LANÇAMENTO

Musical 'Querido Evan Hansen' estreia nos cinemas com debate sobre depressão

Com canções que massacram conceito do "seja você mesmo" e batem na importância de compartilhar afetos, longa-metragem apresenta retrato da solidão e relativiza o impacto dos fracassos pessoais

Ricardo Daehn
postado em 10/11/2021 06:00 / atualizado em 10/11/2021 22:03
Ben Platt em 'Querido Evan Hansen', filme de Stephen Chbosky -  (crédito: Universal Pictures/Divulgação)
Ben Platt em 'Querido Evan Hansen', filme de Stephen Chbosky - (crédito: Universal Pictures/Divulgação)

Uma vida de aparências que inclua pseudo amigos, pouca autoconfiança e um grave quadro depressivo integra a trama do improvável musical Querido Evan Hansen, a partir desta quinta-feira (11/11) nas salas de cinema. Depois de arriscar enredos apoiados em autoajuda, quando do desenvolvimento dos filmes Extraordinário (2017) e As vantagens de ser invisível (2012), o diretor Stephen Chbosky vem embalado por roteiro de Steven Levenson (da série Fosse/Verdon), originado por um musical vencedor do Tony e do Grammy.

Com dose de infantilidade nas letras — que massacram o conceito do "seja você mesmo", batem na importância de compartilhar afetos e deixar de ser "mero observador da vida" —, Querido Evan Hansen traz um retrato de solidão e relativiza o impacto de fracassos pessoais. O novo musical parece trazer um mix dos outros dois filmes assinados por Stephen Chbosky, ambos extraídos de best-sellers.

Quem estrela é Ben Platt (da série The politician), que empreende, à frente do personagem central, uma história como teor motivacional, a partir das confusões de um estudante que sabe abraçar "o pior" de si, como ele canta num dos números musicais. Evan, a todo momento, internaliza que deve ficar “longe do sol”, busca o cumprimento adequado (para cada pessoa com quem interage), sem nunca descuidar das mãos que suam e do temor de assumir as emoções dele.

Defendendo um ambiente falso, em que teria amizade com o bad boy Connor (Colton Ryan, das séries Little voice e Homeland), Evan Hansen, galgando a faculdade, vai esbarrar numa família enlutada, na qual vive o amor dele: Zoe, interpretada por Katilyn Dever, vista em Homens, mulheres e filhos (título que trata de modo mais convincente o tema da superficialidade das relações virtuais, presente no atual longa). O destilar de ódio nas redes é um dos tópicos explorados no filme que traz Amy Adams e a vencedora do Oscar Julianne Moore.

A diversidade destacada num cartaz da escola em que Evan estuda faz muito sentido, a partir do exame de outros tipos como a personagem Alana (Amandla Stenberg, saída de O ódio que você semeia) e Jared (Nik Dodani, investindo num personagem gay). No peculiar processo de autoaceitação, Evan redige cartas (sob orientação de um terapeuta) enquanto, distanciado de todos, calcula meios de alcançar a bolsa de estudos de que necessita. Para se ter ideia dos dramas de Evan, uma mera assinatura num gesso de braço quebrado vira um enorme dilema para o protagonista, depois de cair de uma árvore.

Um desastre?

Pelos comportamentos estranhos, Evan não demora a ouvir: “Você é um desastre”. Isso de um amigo bem-intencionado. De saúde mental fragilizada, ansioso e dependente de remédios, Evan, muitas vezes, depara com carga que extrapola a realidade (algo legítimo num musical).

Entre muitas cenas repletas de formalidade e doses carregadas de tristeza, ao menos uma injeção de ânimo destoa e cria momentos tocantes. É quando entra em cena Colton Ryan, em momentos de revelação e reflexão, ou ainda hilários, quando brinca (de modo sadio) com a sexualidade do protagonista. Vem dele a dose de energia no filme, quando entoa A little closer. Amarrado na vontade de superar temores sociais, Hansen, curiosamente, assumirá comportamentos dúbios.

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