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Leituras na pandemia: obras resgatam passado para ajudar a compreender presente

Três livros gestados durante o ano de 2020 trazem literatura e ensaios pensados para enfrentar estes tempos difíceis

Nahima Maciel
postado em 20/04/2021 06:00
 (crédito: Element Digital / Pexels)
(crédito: Element Digital / Pexels)

Shakespeare nasceu no exato momento em que um surto de peste bubônica assolava a Inglaterra. A mesma doença fez o italiano Bocaccio imaginar o que escreveria um grupo de jovens isolados em uma casa para escapar da morte. O que seria de Shakespeare e Bocaccio na pandemia do século 21? O que teriam a dizer? Pensando nessa interlocução, dois livros recém-lançados buscam exemplos no passado para compreender o presente.

O projeto Decamerão reúne contos de autores do mundo inteiro escritos sob a sombra da pandemia. Em O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe, autores do mundo inteiro apontam como o criador de Romeu e Julieta pode nos ensinar a lidar com a tragédia. Para acrescentar, um terceiro livro, Dez lições para o mundo pós-pandemia, faz uma análise de como sociedades e governos podem traçar novos rumos a partir das experiências vividas em 2020 e 2021.

Organizado pelas pesquisadoras Fernanda Medeiros e Liana de Camargo Leão, O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe começou despretensiosamente, durante o início do isolamento de 2020. “A pandemia tinha acabado de começar, o confinamento estava rolando há um mês e, conversando sobre o que as humanidades poderiam fazer, surgiu a ideia do livro. Lançamos o chamado para uma gama muito variada, atores, professores, críticos, advogados, sem saber como iam responder, porque a gente pediu um prazo muito curto, provocando com essa pergunta. Não tinha como pegar um texto pronto, porque a brincadeira era responder à pergunta. E houve uma adesão enorme”, conta Fernanda, que é professora de literatura inglesa na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

A lista de 57 autores que toparam escrever os ensaios tem nomes diversos, como os dos atores Lima Duarte, Vera Holtz, do crítico James Shapiro e do acadêmico Marvin Carlson, uma das autoridades mais respeitadas no mundo quando se trata de Shakespeare. Escolher o dramaturgo inglês do século 16, pai das maiores tragédias da era moderna, escritas para o teatro, foi uma decisão estratégica que se espelha nos nomes dos autores dos ensaios.

“Shakespeare é de uma categoria de autor diferenciada, porque é conhecido independentemente do letramento. É um autor que tem uma difusão global imensa e em várias camadas de leitores e espectadores”, explica Fernanda. Shakespeare tem trânsito entre o pop e o erudito, entre a academia e a juventude. É uma multiplicidade de posições que faz do autor sagrado e reverenciado pela academia também um ícone pop.

Apesar de nunca ter incluído a peste em suas peças, o dramaturgo britânico falou sobre situações relacionadas a ela. “A brevidade da vida, a impermanência, a mutabilidade, nossa condição frágil estão impressos na obra do Shakespeare. Mesmo com todas as conquistas da razão e do saber, somos vulneráveis, somos seres sem total poder sobre nossas vidas; isso está muito impresso em suas obras”, analisa Fernanda.

Contos pandêmicos

A pandemia também deu forma a O projeto Decamerão. Inspirados pela iniciativa de Bocaccio no século 14, os editores da americana The New York Times Magazine convidaram autores de vários países para escreverem contos a serem publicados em uma edição da revista. O resultado saiu em julho e, em seguida, virou o livro que a Rocco acaba de publicar no Brasil.

“Diferentemente do que parece à primeira vista, O projeto Decamerão não é uma reunião de histórias tristes ou fatalistas. Na maioria há um toque surreal, o que coincide com o que estamos enfrentado. É real, mas às vezes não parece, não é mesmo?”, avisa a editora Ana Lima, responsável pela edição brasileira.

Alguns autores trouxeram histórias peculiares, ou sobrenaturais, algumas até bem-humoradas, como a bizarra quarentena ao lado de seres superiores identificados, possivelmente, como polvos, no conto de Margaret Atwood. Há histórias quase factuais, como a do desempregado que empresta o próprio cão para outras pessoas passearem também e faz disso um negócio. Ou um amor de quarentena que começa tão rapidamente quanto acaba.

Histórias tristes, de medo, morte, reencontros com memórias, culpas também fazem parte de um cardápio que tem nomes como, além de Margaret Atwood, Colm Toibin, Etgar Keret, Mia Couto, Leila Slimani, Kamila Shamsie e de Julián Fuks, único brasileiro no projeto. “As histórias levam a diversas reflexões. Algumas são contemporâneas, mas outras ocorrem no futuro, quando a pandemia é uma lembrança que deixou marcas muito profundas. O que mudou, o que vai mudar? Ainda não sabemos ao certo, e o livro explora essas possibilidades”, diz Ana.

  • Margaret Atwood é uma das autoras de O projeto 
Decamerão
    Margaret Atwood é uma das autoras de Angela Weiss/AFP

O mundo diferente

A desigualdade vai aumentar, a globalização não morreu, somos animais sociais, o mundo está bipolar e os governos deveriam se concentrar na maneira como intervêm nos estados, e não o quanto. Com essas noções, o jornalista americano Fareed Zakaria faz de Dez lições para o mundo pós-pandemia uma espécie de roteiro para os novos tempos.

Com texto acessível e muita informação, o autor traz temas atuais e difíceis de serem destrinchados. Saúde pauta o primeiro capítulo, que investiga a intervenção dos governos na sociedade. Os Estados Unidos, explica Zakaria, estavam no topo da lista dos países com a melhor estrutura para lidar com uma pandemia, mas apresentou a pior resposta do mundo, com maior número de mortes e transmissão descontrolada do coronavírus. O fato de ter uma economia e uma política nada intervencionistas contribuiu.

Em seguida, Zakaria aborda questões como o descrédito na ciência, postura que marcou algumas nações e ganhou contornos dramáticos com a pandemia, e a necessidade humana de convivência. Para o autor, é preciso ouvir os especialistas, mas também é preciso que os especialistas ouçam as pessoas. A pandemia, ressalta ainda, acelerou a corrida digital, mandando milhares de trabalhadores para o home office, mas também evidenciando as desigualdades: nem todo mundo pode ou está preparado para o mercado de trabalho digital.

  • Fareed Zakaria escreve sobre lições para o mundo após a pandemia
    Fareed Zakaria escreve sobre lições para o mundo após a pandemia Michael Cizek/AFP

O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe
Organizado por Fernanda Medeiros e Liana de Camargo Leão. Nova Fronteira, 560 páginas. R$ 63,92

Dez lições para o mundo pós-pandemia
De Fareed Zakaria. Tradução: Alexandre Raposo, Bruno Casotti, Flávia Rössler e Jaime Biaggio. Intrínseca, 286 páginas. R$ 49,90

O projeto Decamerão
Com 29 autores. Tradução: Isabela Sampaio, Luisa Geisler, Rogerio W. Galindo e Simone Campos. Rocco, 336 páginas. R$ 79,90

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