Música

Tarancón celebra 50 anos do álbum de estreia com show em Belo Horizonte

Na estrada desde a década de 1970, grupo se reinventa e mantém legado de unir brasilidade raiz com as tradições de outras culturas da América Latina

Cinco décadas antes de o porto-riquenho Bad Bunny cometer um estrondoso atentado cultural — com apologia aos saberes latino-americanos, em pleno coração dos Estados Unidos, recebendo dura reprimenda do presidente Donald Trump — de forma mais orgânica, mas não menos relevante, o grupo Tarancón provocava alvoroço na cena underground brasileira e dos arredores ao fundir as tradições nacionais com elementos ancestrais da América Latina. Fundada em 1972, a partir da colaboração entre artistas do Brasil e de países vizinhos, que encararam com coragem e criatividade a barra pesada das ditaduras militares que pululavam pelo continente, a banda encantou o público com o álbum Gracias a la vida, que completa 50 anos em 2026. Para celebrar a efeméride, o hepteto formado por Maetê Miràh, Emílio de Ángeles, Natália Gularte, Jorjão Miranda, Ademar Farinha, Jonathan Andreoli e Jam Miranda se apresenta no Teatro do Centro Cultural Unimed, em Belo Horizonte (MG), em 5 de junho (sexta-feira), em sessão dupla, às 17h30 e às 20h. Ingressos disponíveis no site Sympla.

Único remanescente da formação original, Emílio de Ángeles é o decano do grupo. Aos 75 anos, ainda manifesta o frescor de uma rebeldia juvenil e sustenta a coesão entre os primórdios e o presente do Tarancón. "Sou o sobrevivente do começo, mas no início eram só três, não era tanta gente assim. Era a Miriam, o Jica e eu. Depois, somou a Alice, foi chegando a Marly e tal... Para mim, o importante é manter essa estrutura sonora, essa mistura de quenas (flautas de bambu), zamponhas (flautas andinas de Pã), violas, com bombo legüero, congas, tambores, coisas de Jurema, enfim, esse Brasil do interiorzão, da raiz, que ainda quer a terra limpa", comenta o altivo flautista, percussionista e cantor de voz firme e grave.

A costura entre o passado e o presente do Tarancón é estabelecida de forma uterina. Aos 38 anos, Maetê Miràh é a atual vocalista do grupo. Ela é filha da cantora original, Miriam Miràh, considerada nos círculos de iniciados a 'diva brasileira da América Latina'. Entre grandes realizações de uma carreira memorável encerrada em 2022, aos 68 anos, a matriarca se destaca com a apresentação realizada no Festival dos Festivais, no superlotado Ginásio do Maracanãzinho (RJ), em 1985, quando, com formosa barriga grávida, encantou e empolgou o público com a faixa Mira Ira (Nação Mel), faturando o segundo lugar do concurso transmitido pela Rede Globo.

Assista abaixo, Mira Ira, no Festival dos Festivais (1985):

 

"Eu acredito que o festival foi o momento em que escolhi minha mãe e como viria ao mundo, vendo-a cantar grávida da minha irmã, Ana Ira. Para o Tarancón, Mira Ira representa um dos grandes momentos do grupo. Momento de encontro, de festa, de consagração de um jeito de fazer a mescla da música latino-americana", comenta a cantora Maetê Miràh, que se emociona ao falar sobre a missão de manter vivo o  legado deixado pela mãe. "Existe um sentimento de muita responsabilidade, de representação, de continuidade, que me empurra a entregar meu melhor em cada apresentação. Mas também existe um sentimento de alegria imensurável, pois ela está sempre no meu coração e eu posso carregá-la comigo, nos valores, nos ensinamentos, no sangue, na música, ao mesmo tempo imprimindo meu jeito de ser e de estar no palco como artista", completa.

O show da próxima sexta-feira (5/6), na capital mineira, desperta especial carinho para Maetê Miràh, pois a faz recordar do processo que a levou a integrar o Tarancón. Em 2013, a banda excursionava com o Projeto Álbum, no qual reproduzia integralmente o repertório do disco Gracias a la vida. Naquela época, Míriam Miràh não integrava mais a banda, mas foi convidada para matar a saudade do público como uma das integrantes da formação original. "Enquanto ensaiava as músicas e arranjos em casa, ela me pediu para cantar Soy libre, soy bueno. Na hora, ela sorriu e perguntou se eu faria com ela, pois o álbum Gracias a la vida tinha mais presenças femininas: Alice Lumi Satomi, que também participou do show, e Marly García Pedrassa, que infelizmente estava muito longe (mora na Espanha). Ambas musicistas incríveis e amigas queridas da mamãe. Depois daquela apresentação, o Ademar Farinha me ligou e me chamou para participar de outros shows. Deu certo! Estreei com o Tarancón em Belo Horizonte, no Cine Teatro Brasil. Pura emoção. Então, imagina minha alegria de voltar e ainda comemorar os 50 anos do álbum Gracias a la Vida. Estou superfeliz", conta Maetê.

Material de divulgação - Tarancón, grupo musical

Inspiração paternal

E os casos de família que levam o Tarancón adiante não param por aí. Existe também herança e inspiração paternal, como revela o mais jovem integrante do grupo, Jam Miranda, 21. "Eu ingressei no Tarancón a partir do dia em que nasci. Sem ironia... Meu pai, Jorjão Miranda, é integrante do grupo há 33 anos. Assim, eu já nasci com laços familiares com o Tarancón", explica. Apesar da diferença geracional e das tendências da moda, o músico se mostra feliz e privilegiado na carreia. "A maior motivação é acreditar muito nesse trabalho, receber o carinho de inúmeras pessoas que, no final do espetáculo ou pelas redes sociais, compartilham histórias com o Tarancón. Dia desses, recebi no Instagram uma mãe que dizia que comprou ingresso na primeira fila para ela e a filha de sete anos para esse show que faremos em Belo Horizonte, porque a música preferida da menina é Canto lunar, uma das canções mais emblemáticas e queridas pelo público. Isso aquece o coração do grupo", comenta Jam.

