Cinema

Will Smith, favorito ao Oscar, tem a vida devassada em detalhada biografia

Com 13 filmes elencados em primeiro lugar de bilheteria e mais de 30 milhões de singles vendidos, Will sabe assumir fragilidades e defeitos

Ricardo Daehn
postado em 20/03/2022 09:01 / atualizado em 20/03/2022 11:46
 (crédito: BestSeller/Reproducao)
(crédito: BestSeller/Reproducao)

É num tom confessional e sob a postura de "sonhador e construtor" que um dos astros mais influentes de Hollywood consegue prender a atenção dos leitores da biografia que escreveu ao lado de Mark Manson. Com 13 filmes elencados em primeiro lugar de bilheteria e mais de 30 milhões de singles vendidos, Will sabe assumir fragilidades e defeitos, mesmo que viva a intensidade de um dos melhores momentos da carreira. Além de vencer o prêmio do sindicato dos atores (SAG), posiciona-se na antessala da entrega do Oscar, concorrente pelo filme King Richard. Durante todo o livro, o narrador, que já conquistou o Globo de Ouro e o Bafta de melhor ator (em 2022), trata das estratégias de afirmação no mundo das artes, capazes de distanciarem-no das expectativas familiares da juventude: todos previam que ele seguiria para o ramo da ciência da computação ou da engenharia.

No campo profissional, na narrativa, Smith assume tropeços (como estrelar o longa Depois da Terra), e, no âmbito pessoal, tem ciência das vergonhas que receberam o julgamento da esposa, Jada. Ela foi capaz de tolher as narradas (e assumidas) exibições de ego do marido. Jada, por exemplo, trouxe lágrimas aos olhos de Will, quando, numa sessão de terapia, ele priorizou, numa lista de importância, a si e a esposa em relação aos filhos e à carreira.

Nos episódios marcantes da vida, uma decepção gerada num admirador com síndrome de Down desencadeou crise incontida de choro em Smith. Filho de pai intransigente, Will (batizado como "vontade", em inglês) conta, de cara, das inseguranças e do dom da disciplina que absorveu de Papa, um homem de temperamento agressivo, e que o ator falhou em enfrentar. Para se ter ideia, ele viveu em cenários extremos como o de, aos 9 anos, presenciar a mãe, desmaiada, depois de cuspir sangue, por causa de um enfrentamento físico. O medo ressoa no relato como o da frequência com a qual ouvia do pai: "Tire as calças, eu não vou bater nas roupas que comprei." Numa narrativa emotiva, o astro ainda relata a "transição compassiva e misericordiosa" que ele reservou ao pai, nos instantes que antecederam a morte dele.

Comentários de que não era 'preto o bastante' e MC "de verdade", igualmente, frustraram o cantor que o mundo conhece também como ator. Vitória marcante veio na 31ª edição do Grammy, em que, pela primeira vez, o rap era levado a sério, na disputa encabeçada, entre outros, por DJ Jazzy Jeff and the Fresh Prince (o nome de cantor de Smith). O hip-hop, sob o entusiasmo de Will Smith, vem em relatos abrangentes e que compreendem a visão ampla dele, alinhada à "justiça social, dança, arte de rua, política e moda". Quatro prêmios Grammy sossegaram as incertezas de não entoar um rap "legítimo" e o demérito de ter sido apontado por muitos críticos como "tosco" e "brega". Sempre circundado por uma sonoridade alternativa, o protagonista do livro conta que era a exceção, num meio em que todos os amigos da escola ouviam Led Zeppelin e AC/DC.

Excentricidades como a de colocar uma quadra de basquete dentro da sala de uma mansão e uma fase compulsiva da compra de carros e motos compõem parte da narrativa do livro que avança na intimidade. Nesse ponto, chama a atenção a insensibilidade de Will frente à traição amorosa, um breve caso de prisão, relatos de dívidas milionárias com a Receita Federal e o fracasso do casamento com Sheree Zampino, iniciado em 1992. Ainda assim, Will consegue extrair graça da situação: "Lidar com a papelada do divórcio é um saco. É praticamente uma declaração em papel timbrado dizendo que você é um merdinha incapaz de ser amado".

