Literatura

Escritores independentes contam os desafios de lançar livros na pandemia

Mesmo com todos os problemas que a pandemia do novo coronavírus acarretou, diversos escritores resolveram seguir com o sonho de lançar um livro

Yasmin Ibrahim*
postado em 18/09/2021 09:00
 (crédito: Arquivo pessoal/ Andressa Gonçalves/ Mariana Sampaio)
(crédito: Arquivo pessoal/ Andressa Gonçalves/ Mariana Sampaio)

Livros no café da manhã, almoço e jantar. Essa sempre foi a rotina de Andressa Gonçalves, 21 anos, que lançou uma obra em meio à pandemia de covid-19. A brasiliense resolveu tirar o sonho de escrever um livro dos pensamentos e o transformou em realidade em abril de 2020, bem no começo do confinamento.

Andressa resolveu fazer de seu trabalho de conclusão no curso de jornalismo um livro de poesias, o Eu me amo mesmo? Histórias sobre virar você.

 

Andressa conta que foi difícil encontrar uma editora que lhe desse alcance e suporte, pois muitas optaram por apostar em títulos já conhecidos. “Eu busquei por uma editora que me desse alcance de Norte a Sul do país, para que meu livro pudesse alcançar mais público. A maioria das editoras com quem falei queriam fazer tiragens pequenas, de 300 edições. Eu consegui a tiragem de mil, além de conseguir vendê-lo em lojas físicas e on-line, como a Saraiva e a Amazon, respectivamente.”

Mesmo aumentando os horizontes, Andressa teve outro problema: arrecadação. Apesar da tiragem maior, a autora independente não conseguiu receber o valor dos exemplares vendidos em livrarias. “Foi uma aposta que eu fiz, mas acho que está dando certo. Recebo mensagens de pessoas que leram meus livros de outros estados, mensagens positivas, e é um sentimento sem igual.”

Diferentemente de Andressa, os amigos Lucas Ferreira e Mariana Sampaio decidiram que publicariam o livro de poesias Depois de tudo, se fez verso apenas no formato digital, em e-book.

A coletânea de poemas escrita pelos amigos entre 2019 e 2020 virou livro bem no início da pandemia. “Nós decidimos em 2019 que iríamos lançar em 2020, não tínhamos ideia de que estaríamos em pandemia. Como foi a gente que fez tudo, diagramação, edição, correção, a data de lançamento mudou algumas vezes até que foi lançado em 30 de julho deste ano”, conta Mariana, 21 anos.

Ela explica ainda que os dois procuraram por editoras, mas que o orçamento fornecido para as tiragens sairia da margem de gastos que tinham. Por isso, os dois resolveram colocar as mãos na massa e eles mesmos formataram o livro.

Para a brasiliense, poder editar o livro foi um passatempo durante a pandemia. “Falo por mim, foi ótimo ter alguma coisa fixa e totalmente minha para focar durante o isolamento. Fiquei feliz com o momento em que lançamos, pensamos que poderia distrair a mente de alguém e no final do livro fizemos uma homenagem aos que perderam familiares, um agradecimento pelas equipes de saúde.”

Editoras

A pandemia do novo coronavírus trouxe impacto nas mais diversas áreas, e o setor literário foi uma delas, com queda 6% de vendas em 2020, de acordo com a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, do Sindicato Nacional dos Escritores de Livros (SNEL), Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Nielsen Book.

Com uma redução de 20,5% da tiragem anual de livros, foram impressos 46 mil títulos, sendo 76% deles reimpressões e 24%, novos títulos. A quantidade de Padrão Internacional de Numeração de Livro (ISBN, sigla em inglês), sofreu queda de 13.671, em 2019, para 11.295, em 2020.

A editora e gráfica Art Letras, que está no mercado brasiliense desde 1991, também enfrentou dificuldades no período de pandemia. O sócio gerente Carlos Ferreira da Rocha conta que, apenas em 2019, a editora publicou cerca de 50 títulos e que, em 2020, esse número caiu pela metade. “As vendas caíram 90% e a empresa ficou alguns meses funcionando precariamente e sem auxílio por parte do governo”, explicou.

Apenas na área de livros didáticos, que é a mais lucrativa do setor, houve uma redução de 11% nas vendas. Mesmo com essa queda, quando comparado a 2019, a venda de exemplares didáticos em livrarias exclusivamente virtuais pulou de 12,7% para 24,8%, e o faturamento desse mesmo setor foi de 6,6% para 13,4%.

De maneira geral, nos últimos 10 anos, o mercado literário teve uma queda de 4,1% na contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o relatório da Nielsen Book, “a queda de 12% do total faturado pelas editoras de obras gerais é resultado da redução do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) Literário”.

Produção e vendas do setor editorial brasileiro
Produção e vendas do setor editorial brasileiro (foto: Fonte: Nielsen | Nielsen Book)

* Estagiária sob a supervisão de Mariana Niederauer

  • Andressa Gonçalves e seu livro "Eu me amo mesmo? Histórias sobre virar você"
    Andressa Gonçalves e seu livro "Eu me amo mesmo? Histórias sobre virar você" Foto: Arquivo pessoal
  • Produção e vendas do setor editorial brasileiro
    Produção e vendas do setor editorial brasileiro Foto: Fonte: Nielsen | Nielsen Book
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE