BRASÍLIA 66 ANOS

Produções fictícias da tevê e do streaming tiveram Brasília como protagonista

Da utopia épica da construção à crueza dos jogos de poder e das desigualdades sociais, séries e minisséries revelam uma capital que transcende os telejornais e ganha vida no imaginário nacional

É raro, mas Brasília foi cenário de algumas produções da teledramaturgia brasileira, especialmente em séries de televisão e de streaming. Neste aniversário de 66 anos, o Correio se propõe a mostrar que, ainda que bissexta, a presença da capital federal transcende a mera escolha estética, mas atua como um espelho das ambições, contradições e da própria identidade nacional.

Ao longo das décadas, o "quadrado" deixou, algumas vezes, de ser apenas o pano de fundo dos telejornais para se consolidar como um cenário fértil, onde a arquitetura modernista de Oscar Niemeyer e o horizonte vasto do Cerrado moldam o caráter e o destino de personagens memoráveis.

O pilar fundamental dessa construção narrativa é a minissérie da TV Globo JK (2006), de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. Nela, Brasília é apresentada em sua forma mais pura e épica: o nascimento de uma utopia. Por meio da interpretação magistral de José Wilker como Juscelino Kubitschek, Marília Pêra como Sarah, Andréa Horta como Márcia, Paulo Goulart como Israel Pinheiro e Rodrigo Penna como Oscar Niemeyer, o público testemunhou, ao longo dos capítulos, a transferência do poder para o Planalto Central. Da construção aos primeiros anos da nova capital.

Sob a direção de Dennis Carvalho, a obra mostrou os monumentos arquitetônicos, mas também mergulhou na poeira vermelha para mostrar que a capital foi erguida por mãos como as de Lilian Gonçalves (Mariana Ximenes) e de Gaúcho (Cássio Gabus Mendes), simbolizando os candangos que trocaram o conforto pelo sonho de uma nova nação. Em JK, a cidade é um organismo vivo em formação, em que o Catetinho não era apenas uma residência provisória, mas o símbolo da resiliência de um governo que decidiu olhar para o interior do país.

Divulgação/Globo - Paolla Oliveira em cena de Felizes para sempre?

Entre pilotis e cobogós

Anos mais tarde, em 2015, essa mesma Brasília, agora consolidada e imponente, serviu de palco para o cinismo e a sofisticação de Felizes para sempre?, minissérie de Euclydes Marinho. Sob a direção de Fernando Meirelles, a cidade foi filmada como um aquário de vidro, no qual a transparência da arquitetura ironizava a opacidade das relações humanas. A personagem Denise/Danny Bond (Paolla Oliveira) tornou-se o ícone visual dessa obra, caminhando com uma sensualidade gélida pelas curvas do Setor Hoteleiro e pelas mansões do Lago Sul. Ao lado dela, o empreiteiro Cláudio (Enrique Diaz) personificou a face mais obscura do poder local: o lobby, os acordos de bastidores e a frieza de uma elite que habita uma cidade planejada, mas emocionalmente caótica.

Entre pilotis e cobogós, a trama se aprofunda nos dilemas éticos de outros casais que orbitam esse cenário monumental, como Marília (Maria Fernanda Cândido), que vive o sufocamento de um casamento de aparências sob a luz meridiana do Planalto. Há ainda o peso da lei personificado em Hugo (João Miguel) e Tânia (Adriana Esteves), que revelam como o moralismo e a corrupção doméstica se infiltram nas instituições. Aqui, Brasília é retratada como um labirinto de concreto em que o desejo e a traição se cruzam sob a luz estéril dos monumentos.

Globo/Divulgação - Débora Falabella, Leandra Leal, Tainá Duarte e Taís Araújo em Aruanas

Bastidores do poder

A capital também se tornou o centro nevrálgico das grandes decisões ambientais e éticas na série Aruanas (2019-2021). Na segunda temporada, a trama desloca-se estrategicamente para Brasília, onde o lobby político se torna o principal antagonista das ativistas da ONG Aruana. Por meio de personagens como Luíza (Leandra Leal), Natalie (Débora Falabella) e Verônica (Taís Araújo), a série utiliza os corredores do Congresso Nacional e os gabinetes ministeriais para mostrar a capital como um campo de batalha jurídico e político.

