CINEMA

Eleito melhor do Oscar, 'Nomadland' chega hoje (29/4) aos cinemas

Longa fala sobre norte-americanos que optam pelo nomadismo como estilo de vida em meio à recessão econômica

» Ricardo Daehn
postado em 29/04/2021 06:00 / atualizado em 29/04/2021 15:50
 (crédito: Chris Pizzello/AFP)
(crédito: Chris Pizzello/AFP)

“O que é lembrado, vive”, ressalta um personagem de Nomadland, filme de intermináveis vitórias, para além das três estatuetas do Oscar, e que estreia hoje (29/4) nos cinemas brasileiros. Longe da nostalgia, a galeria de personagens (muitos assimilados pela narrativa, a partir de existências reais) colhe do passado a força para seguir adiante, sempre vislumbrando a vida sobre rodas e a instabilidade da sobrevivência pela escassez de meios econômicos. Descartando o rótulo de “sem-teto”, eles preferem a tacha de “sem-casa”, e buscam uma reinvenção de vida, no imersivo filme da diretora chinesa Chloé Zhao, que trata de tipos com aposentadorias ínfimas e celebra práticas rudimentares de escambo e ações quase primitivas.

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, do Bafta de melhor fotografia (assinada por Joshua James Richards) e dos prêmios de melhor filme, direção e atriz (Frances McDormand), no Oscar, Nomadland retrata a vida de Fern, despojada, em camisolas e vestidos esvoaçantes, pronta para explorar a vastidão de terras baldias, em companhia da van que a conduz: batizada de Vanguarda. Com um quê do famoso Na natureza selvagem, filme em que um adolescente desbravava o extremo na relação com a natureza, Fern vive dos últimos fôlegos de descobertas, mas já uma sessentona experiente.

Sem maquiagem, tal qual Fern, a estrutura capitalista se faz revelar, em dados reais: o filme conta de uma recessão norte-americana que expurgou os moradores da ínfima Empire (Nevada), pela falta de impulsos econômicos para uma fundamental fábrica de gesso da região. Na obra, com roteiro adaptado de um livro de Jessica Bruder (Surviving America in Twenty-First Century, que faz referência à sobrevivência), pesa a quebra de tradição no modelo de vida de uma cidade quase centenária.

Com a trajetória da vida de uma personagem “honesta e corajosa” (como destacada pela irmã da protagonista), a diretora Chloé Zhao modificou a estrutura da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (que define o Oscar): se tornou a segunda diretora a vencer o troféu (depois de Kathryne Bigelow), e a primeira de origem estrangeira.

Espírito solidário

Encarando intempéries, e ouvindo do “momento difícil” para assegurar vaga, mesmo entre empregos temporários, Fern traz algo que dialoga com a indefinição de futuro e falta de segurança operante em face à pandemia. Daí vem dos grandes trunfos do filme que valora a simplicidade e a disposição à solidariedade. Tendo por base uma real rede social, com amigos integrados à comunidade de valores dignos e sensíveis, Fern se vê acolhida.

Emblemática, quando se trata da América alternativa ou de dissidentes, Frances McDormand — lembrada por filmes como Fargo, Três anúncios para um crime e Mississippi em chamas — traz para Nomadland, além de uma terceira vitória no Oscar de melhor atriz, um papel gerador e calibrado por empatia. Amorosa, ela naturalmente chama a atenção de Dave (David Strathairn), outro apegado à vida de cigano contemporâneo. A relação de autonomia de Fern ainda é potencializada pelo contato com personagens de legítimo vivenciar nômade: Bob Wells (que estimula o estilo de vida com ares socialistas, no meio do nada, no Arizona) e a dupla de idosas Linda May e Swankie. O trio sai da vida real para a telona do cinema.

Temas como mortes serenas, a relevância de terceiros, convívio com natureza, doença e caridade fazem de Nomadland um filme muito atual. O que garante a unidade de tudo está ainda na multiplicidade de talentos assumidos pela cineasta Chloé Zhao: diretora, roteirista, montadora e produtora do filme.

Outros lançamentos

Chão
De Camila Freitas. Documentário mostra os planos e frustrações de um grupo de partidários do Movimento dos Sem-Terra disposto a ocupar improdutivas terras de uma usina de cana-de-açúcar.

A torre
De Sergio Borges. O premiado diretor examina a crise de identidade do personagem André (Enrique Diaz), recém-separado e que tem a sexualidade questionada.

Desvio
De Arthur Lima. Saído de Patos (Paraíba), um presidiário, em visita temporária, se aproxima de preconceitos e ainda de uma pessoa que sempre despertou os maiores impulsos dele.

Entre nós, um segredo
De Beatriz Seigner e Tourmani Kouyaté. Afastado da terra-natal, o Mali, homem é convocado pela avó que, na iminência da morte, pretende reunir a família para preservar o vínculo com a narrativa oral, além de fazer revelações importantes aos parentes.

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Empilhado de mentiras

Convenções sociais, segredos de família, nuances na sociedade brasileira e futilidade e ganância estão entre os temas explorados pelo longa O auto da boa mentira, do brasiliense José Eduardo Belmonte. A literatura de Ariano Suassuna e ideias que permeavam a peculiar expressividade do autor paraibano serviram de base para o roteiro. No elenco, Leandro Hassum, Jesuíta Barbosa (foto), Cássia Kis, Jackson Antunes e Luis Miranda dão vida a personagens de quatro segmentos: Fama, Vidente, Furão e Disney. Na tela, Helder é confundido com um humorista de sucesso, enquanto Fabiano pretende desvendar um mistério genealógico, o safo gringo Pierce descortina idiossincrasias do Vidigal carioca e, por fim, a estagiária Lorena fica deslumbrada com um suposto pertencimento à alta cúpula no ambiente de trabalho.

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