ARTE

Movimento Internacional de Dança coloca em evidência as produções do DF

Em formato híbrido, com espetáculos presenciais e on-line, o Movimento Internacional de Dança coloca em evidência as produções do DF

Nahima Maciel
postado em 08/09/2021 06:00
Espetáculo do francês Tomas Lebrun está na programação on-line do MID -  (crédito: Frederic Iovino/Divulgação)
Espetáculo do francês Tomas Lebrun está na programação on-line do MID - (crédito: Frederic Iovino/Divulgação)

A sexta edição do Movimento Internacional de Dança (MID) é uma espécie de retomada. Com formato híbrido em uma programação on-line e presencial, o MID está sendo encarado como um respiro, um fio de esperança para os artistas do palco, os que mais têm sofrido durante os fechamentos provocados pela pandemia de coronavírus. Em julho de 2020, o evento ficou restrito às apresentações on-line, com 10 coreografias curtas e uma batalha de breaking. A expectativa da organização era poder voltar aos palcos em novembro, mas o recrudescimento da pandemia não permitiu. “Daí, a gente pensou em fazer em abril, mas a covid-19 não permitiu. Agora, finalmente, conseguimos levar a dança do DF de volta ao palco”, celebra Sérgio Bacelar, diretor do MID.

Para colocar em prática um esquema de segurança sanitária e tentar conquistar a confiança do público, ele investiu 5% do orçamento do festival em protocolos. “Pela primeira vez, em 22 anos como festivaleiro, eu tenho na minha equipe uma coordenação de saúde”, avisa. Para minimizar o risco de contaminação, os organizadores do MID aplicarão 560 testes antígenos nos profissionais que participam do evento, além de fornecer máscaras PFF2 para todos que trabalharem dentro do teatro. A ocupação das salas será reduzida em 50%. “Primeira vez que trabalho nesse modelo, e acho necessário para fazer esse presencial acontecer. Não vai ser fácil. Para mim é muito claro que o público vai voltar paulatinamente às apresentações de teatro. Precisamos voltar. Na tentativa de reconquistar o movimento, é isso que a gente está fazendo. São mais ou menos 200 pessoas envolvidas com essa parte presencial”, explica.

O eixo principal da sexta edição é a dança produzida no DF, com seis espetáculos nascidos, na maior parte, durante a pandemia e sob o impacto do distanciamento social. “Esse é o momento que o MID precisa dar atenção para a cadeia produtiva da dança no DF. Porque, nesse momento, precisamos cuidar dos que estão mais próximos da gente, do nosso entorno, então a gente apresenta para esses grupos a oportunidade de dançar novamente”, diz Bacelar.

No programa também entram sete coreografias internacionais com transmissão on-line e duas de fora de Brasília, com apresentações presenciais. Cristina Moura, ex-integrante do grupo brasiliense EnDança, traz Agô; e Clarice Lima, do Ceará, dirige Iracema, espetáculo inspirado no clássico de José de Alencar e destinado às crianças. Entre os internacionais, Lied Ballet, do francês Thomas Lebrun, será apresentado on-line, assim como o Ciné-Danse, um conjunto de cinco coreografias da companhia francesa Amala Dianor.

Os espetáculos de Brasília terão duas apresentações presenciais no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e uma on-line, com transmissão ao vivo. Um palco aberto vai receber também coreografias curtas de vários estilos e apresentadas por profissionais, iniciantes e amadores. Esse formato de peças curtas será realizado aos domingos, na área externa do CCBB, até o fim do festival. A intenção é mesmo a diversidade, ideia que marca toda a programação do MID. “Todos dançando danças diferentes juntos”, diz Bacelar.

Solos delicados

 (crédito: Thiago Sabino/Divulgação)
crédito: Thiago Sabino/Divulgação

Edson Beserra e Marcus Katu trazem para o MID solos de dança criados durante a pandemia, mas que estavam em gestação muito antes de o vírus impor distância à humanidade. Inspirado na pintura Navio negreiro, de William Turner, e em um conto de Guy de Maupassant, Beserra deu forma a Homem na prancha, coreografia na qual incorpora noções como memória, ancestralidade e reflexões sobre o mundo espiritual. É o primeiro solo do artista que, por uma questão de logística, decidiu reduzir o número de pessoas com as quais trabalha. Em cena, a ideia de vertigem conduz os movimentos.

