ARTE

Brasileira Marina Amaral destaca como se tornou conhecida pelo talento da colorização de imagens icônicas

Marina assina parcerias com museus e instituições, um dos projetos de maior destaque, Faces of Auschwitz, faz uma homenagem às vítimas do holocausto e vai virar um documentário

Roberta Pinheiro
postado em 18/02/2021 06:00 / atualizado em 18/02/2021 09:50
Trabalhos da colorista brasileira Marina Amaral. -  (crédito: Marina Amaral/Divulgação - Popsie/Divulgação)
Trabalhos da colorista brasileira Marina Amaral. - (crédito: Marina Amaral/Divulgação - Popsie/Divulgação)

O estudo da história sempre pertenceu ao cotidiano da mineira Marina Amaral. Com uma mãe historiadora, a artista cresceu cercada por livros e documentários. Logo, o envolvimento com o conhecimento surgiu de maneira natural. Contudo, Marina desenvolveu um outro olhar sobre os acontecimentos passados. Ela decidiu adentrar esse universo por meio das cores e estabelecer uma ponte entre presente e passado.

Aos 26 anos, Marina se tornou conhecida no mundo pelo talento da colorização. Em suas mãos, o que antes eram imagens desgastadas em preto e branco, ganha cores, emoções, nuances do tipo de tecido e contextualização. Ano passado, ela foi o destaque da categoria Artes Plásticas e Literatura da Forbes Under 30, que destaca os mais brilhantes empreendedores, criadores e game-changers brasileiros abaixo dos 30 anos.

“Foi uma mistura de sensações. Fiquei surpresa, feliz e honrada, tudo ao mesmo tempo. Jamais imaginei que isso aconteceria um dia. Acho que as pessoas estão compreendendo, cada vez mais, que eu não tenho qualquer pretensão de substituir as fotografias originais em valor histórico, mas sim, usar o meu trabalho como uma porta de entrada para o estudo de diversos tópicos diferentes dentro da história como um todo. Esforço-me muito para garantir que tudo que publico seja acompanhado de contexto, esperando que isso, entre outras coisas, aguce o interesse das pessoas para aprender mais sobre aquele evento/personagem em questão. Sinto a responsabilidade e me questiono em diversos momentos se tenho apresentado e comunicado tudo isso da maneira correta. A indicação da Forbes veio como um sinal de que tenho seguido pelo caminho certo”, comenta Marina sobre a indicação.

Autodidata, a artista iniciou a carreira enquanto fazia faculdade de Relações Internacionais. Um hobby que se tornou obsessão, como descreve. Ao postar o resultado de um dos trabalhos no Twitter, em 2015, viu a imagem viralizar e ganhar repercussão internacional. Marina assina parcerias com museus e instituições, como o History Channel, o New York Times, a People Magazine, o Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau e o Memorial Nacional de Paz e Justiça no Alabama. Um dos projetos de maior destaque, Faces of Auschwitz, faz uma homenagem às vítimas do holocausto e vai virar um documentário, com registros de encontros com sobreviventes na atualidade em locais de Auschwitz onde o público não tem acesso.

Além disso, Marina tem dois livros publicados. The colour of time, que é best-seller no mundo inteiro e foi traduzido para 13 idiomas, e o recém-lançado The world aflame, uma parceria com Dan Jones, que aborda as duas grandes guerras mundiais e outras conflagrações importantes.

Recentemente, a brasileira integrou o time do documentário Billie, escrito e dirigido por James Erskine. A produção resgata a trajetória de um dos mais importantes nomes da música e levanta questões essenciais, para que seja possível compreender quem foi Billie Holiday, por meio de entrevistas feitas com amigos de infância, parentes, estrelas do jazz, e até dos agentes do FBI que a prenderam. Marina coloriu, digitalmente, mais de 100 fotos, nenhuma delas vista em cores anteriormente, além de alguns frames. Todo o processo demorou cerca de um ano e meio.

