Entrevista

Débora Falabella fala de novo filme e da vida na pandemia: "Reflexões boas"

Estrela 'Depois a louca sou eu', atriz conversou com o Correio sobre o longa e sobre as dificuldades do isolamento

Ricardo Daehn
postado em 25/02/2021 06:00
 (crédito: Paris Filmes/Divulgacao)
(crédito: Paris Filmes/Divulgacao)

Controlar a ansiedade tem sido uma constante para milhares de brasileiros, em especial, desde 2020. O ano também marcou a apreensão nos bastidores do lançamento de um momento profissional importante para Débora Falabella: a comédia dramática Depois a louca sou eu, por vezes, adiada, e que lida com o tema dos impasses do futuro de uma mulher na corda-bamba da sanidade. Centrado na desafiadora protagonista Dani, o filme, baseado em livro de sucesso de Tati Bernardi, teve que aguardar a tímida reabertura das telas de cinema em meio à pandemia.

Na longa espera, que acaba hoje, surgiu até mesmo a websérie Diário de uma quarentena, vista por mais de sete milhões de pessoas; tudo um preâmbulo para o despontar do longa assinado por Julia Rezende, sob produção de Mariza Leão. Atriz de longas potentes, desde a moça deficiente retratada em Meu país (2011), até uma clássica personagem de Primo Basílio (2007), passando pela divisão de uma protagonista com Marieta Severo, nas épocas diferentes de A dona da história (2004), a entusiasmada Débora acalenta um desejo: apaixonada pela sétima arte, tal qual a personagem feita em Lisbela e o prisioneiro (2003), espera o dia seguro para que todos voltem a preencher as salas de cinema.

Há um momento no Depois a louca sou eu em que a personagem da comédia ouve: “Você tem talento!”. Quando caiu a sua ficha da afirmação da sua capacidade como atriz?

Isso é algo que a gente vai se dando conta. Aliás, desconfiar sempre disso é algo que nos move. Você acreditar demais em você, como um talento, como alguém que faz tudo muito bem, sempre, também é uma cilada. É bom estar na dúvida. Ter questionamentos em relação ao trabalho é importante. Com o tempo, fui relaxando e entendendo melhor a profissão. Com o tempo, acumulei mais bagagem; isso me ajudou a ter mais segurança. A compreensão de que nunca a gente vai fazer tudo muito bem ajuda a levar a profissão de forma mais segura.

Você paga um preço pelo seu sucesso, a exemplo, da personagem Dani, que, com fragilidade, parece se distanciar de um empoderamento feminista?

O feminismo só ajudou as mulheres a entenderem que elas podem ser quem quiserem. Antes, a mulher tinha uma relação com o trabalho forte e, ao mesmo tempo, ela tinha que dar conta da casa e das suas relações. O feminismo, no movimento de uma nova onda, só ajuda as mulheres a focarem no que querem fazer. Vejo as meninas jovens muito mais tranquilas com suas vidas. Decidem se querem ou não ser mães, querem ou não casar. A mulher entendeu que não precisa ser tudo isso que foi imposto para ela. Acho que trabalho sempre foi das coisas mais importantes da minha vida. Não tenho culpa em falar isso. Consigo ter tempo para tudo. Com a maturidade, consigo mais ainda. Tenho uma filha (Nina, 11 anos) que, para mim, também é minha vida. Sou humana, de vez em quando bate um arrependimento, um estresse, um cansaço, mas me organizei e descobri o que era de fato importante para mim. Não me vejo pressionada.

Quem é a Débora que enfrenta as dificuldades da pandemia?

A pandemia está marcada nas nossas vidas. Na perspectiva histórica, veremos que foi algo que transformou o mundo inteiro. O ano de 2020 foi um ano muito triste, em que perdemos muitas pessoas, foi um ano de muita ansiedade por falta de empregos. Tem muita gente que está sofrendo muito. Essa pausa forçada também foi uma maneira de a gente pensar no mundo, de modo geral, do mundo acelerado em que a gente corre atrás de dinheiro para construir um futuro, onde a gente destrói muito sem pensar no outro. No início da pandemia, muita gente que não fazia isso, olhou para o lado e se preocupou com o outro. Você tem que ficar preocupado com o outro o tempo todo. São mil recomendações, e a gente tem que se cuidar, para cuidar do outro. O ano trouxe reflexões boas para se levar na vida. Houve uma tomada de consciência sobre o planeta. Entendemos coisas como a importância da escola no futuro de uma criança. Até mesmo entre os bens materiais, descobrimos quantas coisas são desnecessárias. Mas, diante de tudo, ainda há quem negue...

Você está gravando a segunda temporada da série Aruandas. Como vê a interferência dela na conscientização sobre problemas ecológicos?

