O que a levou ao budismo?
O que é a vida? O que é a morte? O que é Deus? Do que estão falando? Essas questões existenciais, que são de todos nós, eu tinha desde os 11 anos. Procurei ler muito sobre elas. Fui vagando de um lugar para o outro, à procura de alguma coisa que pudesse responder meus questionamentos. Quando encontrei o zen, percebi que isso está aqui, está em nós, não está fora. As pessoas que escreveram sobre experiências místicas passaram por um processo de autoconhecimento. Para mim, esse foi o caminho. Passei a fazer práticas meditativas, assistir a algumas palestras por dia. Cada vez mais falei: esse é o caminho que eu quero. Encontrei aquilo que responde às questões que continuam sendo levantadas.
Como foi o primeiro contato da senhora com a filosofia zen budista?
Eu me interessava por práticas meditativas. Tinha lido sobre ondas mentais alfa (responsáveis por um estado de relaxamento profundo) e depois assisti a uma reportagem sobre clínicas que levavam a esse estado por indução. A repórter foi entrevistar um monge zen para saber o que ele achava disso. Ele disse: “por que induzir um estado que a meditação leva? Por que entrar pela janela, se existe uma porta?” Fui procurar o zen. Encontrei o Zen Center de Los Angeles, na década de 1980. Lá, descobri como o zen budismo trazia autoconhecimento e como era importante. Pedi pra ser monja.
Como foi o processo para se tornar uma monja?
Venho de uma família cristã e acabei me ordenando monja em Los Angeles. Depois, fiquei 12 anos num mosteiro feminino no Japão. Fiz minha formação completa. Sou professora de soto zen (que une as tradições Rinzai e Soto, práticas de meditação japonesas). Voltei para o Brasil para trabalhar no Templo Budista da Liberdade (bairro japonês da capital paulista), onde fiquei durante sete anos. Saí para criar uma comunidade que não fosse tão ligada à colônia japonesa. Assim foi sendo minha caminhada para me tornar uma monja.
A senhora consegue levar o conhecimento do budismo ao público leigo. Como faz para ter uma linguagem tão acessível?
Acho muito importante que eu possa levar meu conhecimento a todas as pessoas, de todos os níveis. Têm vários caminhos para levar o conhecimento. Tenho livros, um podcast (Despertar zen), um programa na Rádio Vive Mundial de São Paulo, faço palestras para empresas, bancos, universidades... Falo para um público geral, procuro fazer uma fala que todos possam entender. Comecei a ler aos 9 anos. Meu primeiro livro foi O Mandarim, de Eça de Queirós. Minha família sempre foi ligada às letras. Minha mãe era poetisa. Formei esse raciocínio e sempre gostei de ler. No colégio, eu recebia prêmios de escrita. Aos 19 anos, trabalhei no Jornal da Tarde, num emprego de foca (nome dado para os repórteres iniciantes numa redação). Ali, realmente aprendi a escrever. Foi a minha grande escola. Uma maneira de escrever com frases curtas, pontuais e descritivas. Criei uma maneira de escrever um pouco jornalística, mas com a poesia da minha mãe. Sinto prazer em escrever.
A senhora acabou escrevendo mais ainda na pandemia, né?
Essa pandemia me deu essa oportunidade. Acho que foram de sete a oito livros em um ano. Foi uma provocação exatamente por ser algo que eu gosto e posso fazer. Também fiz muitas lives. Tem muita gente apresentando ansiedade, estresse, desespero e depressão. Eu quis levar um bom contágio à vida delas.
Acredita que sairemos melhor dessa pandemia, como muitos disseram no início da quarentena, em 2020?
A pandemia nos facilita o processo de despertar o apreciar pela vida; de poder filosofar; escolher o que ler, que programas assistir; participar de aulas de meditação. Essas possibilidades se abriram para muitas pessoas, que puderam começar a amadurecer e iniciar o processo de despertar. Mas alguns não pegaram. Se passar um cavalo arriado, monte e vá. Tem gente que não montou. Tem pessoas fazendo festinhas, aumentando o contágio, que não acreditam na ciência, só pensam em si. Está na hora de despertar, ver a realidade e atuar de forma adequada. Se eu nego a realidade, eu não me curo. E temos muitas coisas para curar. Dizem: “O Brasil é um país racista. Mas não é o país que é racista, são as pessoas”. Se eu não vejo a doença, não posso curá-la. A mesma coisa é o racismo, a xenofobia, a homofobia e tantas outras que existem, que são doenças estruturais. É uma negação do outro. Se eu vejo a doença, eu vou passar um remédio, vou me curar. Despertar é isso, é ver a realidade como ela é. E eu quero contagiar as pessoas com amor, paz, paciência, resiliência, compaixão, sabedoria (temas do livro O bom contágio).
Despertar é a palavra título do livro que a senhora escreveu com o professor Clóvis de Barros Filhos. Como se deu essa parceria para a obra?
Conheci o professor há alguns anos numa palestra em Uberlândia (MG). Ele era um dos palestrantes. Eu o conhecia pela televisão. Quando o conheci pessoalmente, me surpreendi. A palestra dele era antes da minha. Ele fala alto, vai se entusiasmando, é como se ele entrasse dentro da gente. Todos ficaram de pé aplaudindo. Eu sou o oposto dele. Sou tímida. Depois me convidaram para fazer o livro A monja e o professor: Reflexões sobre ética, preceitos e valores (2018) com ele. Ficamos amigos. Fomos criando um vínculo, uma ternura, uma amizade. Nessa jornada de fazermos coisas juntas e de termos encontros, ele apresentou o Despertar inspirado. Comecei a ouvir, escrevia textos budistas e mandava para ele (sobre os episódios). Na segunda vez que fiz um comentário, ele perguntou se eu não queria gravar e colocar no livro.
Como foi o processo de escrever a sua parte de Despertar inspirado?
Trago um outro olhar mais oriental e budista para o pensamento greco-romano que ele desenvolve sobre os temas do Despertar inspirado. São textos curtinhos que nasceram muito de ouvi-lo, de forma espontânea. O meu trabalho como monja zen budista é de mostrar que a vida é maravilhosa. Minha intenção é despertar a sabedoria que está em você e a compaixão que existe em nós, que elas venham para a superfície. A maioria de nós vive semiadormecida, não percebe a beleza da vida e toma medidas erradas. Temos que gostar da vida e de estarmos acordados.