CINEMA

Novo filme de Belmonte, ‘O auto da boa mentira’ estreia nesta quarta (6/5)

No novo longa do diretor brasiliense, um subgerente de recursos humanos é confundido com uma celebridade

Ricardo Daehn
postado em 05/05/2021 06:00
 (crédito: Helena Barreto/Divulgação)
(crédito: Helena Barreto/Divulgação)

Ao interpretar, com leveza, um subgerente de recursos humanos que é confundido com uma celebridade, na comédia O auto da boa mentira, assinada pelo diretor brasiliense José Eduardo Belmonte, o ator Leandro Hassum reforça aspectos cômicos da obra extraída de escritos e vivências de Ariano Suassuna (O auto da compadecida). “Nessa objetividade que impera nas redes sociais, assistir a Ariano (em palestras, no YouTube) é algo vital, ele dá ensinamentos genuínos, como esperar alguém dar as costas para falar mal dela (risos). Ariano é brilhante para a sanidade mental de que necessitamos”, destaca o ator, sobre a contemporaneidade do dramaturgo e escritor paraibano, radicado no Recife e morto há sete anos, aos 87.

“Acho a comédia o gênero mais difícil que existe. Esse filme partiu da inusitada ideia de se basear em palestras do Ariano, e gostei da estrutura, que tem algo das comédias italianas episódicas dos anos de 1970. Não é tão regional (de fonte do Nordeste) quanto poderia se esperar, é urbano. E trata de alguns momentos das andanças e viagens do Ariano Suassuna pelo país”, acrescenta José Belmonte, cineasta de filmes premiados como Carcereiros e A concepção.

Com roteiro assinado por João Falcão (A máquina), Tatiana Maciel e Célio Porto, o longa tem produção associada de Guel Arraes (Lisbela e o prisioneiro) e, no elenco, Nanda Costa, Jackson Antunes, Johnny Massaro, Cassia Kiss e Renato Góes. Para José Eduardo Belmonte, um dos traços em comum com Suassuna é o da disposição de ter um olhar sobre o Brasil e englobar aspectos lúdicos das narrativas. Ele comenta, ainda, da intenção de projetar algo do humor de Jacques Tati (do clássico Meu tio) no filme.

Depois de incursões em ação, terror e thriller, a comédia modula novamente a filmografia do diretor. “Muitos dos outros filmes meus eram mais pessoais; de 2010 para frente, tenho estado ainda em filmes de produtores (caso do novo). Sempre tive interesse por coisas novas, diferentes, reformular experiências de vida”, explica.

No processo de experimentações, Belmonte recrutou atores convincentes como Sérjão Loroza, Jesuíta Barbosa e Cacá Ottoni, sempre comungando da crônica social que assenta textos de Ariano Suassuna.

 

Entrevista /José Eduardo Belmonte

 (crédito: Ramon Vasconcelos/Divulgação)
crédito: Ramon Vasconcelos/Divulgação

 

O seu novo filme fala um pouco de deslocamentos, sobre não pertencer, sobre a invisibilidade, às vezes, de alguns personagens. Qual a percepção disso?
Os personagens são invisíveis, porque eles são, no imaginário dos outros, personagens presos a estereótipos. Acho que a gente ainda precisa melhorar e ter mais vontade de entender quem nos é diferente, e não tipificar. Essa desatenção é um problema que a gente, como nação, tem que amadurecer.


Onde o seu humor dialoga com o de Ariano Suassuna? O filme não é uma comédia rasgada...
Acho interessante o aspecto lúdico da obra dele. Tentei me aproximar disso no filme, porque acho um olhar muito generoso sobre os personagens, que é algo que sempre busquei.


O contato com o Cerrado e a vivência em Brasília te aproximaram da linguagem nordestina?
Sim. Gosto, por compreender a complexidade, há criatividade e diversidade.


A pandemia atrapalha a estratégia de lançamento nas salas de cinema? Como vê o streaming hoje em dia?
Quero ter como norte uma frase do Ariano: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Estamos lançando! Sempre é muito complexo fazer um filme e, nessas circunstâncias, mais ainda. Então, chegar aqui é sempre uma vitória. São tempos incertos. Estamos tentando nos preparar e adaptar a eles. Não está fácil, mas tento estar grato com o que se conquista. Desde que comecei o cinema, no fim dos anos 1980, vi várias transformações e ainda virão outras. Como o cinema é intrínseco com a tecnologia, ele é um processo bastante dinâmico. É preciso ser flexível. Acho que o streaming vem a somar.


Stand-up comedy é uma cultura que busca o relaxamento diante da realidade... O mundo está precisando disso hoje em dia?
O mundo está precisando de alegria. As aulas-espetáculo (de Ariano) são exemplos de como fazer humor. Quem puder assitsir no “iutubi” — quero aportuguesar, mesmo (risos) — assista!


Como Ariano Suassuna se relacionava com a morte? E, falando nela, há na narrativa a capacidade de o filme destroçar o mundo mágico, lúdico do circo... Isso é doloroso?
Penso que a verdade e o sonho podem e devem conviver. Ainda que para alguns demore um pouco essa adaptação. Em O auto da compadecida, Ariano falava que a morte era “aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a Terra”. Acho uma boa definição.


Em que pé anda O pastor e o guerrilheiro, seu próximo trabalho na telona? Qual o objetivo maior com o filme e que memórias recentes guarda das filmagens em que, destemidamente, podia circular num set?
Estamos terminando o filme. Estou bem feliz. É um projeto que mexeu com muitas questões pessoais e memórias. O filme vai seguir pelo circuito de festivais. A memória que guardo é da minha mãe. Foi a última vez que a vi e convivi. Depois veio a quarentena, e ela veio a falecer em julho passado.

 

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