PERDA

Paulo Gustavo deixa legado importante para o humor brasileiro

Legado do comediante é incomensurável para a arte brasileira, com ideias, recordes e muito riso

» Pedro Ibarra*
postado em 06/05/2021 06:00 / atualizado em 06/05/2021 09:06
 (crédito: Victor Pollak/Divulgação)
(crédito: Victor Pollak/Divulgação)

Há aproximadamente 15 anos, um nome despontava nos teatros do Rio de Janeiro. Com uma voz alta e reconhecível, além de um humor que lotava sessões e sessões, Paulo Gustavo dava os primeiros passos de uma carreira que estava destinada a mudar a comédia brasileira, e foi em uma peça em que tudo começou.

Paulo Gustavo saiu de Niterói (RJ) para se dedicar à carreira artística no Rio de Janeiro, onde estudou na Casa das Artes de Laranjeiras e iniciou a trajetória em 2004, com a peça Surto. Em 2005, quando se formou como ator, já tinha feito sucesso na capital fluminense com a primeira peça que estrelou e partiu para o elenco de Infraturas, espetáculo de Fábio Porchat. No ano seguinte, no teatro, conquistou o Brasil com Minha mãe é uma peça, seu maior sucesso da carreira, encenado desde 2004, mas que arrebatou multidões em 2006.

A partir de Minha mãe é uma peça, Paulo Gustavo viu a carreira ascender no cinema e na televisão. O humorista, que só havia feito pequenas participações em séries e novelas, emplacou um papel em Divã, com Lília Cabral, e um coadjuvante com Xuxa, em O mistério de Feiurinha, em 2009. Mas foi em 2011, que se consolidou como ator a nível nacional com a série 220 Volts. O programa de esquetes, dirigido por Fernando Caruso, com quem já tinha trabalhado no stand up Hiperativo, em 2010, que fez muito sucesso no Multishow.

Toda essa construção de carreira levou o ator a dois grandes feitos em 2013. Primeiro, estreou a sitcom Vai que cola. Criada por ele mesmo, a série mostrava o cotidiano de uma família do bairro do Méier, na Zona Norte do Rio. O seriado conquistou uma legião de fãs e chegou a virar uma franquia no cinema em 2015, com Vai que cola — O filme, e depois com Vai que cola 2 — O começo, em 2020.

No entanto, o ano de 2013 foi importante por outra estreia, a do longa Minha mãe é uma peça. O espetáculo foi adaptado para os cinemas e foi um grande sucesso. A franquia se tornou recorde de bilheteria da história do cinema brasileiro, acumulou recordes. Com Minha mãe é uma peça 3, Paulo Gustavo viu a personagem Dona Hermínia levar multidões ao cinema, mais de 11 milhões de pessoas lotaram salas. O filme é o mais lucrativo da história com R$ 182 milhões arrecadados, recorde que era do antecessor, Minha mãe é uma peça 2, com pouco mais de R$ 120 milhões arrecadados. Ao todo, os três filmes da franquia levaram quase 30 milhões de pessoas aos cinemas e arrecadaram mais de R$ 300 milhões.

Paulo Gustavo participou também da franquia Homens são de Marte e é para lá que eu vou e Minha vida em Marte, ao lado da atriz Mônica Martelli. Também fez a sitcom A vila, e viu o 220 Volts alçar novos voos com um filme e um especial de Natal no final de 2020, o último trabalho do comediante.

 

 

Morte comove o país

A brilhante carreira construída foi interrompida antes da hora, o artista teve diagnóstico positivo para covid-19 no início de março e foi internado no dia 13. No dia 21 do mesmo mês teve de ser intubado, o caso se agravou ainda mais e o humorista precisou ir para o tratamento alternativo de oxigenação por membrana extracorpórea (Ecmo), uma espécie de “pulmão artificial” usado em casos de pneumonia grave.

No último domingo, após uma melhora do ator e a diminuição dos sedativos, foi constatada uma embolia gasosa disseminada causada por uma fístula bronquíolo-venosa. A situação ficou “irreversível”, declararam os médicos, o que o levou a óbito. Por opção da família do ator, o local do velório não será revelado, na intenção de evitar aglomerações. O evento será hoje e fechado para família e amigos próximos. O corpo do ator será cremado.

Ainda não é certo se Paulo Gustavo deixou trabalhos prontos que podem ser exibidos de forma inédita, sabe-se que ele tinha uma série prevista para gravar com a mãe sobre a turnê de Minha mãe é uma peça, que fizeram juntos em todo Brasil. Em entrevista ao Correio em 2019 quando veio apresentar o espetáculo em Brasília, o ator mencionou que os bastidores da peça estavam sendo filmados. “Estou registrando esse show, essa nossa parceria, esse momento das nossas vidas. Quem sabe depois eu faço um seriado dessa história?”, pontuou o ator na época.

Paulo Gustavo deixa o marido Thales Brêtas, e dois filhos, Gael e Romeu. Além de uma legião de fãs em todo país, que acompanharam a dedicação de uma carreira para fazer o público rir, porque assim como o ator falou no discurso final de 220 Volts — Especial de Natal, “Rir é um ato de resistência”.

Emocionado, Brêtas postou nas redes sociais: “Nossa caminhada tinha tudo pra ser longa! Linda como vinha sendo... tão feliz! E foi muito! Como fui feliz nesses últimos 7 anos que tive o privilégio de conviver com você! Como eu aprendi, cresci! Espero poder passar um pouco do seu legado de generosidade, afeto, alegria e amor”.

 

Legado e homenagens

A importância de Paulo Gustavo rendeu a ele uma série de homenagens de artistas nas redes sociais. Pessoas mais próximas ao ator como Tata Werneck, Fábio Porchat, Mônica Martelli e Susana Garcia escreveram textos emocionados nas redes sociais, assim como Bruna Marquezine e Xuxa. Susana lembrou que o ator enviou R$ 500 mil para compra de oxigênio para hospitais em Manaus e “nunca divulgou nada”.

O padre Julio Lancellotti revelou que o humorista havia contribuído com R$ 1,5 milhão para a construção de um centro de tratamento de câncer infantil. O impacto foi internacional, chegando a uma postagem do ator Marlon Wayans e uma bela homenagem de Beyoncé (ele era fã) no site dela. Pelas redes sociais, o escritor Paulo Coelho desabafou, ao dizer que os “assassinos” de Paulo Gustavo são todos aqueles que negam a gravidade da covid-19, que acham que cloroquina resolve e debocham da doença, dizendo não passar de uma “gripezinha”.

“Paulo foi um gênio e vai fazer muita falta neste mundo careta e preconceituoso”, afirma o produtor André Deca ao Correio. Responsável pela Deca Produções, ele produziu todas as peças de Paulo Gustavo em Brasília, “mesmo antes da fama estrondosa”, conta. André afirma se sentir honrado de acompanhar todo sucesso de Paulo Gustavo de perto. “São 10 anos trabalhando juntos, rindo muito, porque ele sempre foi esse cara engraçado na vida”, pontua o produtor que conheceu o ator em 2008 quando trabalhava para outra peça no Rio.

Para Adriano Siri, ator do grupo Melhores do Mundo, Paulo Gustavo é um marco na comédia brasileira. “Sua forma de fazer humor, debochado e rascante, influenciou toda uma geração de jovens artistas”, analisa o artista. Siri exalta também a ligação de Paulo Gustavo com o teatro. “Chegou pelo teatro e tomou conta das mídias. Isso foi muito bom, pois evidencia a importância e a força do palco na formação do ator”, acrescenta.

“Sua personalidade forte e presença de espírito, associadas a tanto talento, nos deixam a certeza de que a comédia é cada vez mais uma expressão, não apenas necessária como fundamental, na construção da nossa cultura”, aponta Adriano. “Sua coragem e força do fazer artístico deixam claro que o humor pode ser um retrato vivo, como crítica ou crônica, da nossa sociedade”, complementa sobre o legado de Paulo Gustavo.

Rodolfo Cordón, ator e cofundador do grupo G7, também aponta Paulo Gustavo como uma importante figura para cultura brasileira no geral e enfatiza o teatro. “Foi de lá que ele veio e foi o teatro que deu a ele todas as armas e todas as condições dele se tornar esse mega ícone nacional”, explica o ator. “Ele foi muito corajoso de fazer a comédia e humor, sem deixar de ser quem ele era, sempre foi muito autêntico, e a autenticidade dele conseguiu unir o Brasil, de uma maneira que há muito tempo não se conseguia”, analisa o artista. “Em tempos de polarização tão grande, o Paulo Gustavo foi o único que conseguiu unir o Brasil na alegria e no humor”, completa.

Ele conta que já dividiu teatro com Paulo Gustavo por duas oportunidades e que o G7 e o comediante tinham uma ótima relação. “Ele chegou a entrar vestido de Dona Hermínia no meio de uma peça do G7 para fazer uma brincadeira com a gente”, lembra o humorista.

Colaborou Isabela Berrogain
*Estagiários sob a supervisão de José Carlos Vieira

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE