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Diretora da comédia 'LOCA', Claudia Jouvin fala das inspirações

Da gargalhada à reflexão, o longa 'L.O.C.A.' subverte os estereótipos das comédias românticas. Claudia Jouvin revela que bebe muito de fontes masculinas no cinema. Mas, na literatura, tudo é diferente

Ricardo Daehn
postado em 15/08/2021 10:02
LOCA tem a assinatura de Claudia Jouvin, na direção e na autoria do roteiro -  (crédito: Telecine/ Divulgação)
LOCA tem a assinatura de Claudia Jouvin, na direção e na autoria do roteiro - (crédito: Telecine/ Divulgação)

O longa L.O.C.A. — Liga das Obsessivas Compulsivas por amor, que, neste domingo (15/8), estreia na plataforma de streaming e no Telecine Premium (às 22h), revela um universo amargo para as mulheres que amam demais, mas tudo na base da comédia. Criação da diretora e roteirista Claudia Jouvin, mostra, no fundo, uma série de planos de vingança para amores abusivos ou incompletos.

No enredo, Mariana Ximenes dá vida à Manuela, afundada em crise profissional e que descobre ser incapaz de manter a relação nada assumida com o professor interpretado por Fábio Assunção. Debora Lamm, na pele, de Elena, só tem olhos para a satisfação de ter conquistado uma casa revestida com porcelanato e Roberta Rodrigues corporifica a determinada Rebeca, sempre com rédea curta para o incansável namorado.

Quais tuas inspirações literárias e cinematográficas?

Eu sempre li muitas autoras mulheres, por procurar, que que por instinto, as narrativas femininas que gerassem mais identificação com as histórias. Sou muito fã da Dorothy Parker e gosto da autora inglesa Meggie O´Farrell; curto a Jennifer Egan e gosto da Virginia Woolf.Sempre procurei muito as autoras mulheres para procurar um ponto de vista feminino nas histórias. Já, no cinema,
os filmes que eu vejo, até por existirem mais diretores homens (e roteiristas), ainda que hoje tem aparecido muitas diretoras; mas fui formada por uma turma muito masculina. Sou muito fã do Sérgio Leone, do Quentin Tarantino e do Almodóvar. Acho que juntei um pouco de tudo isso ali no filme L.O.C.A., mas com uma pegada mais feminina. Consegui achar minha voz ali, com todas as referências masculinas que trazia do passado.

E, no Brasil?

Venho de uma escola de humor em que tive a honra de trabalhar com pessoas que eu admiro muito: Guel Arraes, Jorge Furtado e Adriana Falcão. Acho que, de certo modo, me formaram assim, desde o começo, e fizeram eu ser a roteirista que eu sou hoje em dia. Foi onde aprendi a fazer comédia, bebendo sempre do que eu mais gostei de ver no cinema nacional.

Você tem impaciência com comédias românticas?

Gosto muito de comédias românticas. Sempre gostei. Um filme que ligou uma chave em mim foi O casamento do meu melhor amigo, num enredo em que a mocinha não é uma mocinha é, na verdade, uma vilã. Ela quer destruir o casamento do amigo. Foi um filme que me fez pensar assim: as mocinhas não precisavam ser aquelas pessoas que idealizavam o amor. Acho que a comédia romântica fez um desserviço, durante anos, por ter contado histórias água com açúcar, do amor ideal, do príncipe encantado, e a vida não é assim.

Há palpável prejuízo nisso?

Há uma geração de mulheres que se sentem frustradas porque você acaba focando nesse ideal amoroso de haver o homem perfeito. Isso frustra e, muitas vezes, você fica com a esperança, como nas personagens do nosso filme, de que a outra pessoa mude. Que o seu amor tenha poder de mudar aquela pessoa, e que tudo vai dar certo no final. Nem sempre é assim, e muitas vezes as pessoas se metem em histórias horríveis e tóxicas. Acreditam que tudo vai dar certo no final. Daí vejo que a comédia romântica tenha esse problema.

Há pretensões em L.O.C.A.?

A gente procurou contar uma história que era quase um alerta. Não dá para as mulheres aceitarem qualquer coisa, não dá para aceitar em situações degradantes, achando que isso vai mudar em algum momento. O filme ele tem essa pegada de mostrar um outro tipo de relação, com exageros (até para para criar comédia). Acho que o filme serve um pouco para tirar um pouco esse mito do amor ideal.

 

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