A presença de figuras como o articulador Théo (Daniel de Oliveira) e a poderosa e ambígua Olga (Camila Pitanga) reforça a imagem da cidade como o lugar onde o destino da Amazônia é decidido entre apertos de mão e manobras regimentais, evidenciando o contraste entre a natureza que as protagonistas defendem e o concreto frio no qual as leis são redigidas.

Fora do Plano

A ruptura definitiva com a visão palaciana veio com a expansão do universo de Justiça 2, de 2024. A antologia de Manuela Dias operou uma mudança de eixo necessária, deslocando o olhar das cúpulas do Congresso para a pulsação de Ceilândia e das regiões administrativas. Por meio da jornada de personagens como Balthazar (Juan Paiva), um jovem que busca dignidade após uma prisão injusta baseada em um reconhecimento racista, a série revelou as cicatrizes sociais do Distrito Federal. A narrativa ganha densidade com Milena (Nanda Costa), uma mulher que tenta retomar sua voz no cenário musical após o cárcere, enfrentando a poderosa e ambiciosa empresária Jordana (Paolla Oliveira), que personifica a frieza e o privilégio de quem transita com desenvoltura pelos círculos de poder e ostentação da capital.

Globplay/Divulgação - Justiça 2 apresentou Ceilândia

 

Dirigida por Gustavo Fernandez, a Brasília de Justiça 2 é feita de asfalto quente e arquitetura funcional, evidenciada também na luta de Geíza (Belize Pombal), uma mãe que enfrenta a rigidez de um sistema que raramente compreende a periferia após agir para defender a filha, Sandra (Gi Fernandes). O mosaico humano se expande com personagens que buscam reparação e superação, como Cassiano (Luciano Mallmann), um ex-atleta que ficou paraplégico após ser baleado e que luta para reconstruir sua autonomia e dignidade em meio às barreiras físicas e sociais da cidade.

O enredo ainda expõe as feridas abertas de Carolina (Alice Wegmann), que lida com o trauma do abuso cometido pelo próprio tio, Jayme (Murilo Benício), um empresário influente que esconde crimes hediondos atrás de uma fachada de respeitabilidade. A trama política ganha contornos de realismo com Nestor (Marco Ricca), um político corrupto e sem escrúpulos que transita entre os jogos de influência e a manutenção de seus próprios interesses, representando a engrenagem sistêmica que perpetua a impunidade. 

A obra prova que a alma da capital reside muito além do Plano Piloto, aparecendo como um sistema rígido no qual a reparação esbarra no preconceito e na influência dos poderosos, humanizando o território para além dos mapas políticos e turísticos.

Da epopeia da construção, em JK, à Ceilândia de Justiça 2, passando pelos entrechos amorosos de Felizes para sempre? e pelos embates políticos de Aruanas, Brasília consolidou-se na teledramaturgia como um cenário de contrastes absolutos. É o lugar onde a poeira da fundação deu lugar ao mármore do poder, e onde o vidro das vidraças modernas também reflete a busca por uma justiça mais humana e menos monumental.

Todas as obras citadas podem ser assistidas no Globoplay.

Novelas

Ainda que sem ser cenário fixo, essa profundidade dramática foi ensaiada também em novelas que usaram a capital para marcar transições históricas. Em O rei do gado (1996), de Benedito Ruy Barbosa, o senador Caxias (Carlos Vereza) deu voz à solidão do idealismo em suas caminhadas reflexivas pela Esplanada dos Ministérios. No mesmo rastro de importância, em 2006, Cidadão brasileiro, de Lauro Cesar Muniz, na Record, acompanhou Antônio Maciel (Gabriel Braga Nunes) em sua escalada rumo ao poder, capturando a efervescência de uma cidade que prometia ser a "Nova Cap" e o destino final de quem desejava se reinventar.

 

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