CRÔNICA

O Brasil veste a camisa da Pitombeira

O texto exalta uma Pernambuco nostálgica, sim, mas também real e extremamente brasileira; o regional também nos representa

O sangue pernambucano corre nas veias dos brasileiros. Doa a quem doer, alegre a quem alegrar. E agora nos dá o orgulho de levar uma cultura brasileira às maiores premiações internacionais do cinema. Sim, no plural. Afinal, são mais de 70 os reconhecimentos do filme de Kleber Mendonça Filho. O Oscar é só mais um detalhe. Mas nem por isso menos importante. Chegar àquele palco, apesar de todas as controvérsias que a cada ano rodeiam a estatueta, tem poder simbólico para o cinema de um país que ainda patina quando o assunto é valorizar a cultura.

Nesse ponto, Kleber teve um apoio fundamental. A principal produtora, a francesa Emilie Lesclaux, com quem também é casado, foi atrás do suporte e do financiamento necessários para concretizar o roteiro original. O texto exalta uma Pernambuco nostálgica, sim, mas também real e extremamente brasileira. O regional também nos representa. Quem não se vê ali ou não percebe a essência do nosso país nas entrelinhas é porque se recusa a enxergar o Brasil real.

Pernambuco se enraizou pelo país. Da capitania hereditária até os dias de hoje. Meus avós, por exemplo, lançaram-se na aventura de desbravar a nova capital do Brasil e participar da construção de uma cidade sobre a qual só havia discurso e um punhado de obras naquele ano de 1959. Ele, mais velho de 16 irmãos, buscava fora do sertão pernambucano oportunidades que a terra árida não proporcionava. Ela, por sua vez, seguia o destino e apoiava a mudança, sobre o caminhão pau-de-arara. 

Foram vários os locais de morada até comprarem terreno próprio e erguerem a casa que abrigou os cinco filhos. Do Núcleo Bandeirante ao acampamento na 303 Sul, construído para funcionários do Banco do Brasil convocados a iniciar os trabalhos na capital da República. Seu Botelho era um dos eletricistas mais requisitados da cidade. Da direção aos servidores, todos só confiavam em entregar os cuidados da fiação de suas casas a ele. Era também especialista em consertar bombas d'água, segundo me contou recentemente. Ganhava da concorrência pela agilidade e competência.

Com eles, aprendi sobre acolher com fartura, mas sem desperdício. Entendi o que é viver com pouco ou quase nada. E agradeci, pelo fato de terem trabalhado e organizado suas vidas para que minha mãe e meus tios tivessem acesso a condições melhores e pudessem nos brindar com os privilégios que desfrutamos hoje. De Garanhuns, eles guardam lembranças e cultivam afetos que reverberam até hoje. Não se passa um ano em que não vão visitar a família que cresceu por lá.

É por isso que, reforço, O Agente Secreto estoura a bolha regional. As milhares de camisas do bloco da Pitombeira nos vestem como se fossem da Seleção. Olinda, Recife e Garanhuns são Pernambuco e Pernambuco é o Brasil, no Oscar ou em Brasília, no Sul, no Sudeste ou no Norte. Precisamos nos livrar da síndrome de vira-lata, colocar em contexto nossas derrotas e nossos erros, para celebrar as vitórias com vigor. E o Oscar representa essa vitória e o reconhecimento que é, sim, do Brasil inteiro.

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