LITERATURA

Escritor Sérgio Vaz estará quinta e sexta-feira nos Diálogos Contemporâneos

Sérgio Vaz é o convidado da quinta e da sexta-feira para Diálogos Contemporâneos. Autor de oito livros, ele é um dos ativistas mais atuantes na cena literária fora dos eixos

Nahima Maciel
postado em 13/10/2021 06:00 / atualizado em 14/10/2021 14:12
Sergio Vaz é reconhecido por sua produção literária e de fomento à cultura -  (crédito: Jairo Goldflus/Divulgacao)
Sergio Vaz é reconhecido por sua produção literária e de fomento à cultura - (crédito: Jairo Goldflus/Divulgacao)

Foram os saraus os espaços de visibilidade que melhor acomodaram a literatura vinda da periferia. Nesses encontros de vozes que nem sempre conseguem penetrabilidade no grande mercado editorial, artistas e poetas nascidos e criados longe dos centros encontraram eco e diálogo. É sobre esse espaço e como ele é importante para estimular, fomentar e revelar a produção literária da periferia, que o escritor Sérgio Vaz vai falar hoje na série de palestras Diálogos Contemporâneos.

Vaz é autor de oito livros, foi eleito, em 2009, pela revista Época, como um dos 100 brasileiros mais importantes e é um dos criadores do Sarau Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa). “Vou falar um pouco dos saraus que propiciam a literatura que vem da periferia, que foi nosso porto seguro. Falar dessa produção de artistas, poetas, escritores e escritoras da periferia que, à margem da grande mídia, sobrevive da literatura”, avisa.

Sérgio conta que, em São Paulo, hoje é possível contabilizar mais de 50 saraus por mês. É um número revelador do quão borbulhante é a cena literária periférica. “E esses escritores lançam seus livros nesses saraus, nesses encontros, em shows. A gente criou uma cena para gente, saraus e slams são espaços onde podemos divulgar nossos livros. Criamos um espaço que é nós e por nós”, avisa.

A Cooperifa criada por Sérgio realiza uma série de eventos que ocupam boa parte do ano com mostra cultural, debates, encontros literários, feiras de livro e ações como a Chuva de livros e o Natal com livros, momento em que títulos são distribuídos para a comunidade. A intenção é uma só: fazer os jovens criarem gosto pela poesia, pela literatura e fazer da palavra uma arma contra a violência.

Entrevista Sérgio Vaz

O que é literatura periférica e do que fala essa produção?
Literatura periférica é a literatura feita por gente que mora na periferia. A gente está abordando temas necessário para o povo da periferia, para o povo negro, da favela, a gente precisa ainda falar da fome, do desemprego, do racismo, essas coisas que assolam desde sempre a nossa população. Agora é a voz que vem de dentro, a gente cortou atravessadores. O caçador já contou demais. Agora é a hora da caça

Por que essa literatura tem dificuldade de se inserir no grande mercado editorial?
Acho que, desde sempre, a literatura sempre foi o pão do privilégio, haja vista quererem taxar os livros porque só ricos leem. Nas livrarias, 90% dos livros são de homens brancos, com bem poucas mulheres, ainda que brancas. A literatura negra periférica ficou esquecida, dizem que não vende. Pois então a gente está mostrando que é possível, desde que a gente faça o trabalho de praticar literatura, fazer eventos na periferia, ir às escolas públicas, falar com jovens, fazer feira na periferia. Criamos uma cena para provar que temos muitas coisas pra dizer, em forma de poemas, de contos. Para mostrar a importância do nosso povo escrever e falar, não só nossas memórias, mas nossas lutas, nossos amores, dores e cores. Nosso povo quer falar através da literatura. Como não tinha muita gente querendo ouvir, começamos a falar para nós mesmos e surtiu efeito. Provocou nas pessoas o desejo de falar poesia, de ouvir poesia, de escrever, de ler. Nosso povo gosta de ler, só não sabe que gosta.

