Entrevista

Idade, Brasil e voto foram temas de entrevista de Jô Soares ao Correio

Em 2018, quando lançou a autobiografia "O livro de Jô", o humorista conversou com o Correio sobre revisitar sua própria trajetória e a história do Brasil para escrever o livro. Relembre a entrevista

Nahima Maciel
postado em 05/08/2022 11:03 / atualizado em 05/08/2022 12:15
 (crédito: CEDOC/ TV Globo)
(crédito: CEDOC/ TV Globo)

Jô Soares não se sentia com a idade que tinha. Em 2018, em entrevista ao Correio para falar do primeiro volume da autobiografia O livro de Jô, então recém-lançada, o humorista estava prestes a completar 80 anos. Na época, ele já anunciava que haveria um segundo volume da autobiografia e cogitava um terceiro, embora achasse exagero. Acreditava que dois volumes eram suficientes para contar as mais de seis décadas de carreira. “É uma coisa louca. Tou louco pra fazer 80 porque 79 não é um número redondo. Não consigo ter uma idade cronológica. Eu tenho que estar bem de saúde, de cabeça e de físico”, contou, em entrevista realizada pelo telefone. Jô Soares morreu na madrugada desta sexta-feira (5/8), aos 84 anos, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

  • Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Ator, diretor e apresentador Jô Soares. Caption Arquivo CB/D.A Press
  • 15/04/1983. Crédito: Rede Globo/Divulgação. Ator, diretor e apresentador Jô Soares, no programa Viva o Gordo. Caption Rede Globo/Divulgação
  • 28/02/1983. Crédito: Rede Globo/Divulgação. Ator, diretor e apresentador Jô Soares no programa Viva o Gordo. Caption Rede Globo/Divulgação
  • Cia das Letras/Divulgação. Capa do livro O livro de Jô, autobiografia de Jô Soares. Caption Cia das Letras/Divulgação
  • Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Armando Costa, Sebastião Nery e Jô Soares, autores da peça Brasil, da Censura à Abertura. Caption Arquivo CB/D.A Press
  • 15/04/1983. Crédito: Rede Globo/Divulgação. Ator, diretor e apresentado Jô Soares durante o programa Viva o Gordo. Caption Rede Globo/Divulgação
  • Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Ator, escritor, diretor e apresentador Jô Soares fumando. Caption Arquivo CB/D.A Press
  • Crédito: Companhia das Letras/Divulgação. Capa de "O livro de Jô, volume 2 da autobiografia de Jô Soares. Caption Companhia das Letras/Divulgaçã

Quando aceitou o desafio do editor Luiz Schwarcz para escrever a autobiografia, Jô pediu também que não o fizesse de próprio punho. Apesar de ser autor de quatro romances, convocou o jornalista Matinas Suzuki para ajudá-lo na tarefa de contar a própria vida. “O Matinas sempre vinha conversar comigo insistindo para eu fazer minha biografia e eu fugindo. Cheguei a abrir uma pasta no meu computador. Do jeito que abri, ela continuou. Não dá, sou um contador de histórias. Por isso eu contava alguma coisa e todo mundo dizia 'você tem que escrever uma biografia. Tem que contar isso'. Eu dizia: 'não, não vejo como'. Um dia falei para o Luiz Schwarcz: 'só faço se o Matinas fizer comigo pra gente conversar, gravar e fazer', contou, durante a entrevista. “E o Luiz abriu mão, generosamente, do Matinas (que é editor da Companhia das Letras) durante o período. Aí não deu para escapar mais. A gente começou a gravar em março e, em novembro, o livro estava pronto. Foi recorde da Companhia das Letras em termos de publicação. Espero que também seja em termos de venda.”

Abaixo, releia trechos da entrevista concedida em janeiro de 2018.

Nostalgia
Não, não. Não sou eu, isso. Essa pessoa aí, nostálgica, não sou eu,. Inclusive, nunca tive aquele negócio “bons tempos”. Os bons tempos ainda estão por vir. Não tem isso. Esse negócio de nostalgia é tão deprimente. Não sou eu.

Humor
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, o humor é a primeira página da história de cada país, aquela coisa de “o rei tá nu, olha que merda que fizemos”. E nós todos somos participantes dessa história, não tem como fugir disso. Eu vou fazendo à medida que tenho vontade e consigo fazer. Sou um abençoado nesse sentido. As coisas que resolvo fazer, consigo. Nunca vou querer ser neurocirurgião, por exemplo.

Diplomacia
Acho que diplomacia é a única coisa que se encaixava no que eu achava que podia fazer. Só que minha visão de diplomacia era uma visão muito romântica. Quando você pensa em diplomacia se vê sempre como embaixador em Washington. Aí, de repente, te mandam como vice cônsul no interior do Peru. É muito diferente a realidade da ficção. Eu conheci alguns diplomatas geniais e todos eles acabaram se afastando. O próprio Vinicius, poeta e diplomata.

Ressentimentos
Fica um horror falar isso, mas eu não tenho ressentimento das pessoas e também não tenho motivo para ter. E acho que isso transparece na biografia. Tem gente que escreve biografia pra fazer acerto de contas, não é meu caso. Meu caso foi um imenso bate papo sobre coisas agradáveis e também sobre algumas coisas difíceis, como o meu filho e o sofrimento que passei (Rafael nasceu com uma doença congênita e era autista). Na época, algumas pessoas diziam que eu escondia o meu filho, que era uma barbaridade. Mentira. Primeiro que é uma coisa impossível. Segundo que é uma coisa totalmente desnatural, que não combina com uma atividade de humanista que lida com a vida, com o mundo.


Brasil
Continuo sendo um grande observador do nosso país. Acho que, no sentido de comentário público, eu já fiz o que queria fazer. Uma vez o Silvio Santos me perguntou o que dava mais trabalho de tudo que eu fazia. Eu disse: a página da Veja, uma obrigação semanal, toda semana tenho que sentar e escrever. Ele disse “aquilo que dá trabalho? Eu leio aquilo em dois minutos!”. Eu disse: “é, por isso é que dá trabalho”. Então hoje prefiro ficar assistindo. Se, em algum momento, eu achar que posso fazer uma diferença além da que eu, modestamente, já fiz, pode ser. Mas vou fazer oitentinha.


Parceria com Suzuki
A gente conversava de três horas até umas sete da noite, foram horas e horas e horas. O Matinas botava no papel, dava o formato inicial, mandava para mim, eu relia, o que achava que tinha que mexer, mexia e pronto. Por isso acho que foi tão rápido, pela sintonia que já existia há muitos anos entre nós. O Matinas me serviu de exemplo em muitas coisas, a postura dele como jornalista foi um exemplo pra mim.

Sobre o voto
Ele (Matinas Suzuki) achava que o jornalista não devia votar, devia ficar totalmente isento, não participar de nenhuma forma direta ou indireta na eleição. E isso é toda verdade, porque posso entrevistar todos os convidados e, de repente, mostrar a tendência de um deles. Não é justo. Isso me deu um alívio enorme, porque não tem nenhum candidato que me arrependa de não ter votado.

Narrativa de O livro de Jô
Foi o que o americano chama de same of consciounsness: à medida que vai pintando, vai falando. É uma corrente inconsciente do pensamento. Sem querer, mal, mas muito mal comparando, em termos de método, é o que Jack Kerouac fez quando escreveu Na estrada. Vai escrevendo e depois o editor que se vire, no caso aqui, o Matinas.

Autobiografia de muitos
No início, o título era esse, Minha biografia e a dos outros ou Minha memória e a dos outros. Mas já tem um livro com esse título, dos anos 1920, e o Zuenir (Ventura) também aproveitou esse título em um livro. Foi esse canalha do Matinas que teve a ideia. Escovando os dentes com uma pasta milagrosa, me saiu com isso: O Livro de Jô. Ficou, inclusive, bíblico. Não foi uma decisão consciente, foi uma coisa do papo, da conversa, de ir falando, falando, falando. Muita coisa ainda ficou de fora e vai para o segundo volume. Tinha coisa que não me lembrava mais. Aì eu falava para o Matinas: “isso tá agora?”. Ele falava não, tá no segundo volume. E eu pensei: “então esse primeiro vai ser muito curto”. E eu queria que fosse um livro meu, senão virava uma biografia de gosthwriter, que não é o caso. Ao contrário, é uma coisa muito entrosada.

 

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