Mostra de cinema

Filho de Ennio Morricone fala de legado do gênio do cinema revelado em filme

Filme com mago das trilhas sonoras Ennio Morricone abre festival de fitas italianas que tem 12 atrações. A mostra 8 1/2 Festa do Cinema Italiano 10 de agosto

Ricardo Daehn
postado em 28/07/2022 11:00 / atualizado em 28/07/2022 11:02
O maestro do cinema italiano Ennio Morricone, morto aos 91 anos, em 2020 -  (crédito: TIZIANA FABI)
O maestro do cinema italiano Ennio Morricone, morto aos 91 anos, em 2020 - (crédito: TIZIANA FABI)

Com um legado que ultrapassou 500 obras para o audiovisual, o compositor Ennio Morricone se projetou pelas criações de notas musicais para o spaghetti western e renovou todo o histórico das trilhas sonoras em escala mundial. Ele ganhou, dois anos após a morte, uma homenagem no cinema, com o documentário Ennio, o maestro. O filme que será mostrado hoje, às 18h, no Itaú Cinema Casa Park, teve comando de Giuseppe Tornatore, cineasta de longas como Cinema Paradiso e Malèna. O longa integra a nona edição da 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, estendida até 10 de agosto, e que promoverá exibição de uma dúzia de filmes italianos.

Laborador, vigoroso até a morte, aos 91 anos; Morricone conduziu renovados arranjos para músicas de Mina e Paul Anka, viveu humilhações por depender da música para o sustento, sempre foi persistente, defendeu posturas extravagantes e, por vezes, abruptas. O homem que reconsiderou a trajetória artística e eternizou partituras para filmes como A missão, 1900 e Houve uma vez na América cultivou admiradores que vão de Quentin Tarantino aos componentes do Metallica. Ennio levou apenas um Oscar competitivo, ao final da carreira, por Os oito odiados — isso depois da vitória de um Oscar Honorário. Confira, abaixo, a entrevista do Correio com Marco Morricone, filho do maior expoente das trilhas de cinema, no século 20.

Entrevista // Marco Morricone 

Quando não estava envolvido com trabalho, que tipo de música fazia a cabeça de Ennio?

Meu pai não ouvia muita música que não a que ele chama de absoluta, ou seja, a música clássica. Em casa também não ouvíamos música. Era proibido ouvir música para não influenciar o ouvido do meu pai. Nem mesmo as músicas que ele criava a gente podia ouvir. A gente tinha muita liberdade, podíamos aprontar o que quiséssemos em casa, pois ele tinha uma capacidade de concentração incrível. A gente podia fazer tudo, menos ouvir música.

Existiam dois profissionais: quando trabalhava na Itália era diferente do criador para os filmes de Hollywood?

Ennio era sempre o mesmo Ennio, um homem absolutamente dedicado aos estudos, a seu trabalho, mas também à família. Claro que a sua formação de vida, sua formação cultural e seus estudos imprimiam em sua música a influência da cultura italiana, mas ele estudou os maiores mestres da música. E isso se revela em seu trabalho, quando ele incorporava Bach a um tema de uma trilha, ou Beethoven a outro tema. Este diálogo entre música para o cinema e música erudita foi uma grande marca de seu trabalho.

Como ele assumia a responsabilidade do peso atrelado ao seu nome? E o que ele achava de premiações?

Ele realmente passou a sentir o peso de seu nome e reconhecimento no exterior quando começou a viajar em turnê, ao sentir o carinho do público. Eu me lembro de um concerto em Londres em que ele, até pouco antes de entrar no palco, estava com medo de que não fosse ninguém. E ele ficava me pedido para ir checar se chegava alguém. E, veja só, o concerto estava completamente lotado. Ele não ligava para os prêmios. Quer dizer, claro que ficava feliz, honrado com o reconhecimento, mas era consequência. Sua preocupação, inclusive quando ganhou o Oscar, era seu trabalho. Quando criava música para os filmes, sua preocupação era encontrar, criar a música certa, a música que melhor contasse aquela história.

Que compositores em particular inspiraram Ennio?

Difícil reduzir a um ou outro compositor. Ele tinha muitas referências, estudou muito e com afinco. Nunca parou de estudar. Mas certamente Igor Stravinsky, Bach, Beethoven e seu professor e mestre Goffredo Petrassi, e também o trabalho que fazia com o Gruppo di Improvvisazione Nuova Consonanza, pesquisando a música contemporânea e de vanguarda, eram influências fortíssimas.


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