Numa jornada interior do astro, pipocam alertas, quando ele experimentou situações de retiro e afins. Will medita, ao confrontar com o sinal vermelho da autocrítica: "Se eu não quero ficar comigo mesmo, por que diabos outra pessoa iria querer ficar comigo?". Depois de perceber a família abdicando de sonhos, em prol das satisfações pessoais dele, Will conta ter redesenhado metas de vida, na esteira de ter se notado incapaz de aproveitar tudo aquilo que tinha.

Tornado, por anos, o ator de maior arrecadação da história do cinema — com destaque na revista Forbes, como o número 1, entre 1400 atores — fica quase impossível acreditar no ator de Homens de preto, papel, aliás, quase recusado, via telefone, em ligação com o produtor executivo Steven Spielberg. O episódio com Spielberg deixa para trás a inibição vivida por Smith, quando da ida à abertura do Planet Hollywood australiano, que uniu os empreendedores Arnold Shwarzenegger, Bruce Willis e Sylvester Stallone. Tentando se enturmar, ele ouviu do eterno Vingador do Futuro: "Você não é um astro de cinema até que toda a pessoa, em cada país do mundo, saiba quem você é".

Aos 27 anos, Will conheceu o estrondoso sucesso de Independence day e, anos depois — a caminho de impulsionar rendas na casa dos US$ 8 bilhões —, o astro conta, no livro, das artimanhas para cada vez se superar, entre as quais decifrar as atividades promocionais que tornaram Tom Cruise famoso.

Diante de discriminações latentes, ele mesmo reforça ter se armado: "Eu sou um homem negro em Hollywood. Para manter a minha posição, não posso ser pego de bobeira, nenhuma vez". A declaração ganha ainda mais força, quando se lembra que, até 2008, Will teve oito filmes sequenciados como número 1 nas bilheterias.

No livro, Will descreve situações de teor racial, desde o momento em que conta de duas vezes nas quais policiais o chamaram de "crioulo". Os parâmetros de discriminação envolveram o pai dele que, frente a mais uma promoção negada numa siderúrgica, "por ser negro", tomou a atitude de abrir o próprio negócio na área de refrigeração e eletricidade. Foi neste meio, que Will se desenvolveu. O pai (Papa, como ele chama) puxa, indiretamente, a discussão dos temas sobre "pretos".

Depois de, na maior viagem de carro da vida (feita em 1976), ver o pai ressignificar, jocosamente, a sigla SAP (revista como "Síndrome de Abstinência Preta", por não avistar negros, no trajeto turístico), Will conhece na pele, e até confirma, na interpretação de personagens icônicos como Chris Gardner (À procura da felicidade),  a vil carga de preconceitos. Ao lado do filho Jaden, Smith, na tela, eternizou o consultor de investimentos Gardner que, sem-teto, lutou pela criação do filho. Tudo, numa rede muito distinta do contato de "nojo e terror", ao auxiliar, na infância, uma desconhecida sem-teto, em tarefa delegada pela avó Gigi — outro episódio contado no livro.

Num paralelo com o reconhecimento, na indicação ao Oscar, por À procura da felicidade, Ali (2001), filme de Michael Mann em torno do lendário Muhammad Ali, também rendeu indicação ao Oscar de melhor ator para Will Smith. Entre o "ser a lenda" e brincar de "bad boy", sob o treinamento do boxeador Darrell Foster, Will se esmerou na composição íntima do homem aparentemente violento, mas que consagrou o amor "por religião".

O leitor testemunha com gosto a capacidade libertadora advinda das artes. Num primeiro momento, o riso era considerado "sinônimo de segurança" e havia, em Will, o "desejo insaciável por agradar" — tudo calculado para aplacar a ansiedade frente às constantes agressões na mãe. No fim da leitura, dá gosto de ver a "adotada" personalidade "incansavelmente alegre, otimista e positiva" se transformar em real contentamento. É Willard Carroll Smith II, no melhor de sua forma, e, hoje, aos 53 anos.

Will

Biografia, com textos de Will Smith e Mark Manson. Editado pela BestSeller, com tradução de Jim Anotsu e 448 páginas. Preço: R$ 59,90.

 

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