CINEMA

Oscar retoma fôlego e 93ª edição comprova poderio de plataformas digitais

Mesmo com avanço do streaming, premiação segue apegada aos modelos de produção dos estúdios que calcaram a vitória de Nomadland, título que coroou talentos femininos

Ricardo Daehn
postado em 27/04/2021 06:00 / atualizado em 27/04/2021 10:48
As produtoras de Nomadland, Frances McDormand e Chloé Zhao: vencedoras também como melhor atriz e melhor diretora -  (crédito: Chris Pizzello/AFP)
As produtoras de Nomadland, Frances McDormand e Chloé Zhao: vencedoras também como melhor atriz e melhor diretora - (crédito: Chris Pizzello/AFP)

Uma retomada de fôlego, por detrás das máscaras, era a promessa mais aguardada para dar o tom dos prêmios Oscar, na 93ª premiação, em que o tradicional Dolby Theatre ficou vazio — fazendo coro com os cinéfilos reticentes em encarar o regresso às salas de cinema. Mas, por trás de uma sobriedade exigida pela pandemia que já sacrificou mais de 3 milhões de vidas, na festa conduzida por Steven Soderberg (ironicamente, o diretor de Contágio), o clima de festejos não foi pleno: artistas testados e vacinados, cautelosamente, buscaram não exagerar na oportunidade de socializar como uma comunidade em busca da recuperação de um status quo periclitante com o avanço do streaming.

O poderio da Netflix se fez sentir, pelo vigor das plataformas, ponte para o contato com os filmes, pelo temporário declínio da tradicional exibição em salas de cinema. Foram sete vitórias de troféus Oscar para a Netflix, que esteve representada em 22 do total de 23 elencadas para a festa. O novo modo de assistir aos filmes é exemplificado pelo poderio da Netflix: em 2019, o longa Roma quebrou paradigmas da Academia, e, enquanto no ano passado a empresa ostentou 24 indicações, em 2021 não foram menos do que 36 candidaturas ao prêmio e com vitória em pontos chaves para quem, por exemplo, vê os curtas-metragens como trampolins para a formação de futuros cineastas que vão remodelar a linguagem do cinema.

Mas os estúdios tradicionais tiveram o quinhão de glória no Oscar. Meu pai, Judas e o Messias negro, Minari, Soul, Tenet e Nomadland (vencedor do prêmio máximo) estiveram presentes com troféus atrelados ao sistema de estúdios da sétima arte ou a sustentáculos independentes. O poderio do streaming foi validado ainda pelo bom resultado de O som do silêncio, representante da Amazon Studios. Mas a sustentação das projeções com estreias em salas de cinema norteou a maioria dos concorrentes a melhor filme: o contingente de votantes da Academia selecionou, entre oito títulos, apenas dois lançados diretamente em streaming: Nomadland e Minari — Em busca da felicidade. Há um foco de resistência para modelos apregoados na indústria de Hollywood.

Clima de taverna

Valendo-se de uma atmosfera intimista, a festa do Oscar transcorreu na Union Station, fazendo lembrar a reduzida proporção de gente vista nos festejos do Globo de Ouro. Equívocos foram inegáveis: houve anticlímax na antecipação do anúncio do melhor filme (Nomadland), enquanto a homenagem a personalidades mortas causou espanto não apenas pela velocidade do clipe de tributo, mas pelo estranhamento da música de fundo: a animada As (de Stevie Wonder).

Por outro lado, houve bem-vindo desfilar de talentos negros premiados (ou não), com marcantes presenças de Regina King, Angela Bassett e Halle Berry. Em destaque, os discursos referendaram pessoas do calibre de Duke Ellington, Nina Simone, Malcolm X e Fred Hampton, liderança do partido Panteras Negras morta em 1969. “Hampton me mostrou quem eu sou e ensinou a me amar”, reforçou o premiado coadjuvante Daniel Kaluuya (Judas e o Messias negro), antes de estarrecer a mãe dele, citando a felicidade de existir, dada uma transa dela com o pai dele. Do mesmo filme, o roteirista Kenny Lucas causou surpresa ao referendar a importância de Cidade de Deus (filme brasileiro de 2002) na formação dele.

