Artes Visuais

Coleção de 28 gravuras originais revela lado gráfico de Cândido Portinari

Em Brasília, o público poderá conhecer oito ilustrações realizadas para clássicos da literatura

Cândido Portinari ilustrou livros, criou gravuras para cartões de Natal, trabalhou com água forte e ponta seca e explorou com maestria o universo gráfico das artes. O lado pintor do artista é o mais conhecido, mas há todo um mundo de figuras e expressões em gravuras pouco vistas. É uma pequena pílula do mundo gráfico de Portinari que a Embaixada da Itália, em parceria com João Cândido Portinari, apresenta a partir de amanhã.

Portinari ilustrador reúne 28 obras originais, feitas em diversas técnicas gráficas e que revelam outra faceta do pintor. "Esse conjunto de gravuras é como se fosse um microcosmo da obra de Portinari", avisa João Cândido, filho do artista e criador do Projeto Portinari. "Será possível reconhecer vários temas e várias obras dele. É o lado artesão de Portinari, o lado de gravurista. Essas ilustrações são desenhos ou gravuras. Na embaixada, estamos levando somente gravuras. Mas muitos livros foram ilustrados também com desenho e outros com pinturas."

Em Brasília, o público poderá conhecer oito ilustrações realizadas para clássicos da literatura. São obras confeccionadas especialmente para a Sociedade dos Cem Bibliófilos, um clube restrito que recebia exemplares da literatura nacional especialmente ilustrados por grandes artistas brasileiros. As tiragens não ultrapassam as 100 cópias que acompanhavam o livro. Na exposição, estão ilustrações feitas para Memórias póstumas de Brás Cubas e O alienista, de Machado de Assis. "Não era conhecido porque esses clássicos são edições muito limitadas", explica João Cândido. "Não eram reproduções, eram gravuras originais. Tirava 100 exemplares e as ilustrações dos livros eram encartadas. Por isso sempre foi muito pouco difundido."

No conjunto reunido para a exposição há também gravuras feitas para ilustrar cartões postais e outras que o artista fazia para explorar a técnica. Todas pertencem à coleção do próprio João Cândido, que atendeu ao chamado do embaixador da Itália, Francesco Azzarello, para fazer uma palestra e uma exposição em Brasília. "O embaixador tinha muita urgência em montar essa exposição, então, passar por todo o processo de contactar os proprietários e fazer seguro ia ser muito longo. Coloquei (as gravuras) debaixo do braço e fui para Brasília com elas. Foi apenas o trabalho de colocar molduras", explica.

Jean Manzon - Gravura de Portinari

Para Azzarello, a exposição tem um sentido especial. Portinari era filho de italianos da região do Vêneto, imigrantes embarcados nos primeiros navios a aportarem nas costas brasileiras trazendo cidadãos da Itália para trabalhar na lavoura brasileira. "Ele cresceu numa família onde se falava o dialeto da região. Na cabeceira do leito de morte, seu médico relatou que as últimas palavras do artista foram proferidas em dialeto vêneto. Portinari é uma perfeita ilustração desse vínculo tão forte entre a Itália e o Brasil", acredita o embaixador, que descreve o artista como um dos maiores do país. "Um gigante artístico que representa um concentrado de genialidade criativa, idealismo e espiritualidade, todos valores que transcendem a sua existência histórica para falar com muita atualidade à humanidade contemporânea."

Experiência interativa

Em São Paulo, a mostra Portinari para todos, em cartaz no MIS-Experience, convida os visitantes a realizarem uma imersão na obra do artista. Com curadoria de Marcelo Dantas, a exposição faz uso da tecnologia para criar uma experiência na qual os visitantes entram na obra de Portinari por meio de projeções. São mais de 1.400 obras utilizadas para criar as imagens, além de 30 mil documentos que podem ser consultados. "Esse é um sonho que venho acalentando há quase meio século, de colocar no colo das pessoas de todas as idades, cores e origens, o Portinari total", avisa João Cândido."Mostramos todos os temas que ele tratou, históricos, infância, trabalho no campo e cidade, festas populares, mitos do folclore, flora, fauna e paisagem. Queria mostrar esse grande retrato do Brasil que, nas grandes exposições feitas até hoje, não conseguíamos mostrar na totalidade."

Divulgação - Ilustração para o livro Menino do engenho, de José Lins do Rego


Portinari ilustrador

Gravuras de Cândido Portinari. Visitação até 27 de março, de segunda a sexta, das 16h às 19h, sábado, das 15h às 19h, e domingo, das 10h às 13h, na Embaixada da Itália  

 

Saiba Mais

Jean Manzon - Gravura de Portinari
Divulgação - Ilustração para o livro Menino do engenho, de José Lins do Rego