Crítica

Registro histórico fundamenta discussão do papel dos negros nas artes

Repleto de personalidades atuantes nos séculos 20 e 21, documentário revela meandros e particularidades que cercam a existência das artes cênicas negras

Crítica// Ecos do Teatro Experimental do Negro ★★★★ 

É a dramaturga Dirce Thomaz dos Santos quem assume o 'faz tudo' encorpado ao papel de artistas negros como o mecânico e ator Jefferson Oliveira Delfino, ambos presentes no documentário Ecos do Teatro Experimental do Negro, assinado por Daniel Santiago, a partir da demarcação da importância do mestre Abdias do Nascimento, que abriu "chance profissional e marcou gerações (negras)", como pontua Haroldo Costa. Outro nome importante na tela é Flávio Migliaccio, que, no filme fala do excesso (à época) de diretores e peças importadas, enfatizando o retrato do "homem brasileiro", por excelência, negro.

Integrante do grupo Olodum, a atriz Valdinéia Soriano (vencedora de prêmio no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro) é uma das personalidades a reiterar o peso racista e doloroso da prática do blackface dentro de um "racismo que adoece". O tópico é bem explorado no filme, que traz a visão de um Abdias exigente (pouco "dócil" e "carinhoso", como aponta a falecida Léa Garcia, esposa dele, morta em 2011). A discussão dos atores 'travestidos' de negros, posta em pauta, ganha contornos inesperados como destacado pela poeta Leda Maria Martins, que conta do predomínio, no século 18, de infinitos papeis feitos por atores negros pintados de branco. Ela também é fonte para o exame da publicação Dramas para negros e prólogos para brancos, atenta a sua posição de pioneira na retomada do conceito do teatro do negro, em fins dos anos 1980.

Enquanto o cineasta Joel Zito Araújo, presente entre os depoentes do filme, destaca que artistas de hoje são filhos ou netos do Ten (Teatro Experimental do Negro), impulsionado nos anos de 1940, o legado de Abdias se mostra sólido e se estende a pilares culturais como Solano Trindade, Ruth de Souza, Grande Otelo e Milton Gonçalves. Nomes da estatura de Darcy Ribeiro, Nelson Rodrigues, do cenógrafo Santa Rosa e de Paschoal Carlos Magno igualmente são exaltados por contribuições vitais para o Ten. Dotado de enorme senso de organização, Abdias exerce influências na reflexão do ator e pesquisador Sidney Santiago Kuanza que assume, hoje, uma pretensa "graça" (superada) do blackface, mas na situação em que se "ri, mas da desconfiguração (gerada)". Abdias aparece tratando da proximidade com artistas "negros e mulatos" que não geraram apoios paulistanos, num contraponto à efetiva colaboração carioca. Em imagens de arquivo, Bibi Ferreira (morta em 2019) conta da "cultura brutal" de Abdias cuja "sofisticação" ia para o lado contrário da barreira enfrentada pela crítica teatral. 

Com uma "história negada" e tratada como "apêndice", o teatro negro, como pontua Lázaro Ramos, abre espaço para desdobramentos dentro do filme de Daniel Santiago. Enquanto o ator João Acaiabe trata dos restritos três ou quatro personagens protagonistas em 50 anos de carreira, demonstrando escassas oportunidades, Léa Garcia explica da fuga de uma casa repleta de medidas machistas e o documentário ainda reforça dados de bastidores de obras como Orfeu da Conceição (de Vinicius de Moraes) e Sortilégio — Mistério negro, de Abdias e encenada em 1957. Num enorme resgate de vivências de artistas consagrados, Zezé Motta reserva um revelador depoimento sobre sua tentativa (repudiada, claro) de "embranquecimento", numa atitude corajosa, até sua "aceitação como (bela) negra", num banho que lhe serviu de "batismo" mobilizador da própria autoestima. Daniel Santiago acaba por trazer um raro e vital registro dos artistas negros.

 

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