ARTES VISUAIS

Exposição apresenta obra "transgressora e moderna" de Miriam Inez da Silva

Sob a curadoria de Bernardo Mosqueira, a partir de hoje, o Museu Nacional da República apresenta as obras da artista nascida em Trindade (Goiás), em 1937

Nahima Maciel
postado em 15/09/2021 06:00
Miriam Inez Silva ganha retrospectiva no Museu Nacional da República: religiosidade e modernidade -  (crédito: Sergio Guerini/Divulgação)
Miriam Inez Silva ganha retrospectiva no Museu Nacional da República: religiosidade e modernidade - (crédito: Sergio Guerini/Divulgação)

O curador Bernardo Mosqueira ouviu falar de Miriam Inez da Silva pela primeira vez no Bar do Mineiro, no Rio de Janeiro. O proprietário e colecionador Diógenes Paixão guardava em casa e nas paredes do estabelecimento uma bela coleção da pintora. “Sempre fiquei intrigado, mas nunca conseguia muitas informações”, conta Mosqueira, que começou a pesquisar a obra da artista em 2015. Aos poucos, ele reconstituiu a trajetória de Miriam e conseguiu localizar mais de 150 obras que acabaram expostas na galeria Almeida Dale, em São Paulo. Agora, a exposição toma conta do Museu Nacional da República, que abriga a maior retrospectiva da artista realizada até hoje.

Nascida em Trindade (Goiás) em 1937, Miriam Inez da Silva cresceu num município até hoje conhecido pelas peregrinações de fiéis. Um medalhão encontrado por um casal de garimpeiros no início do século 20 que trazia a imagem de nossa senhora com a santíssima trindade seria a origem de vários milagres registrados na região. Imagens votivas e todo o imaginário ligado à igreja e ao universo milagreiro povoam a cidade e tiveram profunda influência no universo pictórico da artista. “A igreja matriz de Trindade tem uma das maiores coleções de arte votiva do país, com ex-votos, uma coleção gigante e antiga. E Miriam cresceu aprendendo o mundo a partir dessas imagens das figuras votivas”, conta Mosqueira.

Miriam estudou pintura em Goiânia, acompanhou de perto a construção de Goiânia e de Brasília, assim como a transformação da região, antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1960. Na capital fluminense, ela participou de bienais e exposições nacionais e internacionais, foi aluna de Ivan Serpa e viu seu trabalho ser muito bem recebido no meio artístico. No entanto, a partir de certo momento, a pintura de Miriam começou a ser categorizada como naif. “Isso fez com que o trabalho dela tenha sido sempre descrito ou definido a partir das ideias de doçura, pureza, bondade, inocência, intuição. E, ao mesmo tempo, fez com que ela tivesse sido colocada, de alguma forma, à margem da história da arte brasileira”, explica o curador. “Mas ela sempre foi transgressora e moderna.”

Miriam acompanhou muito de perto o processo de industrialização e urbanização do Brasil, e o trabalho retrata os conflitos entre a tradição e a modernização nascidos da própria trajetória da sociedade brasileira. “Os valores tradicionais e a força de transformação das formas de viver, isso tudo está dentro da obra dela. Ela escolheu fazer as pinturas a partir do universo pictórico e imagético votivo, que tem essa linguagem que é caracterizada erroneamente como arte popular naif. Mas foi uma escolha. Ela escolheu pintar esse universo para inserir valores de transgressão nos detalhes. Uma primeira leitura pode inspirar essa ideia problemática de doçura, mas é nos detalhes que Miriam insere os seus desejos de crítica, de transgressão”, avisa Mosqueira.

Assim, a artista pinta imagens de casamento em que a coroinha tem olhar fixo no corpo do noivo, cenas de noivado em que noivo abraça noiva, mas toca no ombro da madrinha, composições com cirandas em que predominam olhares maldosos nas crianças representadas e até uma Lady Godiva com releitura própria. “Ela reedita mitos feministas ou, então, faz imagens religiosas em que o corte ou o caimento da roupa de nossa senhora é mais estampado, mais moderno que nas representações tradicionais”, conta o curador.

Entre as representações, há dezenas de nossas senhoras cuidando de um bebê com a cara exausta. “Miriam foi mãe solteira e cuidou dos filhos sozinha. É muito mais complexo do que vinha sendo descrito na obra dela”, acredita.

Miriam Inez da Silva
Curadoria: Bernardo Mosqueira. Visitação até 5 de dezembro, às sextas, aos sábados e aos domingos, das 10h às 16 horas, no Museu Nacional (Galeria Principal).

Dama da abstração
O Museu Nacional da República recebe também uma exposição com 45 obras de Fayga Ostrower, uma das fundadoras da abstração lírica no Brasil. As obras foram doadas pelos filhos da artista e pertencem ao acervo do Museu de Arte de Brasília (MAB), assim como os objetos que pertenceram à artista e também figuram na mostra.

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