um bloco por três horas, com um milhão de pessoas. Depois, fui à Patagônia, passei um mês e voltei para Salvador. Num dos ensaios, de repente, percebi que minha perna não esticava. Sentia como se uma faca entrasse na virilha, uma dor insuportável. O médico detectou: psoíte (inflamação do músculo psoas na coxa).

E você foi internado?

Sim. Agora vou te dizer o que é Deus na minha vida. Começaram a examinar a virilha, fizeram vários exames de raio-x. Num deles, um médico notou uma mancha branca no meu fígado. E um médico especialista em casos de hepatotoxidade por uso de anabolizantes veio conversar comigo e me perguntou baixinho se eu usava anabolizantes. Disse que eu poderia confidenciar. Eu menti. Disse que não.

E depois?

Cinco horas depois voltei ao hospital gritando de dor. Descobri que eu estava com bolhas de ar nas alças do intestino. Sinal de que estava necrosando parte do intestino. O único exame que podia confirmar isso era uma biópsia. Quando eu estava na maca, o médico perguntou se eu autorizava fazer a biópsia no fígado. Eu senti que não deveria fazer. Mas meu médico insistiu. Minhas palavras: “Sinto que não devo, mas como vocês são médicos e sabem o que estão fazendo, tudo bem”.

Qual foi o resultado?

Não tive sangramento pós-biopsia. Fui para casa sem dor. No dia seguinte, acordei com uma dor mil vezes pior. Gritava em casa: “Pelo amor de Deus!” No hospital, os médicos descobriram que uma veia do meu fígado rompeu. O sangue jorrou. Tive sepse e entrei em coma. Fizeram uma cirurgia em mim chamada laparotomia para lavar os órgãos. Minha mãe me colocou numa UTI aérea e me mandou para o Sírio-Libanês em São Paulo.

E como você se recuperou?

Passei seis meses no Sírio-Libanês. Quando acordei do coma não tinha voz, só mexia os olhos. E perdi a memória recente. A última lembrança que eu tinha era o carnaval no Rio e o bloco na rua. Eu não conseguia perguntar nada. Em seis meses, fiz 3.158 exames médicos. Eu tinha 95kg antes de adoecer. No hospital, perdi 50kg. Sabe o que é isso? O médico me proibiu de olhar no espelho.

Foi o pior momento?

Não. Quando eu estava melhorando e começando a andar, tive três AVCs em sete dias: dois hemorrágicos e um isquêmico. Tive hidrocefalia.

O que causou os AVCs?

Quando médicos viram meus exames — inclusive o maior especialista em fígado no mundo, Raul Andrade, de Málaga da Espanha — disseram que era peliose hepática. E viram que eu tinha usado dois anabolizantes (estanozolol e oxandrolona). Aí mudaram o tratamento. A peliose fragiliza todo o sistema vascular. Por causa dos AVCs, fiz três cirurgias.

Qual era o seu sentimento?

Um dia, minha amiga Ivete Sangalo foi me visitar. Demos muita risada e choramos juntos. Aquela emoção me fez ter o terceiro AVC. Quando saí do hospital e fui para casa, tinha fortes tonturas e vomitava. Se eu mexesse a cabeça, vomitava. Achava que minha vida ia acabar. E os médicos diziam que ia passar.

Você se sentia melhor cantando?

Sim. Eu comecei a me animar. Ia tocar na Funfest da Copa. Estava me preparando. Mas comecei a perceber que a tontura não ia passar. Foi quando eu arriei. Não sabia o que era depressão. Você fica triste e alegre ao mesmo tempo. Aí bolei um plano para me matar. Tentei e não consegui. Fiquei três dias sem comer e não conseguia sair da cama.

E o que o motivou?

O médico disse que eu tinha tontura atípica e que poderia não passar nunca. Ele me recomendou que me preparasse para viver a vida toda com a tontura e fizesse uma terapia motora. E só tinha um lugar no Brasil para isso: Hospital Sarah Kubitscheck (em Salvador).

Qual é o nome do seu livro?

Nada como viver. Hoje entendi que foi Deus que me tirou da música para entender a vida. Há anos, em 1994, fiz uma música Memórias do vento, muito antes de tudo isso. E a letra casa totalmente com o que aconteceu. Eu descrevo exatamente como acordei do coma.

Como você se aproximou do Bolsonaro?

A história é longa e difícil acreditar. Saí do hospital em 2015, fui para o Sarah. Nunca prestei atenção em política. Fui contratado por políticos para fazer shows, mas nem sabia quem era o presidente. A única vez que votei foi em Fernando Henrique Cardoso. Aí vi uma reportagem mostrando que Bolsonaro passou por uma laparoscopia e eu me sensibilizei. Queria dizer para ele, que ele não ia morrer, como eu não morri. Peguei o telefone de Flávio Bolsonaro. Liguei e disse que queria visitar o pai. Cheguei na casa dele. Ele de chinelo, camisa de futebol. Me recebeu e fez uma brincadeira com a Bahia. Me conquistou imediatamente.

Por que você veio a Brasília?

Por causa de postagens na internet, atraí vários parlamentares. A Carla (Zambelli) é um exemplo. Tenho estudado política. Comecei a ler Karl Marx, Trótski, Lenin. Até chegar em Gramsci que, no meu entender, reformulou a teoria de Marx, visando conquistar as pessoas por mídia, educação e cultura. Fui mais na leitura, até a Escola de Frankfurt. Com esse estudo de política, me aproximei de parlamentares como Carla (Zambelli).

O que você viu de bom em Brasília?

Achava que era fria e gelada, mas agora estou me apaixonando pela cidade. Estou vendo vida em Brasília e cada vez mais estou alongando minha permanência aqui.

Seu futuro é aqui?

Não sei. Se for, que seja belo.

Qual é a sua música que você mais gosta?

Gosto de todas. Com essa coisa do hospital, aprendi o auto-amor. As pessoas me perguntam se estou namorando, apaixonado. Eu digo sim. Por mim mesmo. Entendi que a beleza da vida é se apaixonar por si mesmo. Em casa, na praia, qualquer lugar para mim está ótimo porque eu tenho eu mesmo. Esse é o extremo egoísmo de um lado. Mas é o Nirvana de outro.

O que você espera para o Brasil?

É meio utópico. Espero que o Brasil respeite o brasileiro. Aprendi a ser brasileiro. Vou lutar. Apoio Jair. Mas não por idolatria. Gosto dele de graça. Mas serei o primeiro a bater se ele sair da linha que acredito.

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