 
 
 
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“Além disso, tive a oportunidade de atuar como diretora artística pela primeira vez. Eu não colorizei os vídeos que foram restaurados para o documentário porque a minha especialidade é outra, e as técnicas são bastante diferentes. Mas estabeleci todas as paletas de cores e fiz toda a supervisão dessa etapa. Foi uma experiência grandiosa e muito divertida”, detalha. A produção está prevista para chegar ao Brasil este ano. “Não conhecia o trabalho dela a fundo, mas não paro mais de ouvir desde que comecei a trabalhar nesse projeto. Mas, mais do que admirar a artista, passei a ter um enorme respeito pela mulher que ela foi. Teve uma vida difícil, sofrida, foi vítima da violência conjugal, vítima de racismo, estupro, quebrou barreiras, superou preconceitos, foi presa, se envolveu com drogas, morreu quase falida, mas não permitiu que nada disso definisse quem ela era. Billie era uma mulher livre, forte, corajosa, independente, segura, e absolutamente consciente do que era capaz”.

» ENTREVISTA / Marina Amaral

O que é o colorismo? Como você descreveria seu trabalho?
Meu trabalho é uma tentativa de apresentar a história por uma perspectiva diferente, mais próxima da nossa realidade; e até da realidade do fotógrafo. Quero que as pessoas vejam o que ele viu no momento em que a foto foi tirada, em cores e sensações. Acho que isso quebra uma barreira emocional que existe com as fotos em preto e branco (pelo menos, é o que eu sinto), e permite que uma conexão muito mais intensa e profunda se crie.

Você foi questionada se isso é arte ou não? Qual a sua avaliação?
Todas as técnicas são importantes, mas só o olhar artístico — individual e particular de cada um — é capaz de levar o trabalho para outro patamar. Não adianta jogar uma foto em uma máquina que colore automaticamente, sem nenhum critério, sem nenhum sentimento, que vai produzir resultados exatamente iguais toda vez. Qual é a graça? Conhecer o artista através das suas escolhas de cores, da sensibilidade para reproduzir a atmosfera do ambiente, da capacidade de apresentar aquela cena da forma mais próxima a como ela de fato era — isso é o que dá sentido.

Quais técnicas utiliza e como “descobre” as cores das fotos, os pigmentos das roupas, as cores dos olhos, dos cabelos?
Todo o processo é manual. Tanto a colorização, como a pesquisa.

Qual o valor dessa restauração? Por que colorir fotos antigas? Você acredita que a colorização traz mais realidade e impacto para a imagem?
O que eu faço é simplesmente uma tentativa de criar uma ponte direta entre presente e passado. Não é uma tentativa de substituir a foto original em seu valor histórico, ou de criar uma versão esteticamente “melhor” ou “mais bonita” do que a foto original. É uma tentativa de dar espaço a sentimentos que talvez não se manifestem quando vemos uma foto em preto e branco, justamente pela noção de distância no tempo que é transmitida pela ausência das cores. Entender que essas personalidades históricas foram tão reais, de carne e osso como nós, nos possibilita entender o passado de uma maneira mais completa e profunda.

Em quais projetos trabalha atualmente? O que pode adiantar para nós?
Meu próximo livro será uma homenagem a 200 mulheres que fizeram história — famosas e desconhecidas. É um projeto muito especial para mim, que me toca profundamente em diversos aspectos. Passo horas pesquisando sobre cada uma, descobrindo coisas que eu não fazia ideia sobre elas. Mulheres que inventaram itens que hoje fazem parte do nosso dia a dia, que quebraram paradigmas, preconceitos, levantaram a voz em um momento em que tudo o que queriam era que elas permanecessem caladas. Tem sido libertador, surpreendente. E me dá muito orgulho poder trazer esses nomes e essas histórias para um público tão grande.

O que significou colorizar os rostos e as roupas das vítimas de Auschwitz para você, para elas e seus descendentes? O que mais te impactou?
Antes de lançar o projeto, em 2018, entrei em contato com alguns sobreviventes e/ou parentes para saber como a ideia soaria para eles. Todos apoiaram, e foi só então que me senti segura pra seguir em frente. Faces of Auschwitz sempre foi isso para mim: um lugar de muito respeito, cujo objetivo é, acima de tudo, homenagear e lembrar todos esses homens e mulheres que foram vítimas desse massacre. O projeto me aproximou de muitos dos que sobreviveram, e criou em mim um senso de responsabilidade para com essa história. Os sobreviventes estão morrendo. Cabe a nós, enquanto uma geração com acesso a tantas ferramentas poderosas como a internet, garantir que essas mensagens não se percam.