O caçula do grupo ainda parafraseia o filósofo Ailton Krenak ao refletir sobre o futuro ancestral na trilha musical dos artistas e do público. "Os sons dos bambus, das madeiras, dos apitos sempre despertam a curiosidade. Na questão sonora, acho que o Tarancón leva essa vantagem, vai para além do óbvio ou do habitual do mainstream. Ao mesmo tempo, é de uma simplicidade absoluta. São os sons da natureza, dos originários, das mesclas dos povos do continente. Em resumo: o 'índio' sempre será uma novidade", completa.

Material de divulgação - Tarancón, grupo musical

Entrevista: 5 perguntas... 

São 50 anos desde o lançamento do álbum de estreia. Quais foram os principais desafios para realizar a obra naquela época e que frutos trouxeram para sua vida?

Emílio de Ángeles: Frutos são isso: essa entrevista é um fruto disso tudo, dessa longa carreira de estrada. Ir para Belo Horizonte através da Nádia (Campos, cantora e produtora) é outro triunfo, é outra coisa muito interessante, porque a gente está passando por cima de processos profissionais e fazendo a coisa por amizades, empatia, carinho. É uma forma diferente de fazer produção de um trabalho, diferente dos padrões profissionais normais. É profissional, mas o número não é o mais importante. São portas alternativas, que é uma coisa muito  forte na vida do Tarancón, que inventou umas paradas diferentes, como a pintura em palco, a distribuição alternativa de discos. Isso a gente pegou de um pianista carioca chamado João Adolfo: distribuímos e batalhamos por ter uma trilha própria, não depender de gravadora. Se o Tarancón dependesse de gravadoras e de rádio, já tinha deixado de existir há muitos anos.

A discografia oficial do Tarancón tem 10 álbuns, mas não estão disponíveis nas plataformas virtuais. Por que isso acontece e como uma pessoa interessada poderá conhecer a obra integral do grupo? 

Emílio de Ángeles: As plataformas são uma coisa bipolar: gosto e detesto. Gosto porque acho que é uma forma de as pessoas ouvirem música. Não gosto porque virou uma coisa tipo 'o dono do mundo'. Eu acompanhei todo o crescimento das plataformas. Tarancón participou de centenas de plataformas em países como Grécia, Portugal, Itália, Índia, enfim. Aos poucos, foram devoradas, todas foram ficando na mão de um dono único e senhor de todas as músicas do mundo. Esse lado eu acho uma tristeza, muito ruim, não sustenta músico, mas sustenta times de futebol e, enfim, a megalomania dos donos de cada coisa. A gente tem coisas nas plataformas, mas nunca foram postadas por nós, não sei quem postou. Dentro do grupo, a gente ainda discute essas coisas, mas eu, particularmente, não gosto de alimentar os monstros. É mais uma forma de colonizar. 

Quais são suas canções favoritas durante os shows; e por que elas te agradam tanto? 

Maetê Miràh: Gosto muito de 'San Vicente', que colocamos no repertório em homenagem à mamãe. Outra que amo é 'Sube, Sube, sube', de Victor Heredia, consagrada na voz de Mercedes Sosa. É lindíssima, música e mensagem. Também 'Canto lunar', uma das preferidas do público, de Denise Emmer, gravada no disco 'Vuelvo para vivir' nas vozes de Katya Teixeira, Dani Lassalvia e Emílio. E 'Mira Ira', com certeza, está na lista, pois representa muita coisa.

A maneira como o Brasil dialoga com as demais culturas da América Latina é tema de grandes debates e reflexões ao longo dos tempos. Qual é sua percepção sobre o momento atual acerca dessa questão?

Maetê Miràh: Eu acho que hoje, de um lado, é muito mais fácil nos sentirmos em diálogo com as demais culturas latino-americanas. A gente tem acesso a tudo o tempo todo. Já os sentimentos de pertencimento e identificação são muito mais difusos. A gente tem tanta informação, mas ao mesmo tempo vamos vivendo nossa vida nesse ritmo muito louco e sem olhar com atenção para o lado. E aí o papel da arte, da música, do artista, continua o mesmo: agregar, aproximar, mesclar. É o que o Tarancón busca desde os primórdios, e que faz no Brasil como pioneiro. E vamos continuar fazendo. 

O que o Tarancón preparou para o público neste show em Belo Horizonte?

Emílio de Ángeles: As pessoas vão pensar que a gente vai fazer uma reprodução do disco 'Gracias a la vida'. Não! A gente vai comemorar muito esse disco, que quebrou muitas fronteiras, influenciou muita gente. Um disco lançado de boca em boca, de mão em mão, avançando de norte a sul. Em 2006, quando foi lançado em formato digital, espalhou-se pelo mundo inteiro rapidamente. A gente está comemorando esse disco, mas o show é uma bagagem de músicas também de outros discos, além das coisas novas que o grupo está montando. Há uma parte do trabalho que a gente tem, com uns bruxos que andavam na época com a gente, como Enzo Merino e Celso Ribeiro, que não se encontra mais entre nós, mas deixaram legados no mundo paralelo da música. A gente está trabalhando essas músicas. Tem bastante novidades.

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Material de divulgação - Tarancón, grupo musical
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