É uma série que informa por meio da dramaturgia, que é uma forma com a qual o brasileiro já tem familiaridade em consumir. É um meio inteligente de contar uma história, ao mesmo tempo em que informa. Muita gente desconhecia o universo das ONGs e o que fazem. Moramos muito distante da Amazônia, tem muita gente que nem conhece, claro. Tratamos de um assunto muito sério e que nos afeta.

Para compôr a Dani da comédia Depois a louca sou eu, você se ateve a problemas específicos de ordem psicológica?

São contos de crises que ela teve durante a vida, com pânico e ansiedade. Usamos o viés da narrativa que estava no livro. A escritora Tati Bernardi se revela uma porta-voz do tema. Ela fala sobre coisas difíceis da nossa vida, de uma forma bem-humorada: ela ri de si mesma. Não que ela esteja fazendo piada sobre isso. Ela consegue ter distanciamento. Isso até é benéfico para quem vive dessa maneira (com problemas). Quando você tem a capacidade de rir de si mesmo, isso ameniza coisas fortes que você sente. Por causa do humor, o filme traz uma identificação muito grande. Quem assiste já não se sente tão sozinho, vai sentir acolhido. Ouvi muitos comentários de quem leu o livro de quanto achavam que aquelas situações (deles) eram únicas no mundo. É um assunto que precisa ser discutido de uma forma muito mais natural, sem ser colocado como tabu.

A Dani enfrenta a exposição, no curso do trabalho como escritora. Você, sendo atriz, delimita se expôr?

Sempre coloquei limites, até porque há assuntos que me gera ansiedade. Não consigo ter uma vida completamente aberta para as pessoas. Para mim, meus personagens são meu porto seguro e, quando eu tenho que dar uma entrevista, quando tenho que me expôr, ali aparece a dificuldade. A gente tem que conhecer nossos limites. Cabe ao artista se render ou não à exposição: há esse direito. Há quem goste de falar da sua vida misturado a temas da carreira, e tudo bem... Não é um lugar em que eu me sinta à vontade. O que mais me interessa como artista é falar de um assunto que precisa ser discutido, colocar como isso (da angústia como pessoa) já me aconteceu, e não vejo problema nenhum nisso. Já comentei sobre isso numa outra entrevista, e invés de falarem sobre o filme, estamparam “Debora Falabella já teve crise de pânico”. Antes de recorrer ao sensacionalismo, deveriam se ater a coisas como: vamos ver o que essa pessoa falou? Vamos ver como isso vai ajudar quem vai ler... Falo quando realmente passei por situação parecida. Mas faço a ginástica de me posicionar em temas mas sem me expôr demais.

Você tem ido ao cinema? O que acha da projeção do streaming?

Eu não tenho ido a lugar nenhum (risos). Tenho ido só trabalhar, mesmo. Acho que é irreversível a questão do streaming. A gente não tem mais saído de casa. Não é todo mundo que se sente à vontade para ir ao cinema, mesmo como todos os protocolos observados. Meu sonho é o de que, quando isso passar, ver os cinemas cheios de novo — acho que não é algo a se perder. Não sei se é saudosismo: mas fui criada indo ao cinema. Na tela grandona, era onde eu sonhava, você fica desconectado do mundo, vendo um filme. As pessoas meio que perderam o foco, no streaming, mexendo no celular, enquanto assistem a algo. O cinema e o teatro têm o lugar do templo, da comunhão. Rir juntos da mesma coisa é incrível!

Você vê a Dani como alguém que cresceu sem referências, como uma jovem adulta desorientada? E o sexo parece algo forte na vida dela. Poderia comentar?

Não é o caso da Dani apesar de todas as fragilidades, ela avança, conquista. Não vejo uma mulher perdida na vida, a vejo como alguém forte. Acho que ela é uma mulher livre. Na história, ela tem uma relação com o sexo supersaudável, apesar de todas as dificuldades que ela tem na vida. A relação dela com o sexo é livre. Eventualmente, sofre por um namorado ou outro, mas não é a questão principal. Acho interessante mostrar as mulheres muito mais ligadas a seu prazer, às vontades, do que antes, e com menos culpa pra lidar com isso.

Acha que a juventude tem sido protegida em excesso?

Fiz a peça Love, love, love, que discutia exatamente isso. Tratava de jovens que foram criados para ser o que quisessem ser: como total liberdade, mas criados numa redoma. Sempre teremos problemas geracionais. É tão delicado, porque vai de família para família. No público da peça vi como muitos jovens se identificavam com o vazio da vida adulta. Depois de um enorme acolhimento em família, chegam para a realidade tão despreparados. Essa geração de agora, de 20 e poucos anos toma muito remédio. Não sei se é por ser mais divulgado, ou eles têm mais acesso. Vejo jovens, realmente, um pouco perdidos. A gente, que é mãe, não consegue culpar ninguém (risos). É uma dificuldade criar filho. A gente tenta fazer o melhor. As crianças de agora têm uma consciência política maior do que eu tinha aos 16 anos. Isso dá uma esperança real.

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