“Na coreografia, sempre estou ou em estado de vertigem, ou de ondulação, ela é instável e tem essa relação com o invisível. Algumas pessoas chamam de sobrenatural”, explica. “Trato de uma relação que é trazida da obra do Maupassant e dialogo com minha vida mesmo. Sou candomblecista e o espetáculo tem essa relação com presenças invisíveis, com energias invisíveis. Quem for assistir vai me ver dialogando com um ‘não estar sozinho’, apesar de estar em cena”, avisa.

A pandemia atropelou os planos de Beserra em 2020. Projetos de produção e residência artística precisaram ser suspensos e os trabalhos colaborativos migraram para a tela do computador. Um espetáculo com o Nós do bambu teve a circulação interrompida no Palco Giratório e passou a ser apresentado no Plataforma Cena, alternativa criada pelo Sesc para manter os espetáculos disponíveis. “Foi muito difícil, mas outras coisas pintaram, trabalhei em outras coisas. Coisas foram engavetadas e outras oportunidades surgiram. Mas com essa sensação de solidão, de solitude extrema”, conta.

A solidão que faz olhar para dentro e se autoinvestigar está O inquietante, de Marcos Katu. Espetáculo nascido de pesquisa conduzida no doutorado na Universidade de Brasília (UnB), o solo é uma reflexão sobre a subjetividade e a monstruosidade. “O inquietante é aquele lugar de uma estranheza familiar, aquele aspecto que está em nós, que a gente não reconhece, ou estranha, ou se incomoda, mas que faz parte de uma intimidade nossa que às vezes a gente não quer mostrar”, explica o bailarino, que dialoga com estudos da psicanálise sobre a subjetividade e os processos criativos para entender o incômodo como propulsor da criação. “De certa forma, o próprio isolamento social nos obrigou a entrar em processos de mergulho na intimidade, na intimidade da casa, na nossa própria intimidade que, no cotidiano, a gente prefere não olhar. Parto um pouco desse lugar.”

Homem na prancha

De Edson Beserra. Dia 11 de setembro, às 20, e dia 12, às 19, no Teatro 1 do CCBB. R$ 30 (inteira)

O inquietante

De Marcos Katu. Dia 16 de setembro, às 19h, no Teatro 1 do CCBB. R$ 30. Dia 17 de setembro, transmissão ao vivo no canal do MID, às 20h.

Para bebês curtirem

 (crédito: Rebeca Figueiredo/Divulgação)
crédito: Rebeca Figueiredo/Divulgação

Inspirado na ancestralidade e numa palavra tupi-guarani para descrever a água que cai do céu, Amana, da Cia. Psoas e Psoinhas, propõe uma dramaturgia para bebês ancorada na interação. Dirigido por Zé Regino, o espetáculo leva em conta alta sensibilidade e capacidade de aprendizado de crianças ainda na primeira infância para despertar o olhar para a cena. “Na verdade, quando a gente fala de fazer arte com os bebês, a gente fala de um lugar tão pouco explorado e que nossa busca é estabelecer uma comunicação estética”, explica o diretor. “Como é isso que chega para eles, onde isso bate neles? Como é um ser que está na plenitude da capacidade de observação, a capacidade deles de aprender é muito grande, porque o ego ainda não começou a se manifestar, passa uns anos ele está corrompido.”

Amana nasceu de uma provocação para as integrantes do Psoas Psoinhas. Zé Regino quis saber como andava a relação das artistas com as mulheres de suas famílias, com suas ancestrais. A partir dessa ideia, o diretor sugeriu um exercício de trabalho com base na ancestralidade. “Propus para as meninas esse encontro. A gente fez e isso virou a fonte de busca de levantamento de material para todo o trabalho”, diz o diretor.

Amana

Da Cia. Psoas e Psoinhas. Direção:
Zé Regino. Dia 18 de setembro, às 16h, no CCBB, e dia 19, às 16h, no canal
do YouTube do Banco do Brasil.

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