O que podemos esperar do documentário sobre Auschwitz. Como foi “dar vida” a essas histórias no cinema?
O documentário começou como uma ideia, passou por diversas transformações, e está atualmente em um lugar que nenhum de nós esperávamos. Quando começamos, o contexto e as histórias que contaríamos eram completamente diferentes do que encontramos no meio do caminho e temos agora. Tem sido um processo muito intenso, emocionalmente, mentalmente, fisicamente, enfim. Quando estávamos perto de finalizar as filmagens, perdemos nosso personagem principal para a Covid. Tudo isso será retratado no filme. Mais do que compreender o que foi Auschwitz, as pessoas terão a possibilidade de entender o que pode acontecer quando pessoas de diferentes partes do mundo se encontram por um acaso da vida, por destino, ou como queira chamar - e se unem por um único propósito.

Por que você acha que você e o seu trabalho não são mais conhecidos no Brasil?
Não faço ideia. Acho que um dos motivos está no fato de o acesso aos registros ser muito mais complicado no Brasil, o que faz com que eu quase não tenha projetos com temática nacional no meu portfólio. É uma pena.

Seu trabalho está muito relacionado com a história, independente do segmento. Acha que, no Brasil, as pessoas são menos interessadas por conhecer esses fatos?
Acho que o mundo inteiro passa por um momento muito perigoso de revisionismo histórico. Adaptar os fatos até que eles sejam convenientes e/ou menos incômodos é um risco muito grande, além de ser desonesto. No Brasil, em geral, há uma desvalorização da história e também da nossa cultura. Existem pessoas fazendo trabalhos incríveis, lutando contra todos os empecilhos, fazendo pesquisa, preservação, compartilhando conhecimento… Mas isso não é valorizado. O incêndio no Museu Nacional é um exemplo. Com o investimento adequado, a história teria sido muito diferente.

Confira mais imagens do trabalho de Marina Amaral:

  • Prisioneira 7675. Faces of Auschwitz da brasileira Marina Amaral
    Prisioneira 7675. Faces of Auschwitz da brasileira Marina Amaral Marina Amaral/Divulgação
  • Seweryna Szmaglewska. Faces of Auschwitz da brasileira Marina Amaral
    Seweryna Szmaglewska. Faces of Auschwitz da brasileira Marina Amaral Marina Amaral/Divulgação
  • Walter Degen. Faces of Auschwitz da brasileira Marina Amaral
    Walter Degen. Faces of Auschwitz da brasileira Marina Amaral Marina Amaral/Divulgação
  • Eisenhower addressing troops. Trabalho de colorização da brasileira Marina Amaral
    Eisenhower addressing troops. Trabalho de colorização da brasileira Marina Amaral Marina Amaral/Divulgação
  • Billie Holiday at the Strand Theater NYC - 1953
    Billie Holiday at the Strand Theater NYC - 1953 Foto POPSIE - colorida por Marina Amaral
  • Billie Holiday at Ryans nightclub 1942
    Billie Holiday at Ryans nightclub 1942 Foto Don Peterson colorida por Marina Amaral
  • Churchill Queen Coronation
    Churchill Queen Coronation Marina Amaral/Divulgação
  • Wolfe Teeth of Nakoda Nation prints
    Wolfe Teeth of Nakoda Nation prints Marina Amaral/Divulgação
  • Big Ben 1920
    Big Ben 1920 Marina Amaral/Divulgação
  • Marie Curie
    Marie Curie Marina Amaral/Divulgação
  • Trabalhos da colorista brasileira Marina Amaral.
    Trabalhos da colorista brasileira Marina Amaral. Marina Amaral/Divulgação - Popsie/Divulgação
  • Faces of Auschwitz: 'Um lugar de muito respeito, cujo objetivo é, acima de tudo, homenagear 
e lembrar todos os homens e mulheres que foram vítimas desse massacre'
    Faces of Auschwitz: "Um lugar de muito respeito, cujo objetivo é, acima de tudo, homenagear e lembrar todos os homens e mulheres que foram vítimas desse massacre" Marina Amaral/Divulgação

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