"Diferenças são maravilhosas", destaca o cineasta Jeferson De, que chega à exibição do sétimo longa-metragem, Narciso, nas telas de cinema, a partir de hoje. "Um cineasta negro que mora no Pará é bem diferente de um que esteja produzindo em Porto Alegre; enfim, acho que é amplo o retrato dos nossos cinemas negros no Brasil", completa, em entrevista ao Correio, no lançamento do filme que revela um duro aprendizado para o menino interpretado por Arthur Ferreira, depois de rejeitado, que segue em busca da identidade.
Um dos fundadores da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), Jeferson De celebra a maior entidade brasileira de cinema, em número de associados. Numa participação afetiva, Seu Jorge dá vida à espécie de Genio da lâmpada, capaz de revitalizar a vida de Narciso. "O Jorge eu sempre admirei, como ator, como músico, sempre ouvi, sempre esteve na minha playlist, fui a shows. Tenho uma admiração enorme por ele. E ele também (por mim). Quando a gente se encontrou para falar desse filme, ele disse:'Poxa, que bom agora que a gente pode fazer o filme'. Na condição de incentivador, Seu Jorge comprovou o nível de criatividade grande e diversificado. "Ele não é um cara "Ah! sou músico, sou só da canção", enfim, ele tem uma noção muito grande sobre quem nós somos e onde podemos chegar".
Com pontos reflexivos, o potencial de Narciso bebeu muito dos silêncios e da fotografia. "Muitas salas de cinema no interior do Brasil viraram Igreja, lugar também muitas vezes de silêncio, né? A Lílis Soares, (nossa diretora de fotografia), premiadíssima foi indicada pelo The Guardian como uma das mais importantes diretoras de fotografia do mundo. Uma mulher negra e que nos apontou caminhos maravilhosos para essa experiência grandiosa na sala de cinema (com o filme)", celebra Jeferson De.
Entrevista // Jeferson De, cineasta
Por que uma jornada tão solitária para o protagonista?
Ela me permitia ir para lugares como o silêncio, na tela. Isso é das coisas desafiadoras, hoje, na nossa sociedade contemporânea: lidar com silêncio, solidão, o estar só, ou se sentir só e, ao mesmo tempo, se aproveitar desse desse silêncio, para ir ao autoconhecimento. No filme, há esse garoto negro que começa a ver uma rejeição, e acho que nada nem um sentimento mais mais forte para uma criança preta do que a rejeição. Parti desse lugar, dessa rejeição, para, nela, estabelecer um silêncio que permeia quase todo o filme.
Ainda existe união ou impera a individualidade mesmo na comunidade de cinema negro?
Acho difícil falar em um cinema negro. Falamos, nisso, na África — dado que não leva a um lugar único. A gente não usa o mesmo termo para a Europa. Há o português, diferente, que é diferente de um francês, que é diferente de um espanhol, de um belga. Na África, impera essa diversidade toda. Descendemos dessa diversidade. Existe, portanto, relação entre cinemas negros. Termo, aliás, que ainda gera muito debate. O que é esse cinema negro? Achei um grande passo, e eu faço parte da fundação, a criação da Apan (Associação de Profissionais do Audiovisual Negro).
Há temas superados na exploração do cinema negro?
Algo que me interessa muito hoje em dia é essa relação, entre negros e negros. Chamo isso de dramaturgia preta. No filme Narciso, ela está muito presente, no M-8: quando a morte socorre a vida (2019) também, no Doutor Gama (2021). No M8, brota a relação entre mãe e filho, com diferentes visões de mundo: a do menino que passa para cursar medicina e a da mãe, mais humilde, com a vida dela criando condições para que esse menino seja um médico. E agora, há essa relação entre homens pretos diante da condução dessa mulher negra, que é a Carmem. Eu me interesso por o quanto a relação entre negros e negras pode estabelecer uma dramaturgia. Por muito tempo, no nosso cinema, um negro criava relação a um branco, um policial branco, um senhorzinho branco, havia as relações afetivas também entre o homem branco e a mulher negra. Busco explorar, na minha carreira, a minha história, e é algo muito revelador sobre nós brasileiros, quando nos atemos às particularidades encontradas na população negra.
Muita coisa mudou desde o Dogma Feijoada (2000), que você formalizou a fim de estabelecer uma negritude expressiva e autêntica?
Acho que foi um manifesto importante para o cinema brasileiro. Olhávamos para o lado e não se via tantos realizadores. Meu primeiro curta, na faculdade, chamado Gênesis 22, fiz em película. O meu primeiro filme, Bróder (2010), fiz em película e era tudo muito caro, muito difícil. Agora, não: com o celular você consegue rodar um curta, consegue editar um filme com aplicativos gratuitos no computador, e ainda consegue disponibilizar o seu filme, ao menos na tela do computador. Óbvio, o mainstream, esse lugar da grande mídia, ainda é um lugar em que estamos ausentes. Temos um avanço muito grande, desde a presença de Ruth de Souza, em Sinhá Moça (1953), até agora, com o protagonismo, na televisão e no cinema. Sinto falta, ainda, desse lugar, atrás da câmara, de diretores, produtoras e, principalmente, estarmos nas instâncias de decisão da produção audiovisual.
"Preta forte aguenta qualquer dor": a frase dita por uma personagem remete a o quê?
Essa frase é muito pessoal. Vem inspirada em muitas situações pessoais de minha mãe, de minhas tias, mulheres que, de alguma forma, foram vistas como as que aguentam tudo e que raramente estouram. E, raramente, sentem dor. Isso se conecta ainda ao número de mães que têm seus filhos assassinados, quase que, diariamente no Brasil, meninos e meninas pretos que remetem a essa dor enorme. Isso alcança a humanidade que foi negada de sentir dor. Quando escrevi esse roteiro junto com a Cris Arenas, quisemos estabelecer esse lugar. É necessário reconhecer a humanidade dessas mulheres, das mães negras. A personagem Carmem, praticamente dá esse grito — um grito muito sereno. Ela reivindica a humanidade. A escrita foi muito pessoal, a partir do meu olhar de filho direcionado ainda para minhas avós, para minhas tias, todas as pessoas pretas, ali há um lugar muito revelador. É um lugar muito muito delicado para gente, para o filme. Por vezes, imprimi uma maneira muito liberta, seguindo menos pela técnica e arrisquei, em alguns momentos sensíveis do filme.
Em que situações "a lagartixa grita", como dito no filme (risos)?
Houve coisas que definimos em cena. Havia direção, o texto, mas falei: "Poxa, eu vou deixar um pouquinho o elenco solto, depois, do momento do jantar, muito descontraído". Na hora que a gente começou a rodar, o Joaquim (personagem de Bukassa Kabengele), a fim de alegrar, num momento em que todos querem alegrá-lo, sendo solidários, e contra uma rejeição, houve desses momentos de criação e de improvisação (risos). Assim como na música, só pode improvisar quem conhece a partitura — no nosso caso, o roteiro. Então, os atores souberam criar momentos muito, muito sensíveis.
Quais os desejos do Jeferson De se topasse com uma bola mágica (como no filme)?
Poxa, muitos desejos! Mas um primeiro ou, o maior de todos, seria em relação ao cinema: poder continuar fazendo filmes. Acho que eu já encontrei essa bola mágica, e já pedi estes desejos para o gênio. É a sétima vez que o que o gênio me concede esse desejo de fazer um filme, e de continuar sendo esse contador de história para o Brasil.
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