Outras conquistas que diminuíram o hiato no reconhecimento a negros, no âmbito do Oscar, vieram a rodo. O passado de segregação foi citado pelas vencedoras no quesito maquiagem e penteado, primeiras negras reconhecidas da categoria, com A voz suprema do blues. A trilha sonora de Soul também trouxe Oscar para o pianista Jon Batiste. Ainda no plano da música, H.E.R. (entoando Fight for you) subiu ao palco para destacar: “Conhecimento e música são poder. Vou lutar pelo meu povo e pelo que é correto”.

Ainda que tenha vetado a esperada vitória póstuma do colega Chadwick Boseman (de A voz suprema do blues), a vitória de sir Anthony Hopkins (que interpreta um idoso adoentado, em Meu pai) revelou a tendência do Oscar de tornar visível a consagração de experimentados talentos. Hopkins, morando no País de Gales, dormia no momento da celebração e, pelo diretor de Meu pai, Florian Zeller (vencedor de melhor roteiro adaptado), foi festejado “como o melhor ator vivo”. Na sexta indicação, e agora dono de dois Oscar, Hopkins, aos 83 anos, se tornou o mais idoso premiado da categoria central.

Recém-premiada como melhor atriz, a experiente Frances McDormand (de Nomadland) acumula três prêmios Oscar, ao lado de Meryl Streep (recordista em indicações) e Ingrid Bergman, ficando atrás apenas de Katharine Hepburn. Numa citação shakespeariana, Frances, aos 63 anos, disse: “Não tenho palavras: minha voz está na minha espada”, ao glorificar o ofício da atuação. Nomadland, uma representação do ideário de integração de comunidades nômades, se mostrou um divisor de águas, no reconhecimento de talentos femininos no Oscar, rendendo troféu para a segunda melhor diretora no apanhado do Oscar Chloé Zhao (a primeira asiática agraciada com prêmio e vencedora, ainda, na função de produtora do melhor filme). Ela saudou as pessoas que, com coragem e fé, “se apegam à bondade inerente em si”.

Protocolar, a leitura de uma série de feitos de cada indicado em cada categoria, beirou o insuportável. E recheado de tragédias e personagens mortos (entre vários dos vencedores), numa lista por demais extensa para ser citada, o Oscar reforçou uma atmosfera lúgubre, que culminou na emocionante homenagem do diretor do melhor filme internacional (Druk), Thomas Vinterberg, à filha morta diante da imprudência de um motorista atento ao celular e desatento ao volante. Enaltecendo elementos cotidianos de poesia e gentileza, Chloé Zhao trouxe a carga de serenidade para o espetáculo.

Numa festa de 93 anos, quem roubou a cena, salpicado com humor uma atmosfera algo carregada foram as veteranas, com mais de 70 anos, Glenn Close e Yuh-Jung Youn, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, por Minari. Antes de Frances McDormand literalmente uivar no palco, com a vitória de Nomadland, a sul-coreana Yuh-Jung, confessa admiradora de Maggie Smith e Robert Altman, se encantou com a presença de Brad Pitt no palco e soltou jocosos flertes para o galã. Yuh-Jung disse recusar a ideia de competir com colegas como Glenn Close (oficialmente, maior perdedora, com oito indicações). Não bastasse a vencedora de melhor roteiro Emerald Fennell (Bela vingança) chamar a estatueta do Oscar de "fria e pesada", Glenn Close causou frisson, ao, rebolante, copiar coreografia de Da´ butt, música usada por Spike Lee, outro esnobado pela Academia, num dos filmes dele.

 

 

Melhor filme
Nomadland

Melhor direção
Chloé Zhao (Nomadland)

Melhor atriz
Frances McDormand (Nomadland)

Melhor ator
Anthony Hopkins (Meu pai)

Melhor atriz coadjuvante
Yuh-Jung Youn (Minari – Em busca da felicidade)

Melhor ator coadjuvante
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias negro)

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE