MÚSICA

Disco com clássicos de Aldir Blanc é o novo projeto de Augusto Martins e Paulo Pauleira

Quando Martins e Malaguti deram início ao processo, já havia definição sobre 'Altos e baixos' (Aldir Blanc e Sueli Costa), que eles gravaram há 15 anos, sendo a primeira faixa do CD a chegar às plataformas digitais

Irlam Rocha Lima
postado em 16/05/2021 06:00 / atualizado em 17/05/2021 14:00
Aldir Blanc: referência da música brasileira, ele morreu há um ano -  (crédito: Fabricio Tadeu/ Divulgação)
Aldir Blanc: referência da música brasileira, ele morreu há um ano - (crédito: Fabricio Tadeu/ Divulgação)

Aldir Blanc, um dos mais celebrados letristas da música popular brasileira, deixou vácuo gigantesco na cultura do país, ao falecer em 4 de maio de 2020. Algumas homenagens foram prestadas ao poeta carioca, entre as quais a criação, meses depois, de lei com seu nome, que garante auxílio emergencial a trabalhadores do setor da cultura, em razão da pandemia.

Outro tributo, ele acaba de receber com o projeto Como canções e epidemias, álbum de Augusto Martins. Acompanhado pelo pianista Paulo Pauleira Malaguti, um dos integrantes da atual formação do grupo MPB-4, o cantor recria canções em que Aldir tem como parceiros João Bosco, Guinga, Ivan Lins, Moacyr Luz e Sueli Costa. O título do CD vem da letra de Caça à raposa, nome também do segundo disco de João, lançado em 1975.

“Pouco depois de começarmos a formatar o projeto, Aldir adoeceu, contaminado pela covid-19. No momento da pesquisa das músicas, me deparei com a incrível atualidade de Caça à raposa, que trazia em um dos versos a frase ‘Recomeçar como canções e epidemia’. A partir dali, nunca tive tanta certeza e inquietude ao fazer um trabalho”, ressalta Martins. “Como critério para construir o repertório, tínhamos em mente escolher músicas muito especiais, para o que propúnhamos. Poderia ser rara ou de sucesso dessa obra tão vasta e multifacetada”, acrescenta.

Quando Martins e Malaguti deram início ao processo de escolha, já havia definição sobre Altos e baixos (Aldir Blanc e Sueli Costa), que eles gravaram há 15 anos, sendo a primeira faixa do CD a chegar às plataformas digitais. No último 16 de abril, foi a vez de Caça à raposa. Por favor é o single a ser lançado, uma parceria do poeta tijucano com Ivan Lins, companheiros no Movimento Artístico Universitário (MAU), na década de 1970.

Filho de Núbia e Nilo (com a participação de Zé Renato) e Muito além do jardim, composições de Aldir e Moacyr Luz; e Odalisca, feita com Guinga, já mixadas e remasterizadas, são as canções a serem lançadas posteriormente. O CD completo estará disponível nas plataformas digitais no segundo semestre. “Mergulhar nessa obra é uma tarefa hercúlea, mas também uma festa, para a qual qualquer músico brasileiro gostaria de ser convidado”, resume Paulo Malaguti. Ele havia trabalhado com Augusto Martins em disco que reverenciou Tom Jobim.

Sobre o álbum que reverencia seu parceiro em mais de 100 músicas e vários clássicos da MPB, João Bosco deixa claro sua aprovação. “Gostei da forma como foram abordadas essas músicas. O duo de voz e piano partiu de uma concepção original para buscar um registro de muita personalidade e novos caminhos para cada canção. Tudo o que o compositor deseja é que haja um outro olhar sobre sua obra”.

Depoimentos

“Falar de Aldir Blanc é falar de uma força da natureza, com aquilo que nos diferencia, nos diviniza: a arte, uma cultura imensa, uma sabedoria. Era um homem inquieto, uma alma em ebulição. E mostrava isso com uma poesia poderosa, uma originalidade acachapante. Era capaz de rir de suas próprias fraquezas e falava do país com uma imensa força política, sempre apontando as mazelas desse Brasil tão doido. Um profundo observador do ser humano.São muitas as faces da obra desse gênio”
Augusto Martins

 

“Aldir tinha um estilo muito particular. Inicialmente influenciado por Vinicius de Moraes, assim como Chico Buarque e Paulo César Pinheiro, ele passou a escrever letras lindas e líricas, que se adequavam às melodias de cada parceiro, mesmo quando abordava questões mais complexas, temáticas sociais, com sua afiada visão crítica. Juntos, compomos mais perto de 50 músicas, várias delas ainda inéditas. Nos últimos anos, falávamos só por telefone, pois ele vivia muito recluso, em seu universo particular, recheado de livros. Gostei bastante da interpretação de Augusto Martins e do meu amigo Paulo Malaguti para Odalisca, canção que gravei com o Quarteto Carlos Gomes”
Guinga


“Via Aldir como o Noel Rosa de nossa geração. Era impressionante o profundo conhecimento que ele tinha do subúrbio do Rio de Janeiro, sobre o qual escrevia com muita propriedade, quase sempre com um olhar crítico. Por alguns anos moramos no mesmo prédio na Tijuca, o que contribuiu para que a nossa amizade se fortalecesse. Fizemos mais de 100 músicas. Duas delas, agora, ganharam novas e belas gravações de Augusto Martins e Paulinho Malaguti, em duo de voz e piano. Aldir era uma pessoa simples, mas de imensa grandeza para a música popular brasileira”
Moacyr Luz

 

“Sempre fui amiga de Aldir e da Mary, a mulher dele. Altos e baixos é uma canção que considero importante em minha obra. O Aldir estava doente e fui à Tijuca visitá-lo. Eu havia acabado uma relação estava muito triste. Ele percebeu isso e me entregou uma letra que tinha tudo a ver com o que eu estava sentindo naquele momento. Assim que cheguei em casa fui para o piano e criei uma melodia a partir da letra. A versão de voz e piano para Altos e baixos, de Augusto Martins e Paulo Malaguti, é bem interessante”
Sueli Costa

 

4 de maio de 2020
Data em que Aldir Blanc faleceu

 

 

 

 

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