E você acha que a poesia encontrou mais receptividade nessa cena?
Acho que sim. Devido ao mundo tecnológico, as pessoas querem parar pouco tempo nas redes sociais, querem coisas mais rápidas e acho que a poesia sintetiza isso. Ela foi marginalizada durante muito tempo. E o slam é mais um braço da literatura, é onde as pessoas também vão recitar seus poemas, tem batalhas, encontros, mas tudo é poesia.

E essa cena tomou uma dimensão bastante grande. Temos visto cada vez mais jovens autores entrarem para os catálogos com esse selo periférico...
A gente furou a bolha. De alguma forma, a gente foi provando nossa capacidade. É um movimento muito grande, uma cultura que extrapolou a bolha da periferia, então faz sentido eles (mercado) se interessarem, ainda que venham por interesse mercadológico, por marketing. Mas é a cena. E nós estamos no jogo.

Diálogos contemporâneos
A literatura que vem da periferia
Com Sérgio Vaz. Hoje, às 19h30, no Centro Cultural Taguaparque, e amanhã, às 19h30, no Ginásio de Esportes de Sobradinho.

 

Entrevista / Sérgio Vaz

 (crédito: Jairo Goldflus/Divulgação)
crédito: Jairo Goldflus/Divulgação


O que é literatura periférica e do que fala essa produção?
Literatura periférica é a literatura feita por gente que mora em áreas periféricas das grandes cidades. A gente está abordando temas necessários para o povo da periferia, para o povo negro, da favela, a gente precisa ainda falar da fome, do desemprego, do racismo, essas coisas que assolam desde sempre a nossa população. Agora é a voz que vem de dentro, a gente cortou atravessadores. O caçador já contou demais. Agora é a hora da caça.


Por que essa literatura tem dificuldade de se inserir no grande mercado editorial?
Acho que, desde sempre, a literatura sempre foi o pão do privilégio, haja vista quererem taxar os livros, porque só ricos leem. Nas livrarias, 90% dos livros são de homens brancos, com bem poucas mulheres, ainda que brancas. A literatura negra periférica ficou esquecida, dizem que não vende. Pois então a gente está mostrando que é possível, desde que a gente faça o trabalho de praticar literatura, fazer eventos na periferia, ir às escolas públicas, falar com jovens, fazer feira na periferia. Criamos uma cena para provar que temos muitas coisas para dizer, em forma de poemas, de contos. Para mostrar a importância do nosso povo escrever e falar, não só nossas memórias, mas nossas lutas, nossos amores, dores e cores. Nosso povo quer falar por intermédio da literatura. Como não tinha muita gente querendo ouvir, começamos a falar para nós mesmos e surtiu efeito. Provocou nas pessoas o desejo de falar poesia, de ouvir poesia, de escrever, de ler. Nosso povo gosta de ler, só não sabe que gosta.


E você acha que a poesia encontrou mais receptividade nessa cena?
Acho que sim. Devido ao mundo tecnológico, as pessoas querem parar pouco tempo nas redes sociais, querem coisas mais rápidas e acho que a poesia sintetiza isso. Ela foi marginalizada durante muito tempo. E o slam é mais um braço da literatura, é onde as pessoas também vão recitar seus poemas, tem batalhas, encontros, mas tudo é poesia.


E essa cena tomou uma dimensão bastante grande. Temos visto cada vez mais jovens autores entrarem para os catálogos com esse selo periférico...
A gente furou a bolha. De alguma forma, a gente foi provando nossa capacidade. É um movimento muito grande, uma cultura que extrapolou a bolha da periferia, então faz sentido eles (mercado) se interessarem, ainda que venham por interesse mercadológico, por marketing. Mas é a cena. E nós estamos no jogo.

 

Diálogos contemporâneos

A literatura que vem da periferia
Com Sérgio Vaz. Quinta, às 19h30, no Centro Cultural Taguaparque, e sexta, às 19h30, no Ginásio de Esportes de Sobradinho

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