CINEMA

Relação de amor: filme 'Minari' aposta na tradição coreana no Oscar

Com 'Minari', que estreia nos cinemas, o diretor Lee Isaac Chung coloca parte da tradição coreana para competir por seis categorias no Oscar, incluída a de melhor filme

Ricardo Daehn
postado em 23/04/2021 06:00
Minari — Em busca da felicidade: o peso do trabalho e da prosperidade estão em cena -  (crédito: A24/Divulgação)
Minari — Em busca da felicidade: o peso do trabalho e da prosperidade estão em cena - (crédito: A24/Divulgação)

São 93 anos de história de um prêmio, o maior reservado ao cinema. O Oscar contabiliza uma série de atores e atrizes asiáticos indicados ao reluzente troféu, mas que não parou nas mãos de estrelas como Ken Watanabe, Pat Morita, Sessue Hayakawa, Mako, Rinko Kikuchi e Miyoshi Umeki. Entretanto Minari — Em busca da felicidade, que estreia hoje nos cinemas, tem tudo para reverter o jogo, especialmente depois que, há pouco mais de um ano, a pronúncia de Parasita, no palco da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, ter colocado o sul-coreano Bong Joon-Ho, diretor do melhor filme de 2020, como o responsável por quebrar paradigmas no prêmio estadunidense.

Curiosamente, o diretor de Minari, Lee Isaac Chung, nascido em Denver (EUA), se percebe um “realizador asiático”, desistindo do encaixe na pretensa perfeita sociedade norte-americana. Ele diz querer contribuir para “o conceito de humanidade”. O Minari, um dos verdes temperos que enriquecem o sabor da culinária oriental, tem fator decisivo na trama, por mais modesto que pareça, em princípio, desleixadamente, plantado às margens de um riachinho no meio rural do Arkansas.

Nas imediações dessa plantação, residem o batalhador Jacob (Steven Yeun, indicado ao Oscar de melhor ator) e a pequena família que traz a esposa, Monica (Han Ye-ri), em conflito com as ambições do marido, que pretende melhorar a condição do pequeno David (Alan S. Kim) que, aos 7 anos, sofre de problemas cardíacos.

Bem como os colegas de ofício japoneses Hiroshi Teshigahara (Mulher da areia) e Akira Kurosawa (Ran), Lee Isaac Chung obteve a candidatura para melhor diretor, mas, sendo americano de origem asiática, põe de lado as discussões sobre a nacionalidade do filme, em que pesam, segundo ele, a importância da qualidade de trabalho.

Carregado de dados autobiográficos e ambientado nos anos de 1980, Minari parece demover a ideia de Lee Isaac Chung se afastar dos cinemas, como ele contou em recentíssima entrevista à revista Rolling Stone. Mesmo entusiasta da sétima arte, ele pretendia assumir posto de professor.

Morador de Los Angeles, o diretor valoriza, com o filme, traços de uma família unida nas adversidades e um espírito de dignidade que paira sobre o trabalho simples do campo.

Com Minari, o cineasta parece ladear o cinema do chinês Zhang Yimou, que apresentou ao mundo filmes inesquecíveis como O sorgo vermelho, Hero e Amor e sedução. Ecoa, ainda, a vertente inicial do cinema do consagrado taiwanês Ang Lee (premiado com Oscar, tanto por O segredo de Brokeback Mountain quanto por As aventuras de Pi).

Se, no chinês A arte de viver, dos anos de 1990, Ang Lee imprimia a vagareza e o contemplativo saber de um idoso, numa classe média Nova York; em Minari, o ambiente rural, que abraça uma bela relação de pai e filho, encontra substância na chegada do valor da tradição trazido com a apresentação de uma avó, a adorável, septuagenária e imprevisível Soonja (Yuh—Jung Youn). Premiada nos circuitos dos críticos norte-americanos, vencedora do Bafta inglês e reconhecida pelo Sindicato dos Atores, Yuh-Jung Youn concorre ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

» Curiosidades do Oscar

» Cidadão Kane, filme de 1941, lembrado na cerimônia de 2021, pela inspiração para o concorrente Mank (indicado a 10 prêmios Oscar), disputou, nos anos de 1940, em nove categorias, vencendo exatamente na categoria de melhor roteiro original, um tema explorado por Mank.

» Questão quase ultrapassada para os dias de hoje, o aparecimento de artistas negros na lista do Oscar teve um divisor de águas: em 1972, houve o recorde de três indicados centrais: Dianna Ross (por O ocaso de uma estrela) e Cicely Tyson e Paul Winfield (ambos por Souder, lágrimas da esperança).

» Produtor, roteirista, diretor e ator, Charles Chaplin só faturou o Oscar em 1972, e foi pela autoria da trilha sonora de Luzes
da ribalta.

» Jack Palance teve uma história curiosa com o Oscar: até a vitória, como melhor ator coadjuvante, em Amigos, sempre amigos (1992), ele esperou 40 anos desde a primeira indicação
por Precipícios

» Há oito anos, a atriz negra Quvenzhané Wallis se tornou a mais jovem atriz central indicada, com apenas 9 anos, pelo filme Indomável sonhadora. Apenas dois diretores competiram contra si mesmos, na categoria. O feito coube a Michael Curtiz (Anjos da cara suja e Quatro filhas) e Steven Soderbergh (Erin Brockovich e Traffic).

» Houve um caso de empate na categoria de melhor filme estrangeiro: foi em 1969, entre Costa Gavras (diretor do filme argelino Z) e Volker Schlöndorf, que dirigiu o russo Os irmãos Karamavoz. Entre os atores, há dois casos curiosos: tanto Laurence Olivier (Hamlet, de 1948) quanto Roberto Benigni (A vida é bela, 1999) venceram o Oscar quando dirigidos
por si mesmos.

» Apenas uma atriz, até hoje, conquistou o prêmio central e o de melhor roteirista: foi Emma Thompson, atriz de Retorno a Howards End (1992) e, dona do Oscar de roteiro adaptado, em 1995, por Razão e sensibilidade.

» Indicado quatro vezes como melhor diretor, Federico Fellini nunca venceu na categoria. Mas, mesmo assim, ele tem o recorde de ter conduzido quatro vencedores como melhor filme estrangeiro: casos de Na estrada da vida, Noites de Cabíria, Oito e meio
e Amarcord.

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