CINEMA

Dois filmes brasileiros estão no festival de animação de Annecy

'Bob Cuspe — Nós não gostamos de gente', de César Cabral, e 'Meu tio José', de Ducca Rios, integram a programação do mais prestigiado festival de animação da França

A partir do dia 14, os brasileiros podem começar a torcida por dois longas selecionados para o festival de Annecy, na França, maior vitrine das produções de animação: competem Bob Cuspe — Nós não gostamos de gente (de César Cabral) e Meu tio José, assinado por Ducca Rios, que, pela primeira vez, coloca criação baiana em destaque no evento. “O Brasil tem presença marcante em Annecy, desde Uma história de amor e fúria. Seremos a quarta produção 100% brasileira a participar da mostra competitiva”, ressalta o diretor Ducca.

Criação mítica de Angeli, o “punk da periferia” Bob Cuspe é a estrela do filme, feito em stop-motion — técnica em que a filmagem é captada quadro a quadro e, no caso dessa produção, com bonecos de massinha. A animação conta história anárquicas e irreverentes da revista Chiclete com Banana, dos anos 1980.

O dirietor de Meu tio José destaca a evolução das animações brasileiras. “Isso (a indicação) é muito importante para que o governo e a comunidade cinematográfica entendam que precisam abrir os olhos para o segmento que tem rendido prêmios importantes. O último filme brasileiro aceito dentro da competição do Oscar foi O menino e o mundo, animação e obra nacional que mais colecionou prêmios ao redor do mundo”, demarca Ducca.

Vista como prêmio e mudança de paradigma, a seleção de Meu tio José para Annecy reflete a admiração de Ducca pelo referencial do ilustre baiano Glauber Rocha. “É uma referência, em termos de posicionamento político, no sentido da busca pela independência de um cinema efetivamente nacional, livre de padrões. Vejo o Cinema Novo como cinema renovado, com inovação, integrando presente e futuro”, destaca.

A animação autobiográfica, mas com narrativa ficcional, traz subjetividade à relação do cineasta com o tio (José Sebastião de Moura, personagem que ganhou a voz de Wagner Moura), morto, em fato histórico real, como integrante do grupo de esquerda Dissidência da Guanabara. “Houve a busca para construir algo que possa ser uma resposta ao que me intrigava: meu tio morreu e o crime ficou sem solução”, explica.

Ducca adianta ao Correio, o próximo projeto: o longa Revoada, remake em animação sobre o cangaço, mas com uma escapada para um universo futurista retrô, diz o cinemasta. Será uma fantasia bem distópica, afirma.

No DF

A produção brasiliense de animação também ganha visibilidade nos trabalhos dirigidos por Luíza Cardoso e Victor Mendes. Dirty paws revela a força criativa de Luíza e suas referências. “Acho que as influências vêm do mundo todo. Especialmente da animação japonesa, que é a que mais me inspira”, afirma. Apesar da extrema sensibilidade de

Dirty paws, Luíza destaca as diversas abordagens de diretoras femininas. “Meu curta é, de certa forma, feminino, mas não gostaria que fosse visto assim por eu ser mulher. Conheço artistas e animadoras que adoram abordar ação, violência e terror nos seus trabalhos”, acrescenta.

Victor Mendes, criador do curta A torre das baterias, exibido no Festival Animarte! (on-line) também tem aquecido parte da produção brasiliense de animação. “Acredito que os festivais on-line vêm acrescentando bastante para a disseminação de animações, fazendo chegar a pessoas que provavelmente não conseguiriam assistir em outro lugar ou momento”, comenta Victor Mendes.

Ainda que observe que o mercado estrangeiro produza obras referenciais e inspiradoras para os brasileiros impulsionarem a trajetória na animação, Victor reforça que São Paulo e Rio de Janeiro apresentam um mercado consolidado, “enquanto Brasília enfrenta dificuldades, como a falta de estímulos ou incentivos”.

Saiba Mais

 
Estudantes Brasileiros Maxi/Divulgação - Dirty paws
Arquivo pessoal - Luíza Cardoso
Estudantes Brasileiros Maxi/Divulgação - A torre das baterias
Victor Mendes/Divulgação - Victor Mendes
Maria Luiza Barros/Divulgação - Ducca Rios: "Animação engloba uma linguagem incrível, que comporta o completo ad libitum (sem limites) criativos e estéticos"