Crítica

Longa de estreia do diretor Lázaro Ramos traz uma retumbante reflexão

Com a liberdade e o conforto no ato de denunciar e dono de um discurso equilibrado, Lázaro traz uma incômoda peça para o alargamento de debates

Ricardo Daehn
postado em 16/04/2022 06:00
 (crédito: Mariana Vianna/Divulgação)
(crédito: Mariana Vianna/Divulgação)

O que se cala, libelo defendido na voz de Elza Soares, dá um colorido todo especial para o longa de estreia do diretor Lázaro Ramos, Medida provisória. Há, na precisão da cena que usa a música ecos de uma denúncia arrebatadora de Amarelo manga, em que rostos estampam e referendam uma situação extrema encenada num drama. Ao som de O meu país é meu lugar de fala, o diretor baiano expõe as vozes de coletividade reprimida, e indisposta a engolir qualquer resquício racista. Impressiona como o novo filme redimensiona o teor de Nmíbia, não! (peça de Aldri Anunciação), que encantou Lázaro Ramos, há 12 anos. Vertido em cinema, o material apresenta um marco para as telas, como foi Filhas do vento, há 17 anos.

Medida provisória, longe de ser perfeito, traz senso de oportunidade: impinge arte, justo quando uma onda persecutória assombra artistas e pensadores. No roteiro, sintomáticas expressões como "cidadãos" (de bem) e "essa gente" saltam aos ouvidos. Bizarro é se dar conta de que Medida provisória se ajusta ao modelo de cinema cerceador e futurista à la Neill Blomkamp (diretor de filmes como Distrito 9 e Elysium). Colaborador dos filmes Um namorado para a minha mulher e Estômago, Lusa Silvestre afina o roteiro, com Lázaro. Quem assiste ao filme, nunca esquecerá de elementos incisivos no dia a dia do advogado Antônio (Alfred Enoch), como a fundação da expressão Resgate-se já (um movimento de busca, forçada, de raízes africanas) e afrobunker (nomenclatura para um reduto dos personagens negros rebelados).

Por meio de "identificação visual", o governo fictício parte de um torto ideal de reparação social. Na verdade, há pontuação é de ironia revestida por camadas de cinismo (em que reverberam as interpretações de Renata Sorrah e Adriana Esteves). Dona Izildinha (Sorrah) aponta que sofreu racismo, enquanto toscos desdobramentos da lei Áurea ganham a supervisão justo de Isabel (personagem de Esteves, que, vale a lembrança combateu o racismo, com uma personagem em Real beleza).

No recém-criado Ministério da Devolução, um governo fascista introjeta uma política de gueto: voluntários, os negros (que, num politiquês de incorreção, passam a ser chamados de melaninas acentuadas) são incitados a "voltar para a África". "Pisar no chão de Xangô", até faz a cabeça do blogueiro André (Seu Jorge, em nova afirmação no cinema, depois de Marighella). O pacote de restrições presentes no filme, por sinal, tem um quê da surreal atualidade. 

Com a liberdade e o conforto no ato de denunciar e dono de um discurso equilibrado, Lázaro traz uma incômoda peça para o alargamento de debates. De certa forma, há o escancarado retorno para o cinema nacional de pesada massa crítica. Depois de Doutor Gama, M8 — Quando a morte socorre a vida e Cabeça de nêgo, Medida provisória dá mais corpo a um dream team no imaginário nacional. Colaboram para a qualidade do filme a boa direção de arte, a força cênica de Taís Araújo (no papel da médica Capitu) e algumas gags que alargam a interpretação do filme. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE