AUTORES

Diálogos Contemporâneos reúne escritores que discutem literatura e realidade

Projeto Diálogos Contemporâneos mobiliza escritores para refletir sobre as relações entre a literatura e os acontecimentos do último ano

O que a literatura tem a dizer sobre os tempos vividos pelo Brasil nesse início de segunda década do século 21? Muito, acreditam os organizadores dos Diálogos contemporâneos, que tem início em 5 de outubro. Com uma série de oito encontros com escritores contemporâneos brasileiros, a quarta edição do evento em Brasília traz para a mesa de debates temas como liberdade de expressão, democracia, alteridade e construção do pensamento crítico num momento de crise sanitária e política.

Em formato híbrido, com transmissões on-line, no canal do YouTube dos Diálogos Contemporâneos, e debates presenciais no Centro Cultural Taguaparque (Taguatinga) e no Ginásio de Esportes de Sobradinho, o evento ganha as cidades do DF pela primeira vez. “O projeto propõe debater temas atuais a partir da visão de escritores e escritoras que, de algum modo, refletem sobre esses temas nas suas obras”, explica Nilson Rodrigues, diretor-geral do projeto idealizado pela Associação Amigos do Cinema e da Cultura (AACIC).

Temas múltiplos

Com curadoria de José Rezende Jr e Lucília Garcez, morta no dia 23 de setembro, o evento tem como convidados Mario Prata, Elisa Lucinda, Sérgio Vaz, Fabrício Carpinejar, Ignácio de Loyola Brandão, Renato Janine Ribeiro, Xico Sá e Fernando Morais, que encerra o ciclo de debates. Todos os encontros serão mediados por intelectuais, escritores e jornalistas da cidade.

Os organizadores optaram por não escolher um único tema que pautasse todo o evento, por isso, cada debate terá uma temática própria. Loyola de Brandão, por exemplo, falará sobre pestes, distopia, pandemia e as fake news, enquanto Mario Prata vai se concentrar na questão do envelhecimento e no lugar das pessoas mais velhas na sociedade. “Sempre é bom, sempre!, falar sobre o envelhecimento. Dizem que os velhos são mais sábios. É verdade! Mas o problema é que não temos com quem falar. Quem vai ouvir um velho? Por isso, a importância dos Diálogos Contemporâneos. Se os jovens ouvissem os mais velhos, já teríamos saído desta pandemia”, diz Prata. “Os velhos no Brasil são homens e mulheres abandonados pelo governo, pela sociedade. E, agora, na pandemia, as pessoas se desviavam dos velhos nas ruas. Mas quem estava sem máscaras eram os jovens. Não nós.”

O mundo pós-pandemia e o futuro estarão na fala de Xico Sá e a literatura que vem da periferia é o tema do poeta e ativista Sérgio Vaz. Renato Janine vai falar sobre sustentabilidade e meio ambiente, enquanto a democracia vai conduzir Elisa Lucinda. Carpinejar mergulha nas noções de liberdade, depressão e neuroses; e Fernando Morais encerra o evento com uma fala sobre a destruição da democracia.

Interação

Carpinejar está animado com o formato do evento. O roteiro é por densidades, foge do formato padrão de uma hora, é uma conversa longa, sempre com mediador local. E tem aquela abertura para o público interagir e dar seu depoimento. O escritor e poeta está preocupado em refletir sobre o futuro da produção criativa. Se o setor livreiro resistiu bem à pandemia, o mesmo não aconteceu com artes realizadas e consumidas em coletividade, como o teatro e o cinema.

Para Nilson Rodrigues, a proposta de encarar o mundo a partir da perspectiva da literatura pode ser bastante proveitosa e gerar o diálogo proposto no título do evento. “Gosto desse nome, porque a ideia é dialogar, buscar saídas para esses tempos de obscurantismo. Não há hipótese de saída sem conversa, sem diálogo. E os escritores brasileiros têm abordado temas com muita qualidade, com pontos de vista diferentes. A ideia geral é dialogar a partir da literatura e promover a literatura no momento em que a cultura brasileira é permanentemente violentada, atacada. É importante mostrar a riqueza da nossa produção literária”, diz.

Mario Prata enfatiza, também, a importância de estimular a leitura. “A minha geração, quando jovem, lia. E ainda lê. Os jovens não têm a mínima noção do prazer de uma leitura. É uma viagem tão agradável como fumar maconha. Mas nem maconha os jovens fumam. Usam drogas sintéticas…”, lamenta.

“Os velhos no Brasil são homens e mulheres abandonados pelo governo e pela sociedade”
Mario Prata, escritor

“O projeto propõe debater temas atuais a partir da visão de escritores e escritoras"
Nilson Rodrigues, coordenador

» Programação

» A democracia, os direitos e a liberdade de expressão em tempos de fake news, negacionismo e pós-verdade
Com Elisa Lucinda. Dias 5 e 6 de outubro.

» Literaturas, pestes, pandemias e distopias — Ficção e realidade
Com Ignácio de Loyola Brandão. Dias 7 e 8 de outubro.

» Cenários para um mundo pós-pandemia — O fim do século 20 e o futuro
que nos espera Com Xico Sá. Dias 12 e 13 de outubro

» A literatura que vem da periferia — Com Sérgio Vaz. Dias 14 e 15 de outubro.

» O envelhecimento e o espaço social dos que não são
mais jovens — Com Mario Prata. Dias 19
e 20 de outubro.

» Liberdade, neuroses e depressão em um mundo
em mutação — Com Fabricio Carpinejar. Dias 21 e 22 de outubro.

» Sustentabilidade ambiental e o Brasil no centro do debate mundial
Com Renato Janine — Ribeiro. Dias 26 e 27 de outubro

» Guerra cultural e a arquitetura da destruição — O projeto de demolição da democracia Com Fernando Morais. Dias 28 e 29 de outubro.

Todos os debates ocorrem no Centro Cultural Taguaparque, no primeiro dia, e no Ginásio de Esportes de Sobradinho, no segundo dia, sempre às 19h30. Entrada gratuita. O evento também será transmitido no canal do Diálogos Contemporâneos no YouTube