MPB & SAMBA

Izzy Gordon inicia trilogia sobre Cacique de Ramos com tributo a Jorge Aragão

'Semente de Tamarineira' revisita clássicos do samba em primeiro volume dedicado a grandes compositores da escola de samba carioca

Izzy Gordon se notabilizou por ser uma exímia intérprete de jazz. Essa notoriedade em um gênero jamais a excluiu de ser reconhecidamente versátil em diferentes estilos da música brasileira e agora ela traduz isso em seu novo projeto musical.

A cantora lançou nesta segunda-feira (6) o álbum Semente da Tamarineira, composto por homenagem classuda aos clássicos do lendário sambista Jorge Aragão. O trabalho é o primeiro de três álbuns de uma trilogia que homenageará os grandes compositores surgidos no Cacique de Ramos.

Mais do que um tributo, o álbum é uma imersão afetiva e espiritual. A escolha do repertório, que inclui pérolas da obra de Aragão, foi feita de forma colaborativa, com a participação do produtor musical Allan Abbadia, da diretora artística Jussara Sales, e do também produtor Eduardo Silva, sempre pensando no que melhor tocaria o coração de quem ouve. O mais importante é como vamos tocar o coração. Esse é o meu objetivo, afirma Izzy.

Pérolas do repertório de Jorge Aragão surgem repaginadas com produção caprichada, sem jamais abandonar as peculiaridades que as tornaram um clássico. Minta meu Sonho, Malandro, Coisa de Pele e Eu e você sempre estão entre as faixas abrilhantadas com a voz de Izzy.

As faixas são adornadas pelas parcerias de Carica em Coisa de Pele, Bia Ferreira em Malandro e Ellen Oléria em Mutirão de Amor.

O nome do disco remete à histórica tamarineira do Cacique de Ramos, árvore sob a qual Bira, membro fundador do Fundo de Quintal, compôs a canção que batiza o projeto. Esses compositores são frutos dessa árvore. Eles são sementes, explica Izzy. A metáfora se expande para o conceito do trabalho: uma homenagem que não apenas celebra o passado, mas também lança sementes para o futuro do samba.

A produção musical de Allan Abbadia, estudioso da diáspora africana e das matrizes rítmicas do candomblé, foi determinante para a sonoridade do disco. Ele entendeu o que é a tamarineira. O Fundo de Quintal nasceu ali, num terreiro. A religiosidade está presente, observa Jussara Sales. Com arranjos que incluem violinos, violoncelos e elementos de jazz, o disco propõe uma escuta expandida do samba, sem jamais perder sua raiz.

A conexão com o sagrado também marcou o início do projeto. Estávamos num centro espírita, cantando no Mutirão do Amor, quando recebemos o sinal: era por Jorge que deveríamos começar, relembra Eduardo Silva. O próprio Jorge Aragão, ao receber a música Lucidez, primeira faixa gravada, respondeu com um gesto generoso: liberou todas as canções sem custos, após se emocionar com a versão.

Semente da Tamarineira é o ponto de partida de um mergulho mais profundo. A trilogia seguirá com homenagens a Arlindo Cruz e Luiz Carlos da Vila, também filhos do Cacique. Queremos contar essa história, mostrar de onde vieram essas vozes, resume Izzy.

O álbum também se afirma como um projeto político e artístico maior e alinhado à exaltação do protagonismo feminino negro na música. A concepção do álbum dialoga diretamente com políticas de incentivo à cultura, com potencial de circulação em unidades do Sesc, centros culturais e festivais pelo país.

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