Valter Hugo Mãe é um dos autores mais populares da língua portuguesa quando se trata de público brasileiro. Para o debate no Instituto Camões, na última quinta-feira, a Embaixada de Portugal colocou telões e tapetes nas áreas externas e se preparou para a extensa fila que se formou na entrada do prédio. Na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o escritor português é sempre uma sensação. Houve espera de cinco horas para ouvi-lo na Casa Paratodos, programação paralela da Flip e O século dos imbecis, romance recém-lançado, foi o mais vendido na livraria oficial da festa.
O novo romance é protagonizado por Agilulfo, personagem tomado emprestado de Os nossos antepassados, de Ítalo Calvino, um sujeito que perde a inteligência à medida em que desce a montanha na qual sua casa está localizada. É uma equação complicada, que expõe o personagem a vulnerabilidades e suscetibilidades praticadas pelos habitantes da vila. A Criada, no entanto, está sempre atenta aos passos do marquês, porque sim, Agilulfo é um nobre senhor, que desperta ideias de grandezas nas solteiras da vila, ávidas por se tornarem marquesas. E a Criada, porque sim também, as personagens femininas do livro não têm nome, está sempre a desejar o patrão, sentimento que se complica quando o homem retorna de uma viagem casado.
É um plot simples o desse romance, mas cheio de simbologias que refletem a desilusão de Hugo Mãe com o projeto humano. "O espantoso, no momento atual, é a escolha consciente por ser menos civilizado. As crianças são naturalmente menos civilizadas, e por isso as disciplinamos. O adulto de hoje opta por se manter infantil por vontade própria, buscando o lado lúdico e a desresponsabilização. No limite, isso é um suicídio coletivo: se apenas brincamos e deixamos que outros decidam nosso destino, nos tornamos alvos fáceis", diz o escritor, em entrevista ao Correio.
Agilulfo, na história de Calvino, é um cavaleiro que luta batalhas,mas que não existe na vida real. É uma espécie de personagem fantasma, segundo Hugo Mãe. "Essa escolha reflete a percepção de que o clima de fim de história que atravessamos tem a ver com o fim da história dos homens — o esgotamento do poder masculino e das utopias propostas por eles. Hoje, é difícil encontrar utopias masculinas pelas quais o mundo verdadeiramente se fascine", explica o escritor, que vê nas mulheres a única possibilidade de futuro da humanidade. "No livro, as mulheres não têm nomes; são chamadas pelo que fazem ou pelas posições sociais que ocupam. Isso significa que a história ainda não foi delas e que elas ainda não tiveram uma inscrição no poder. Mas, por serem entidades em aberto, estou convencido de que as mulheres ainda têm utopias. O ponto de saída para este clima de fim do mundo é eminentemente feminino."
Para Hugo Mãe, a humanidade caminha rapidamente para um cenário no qual ética e justiça, dois pilares da civilização, deixarão de fazer sentido. "O projeto humano só avança com a confiança. Se não estabelecemos conectores confiáveis, colocamos em perigo a estrutura mais elementar que nos mantém em paz: o sistema legal que nos ordena e dignifica. A única hipótese de construção para o futuro precisa estar assentada em princípios legais e éticos. O investimento na maturação ética e no cumprimento da lei é o que pode manter o projeto humano de pé", acredita. Em entrevista, o escritor português fala sobre o livro, mas também sobre a infantilização da sociedade, literatura e sobre o poder das mulheres nesse cenário.
Confira a entrevista:
Na sua perspectiva de futuro, qual passaria a ser o papel dos homens?
O papel dos homens tem sido o de brigar e enfurecer-se para não perder o poder. O homem está na posição de um mau perdedor: como alguém num jogo de tabuleiro que percebe que não tem saída e, antes de sofrer o xeque-mate, derruba as peças e destrói o jogo para impedir a vitória do outro. Os tiranos e o poder masculino no mundo estão tentando destruir o tabuleiro para não assumir que a vitória que se avizinha só pode ser feminina e fora do padrão tradicional. O homem detém o poder, mas está cada vez menos interessado no conhecimento, afirmando-se por uma prepotência que se traduz em violência. Já a mulher tem sofisticado a sua cidadania a partir da instrução e da busca por transformar informação em conhecimento. Os homens caminham euforicamente para a imbecilidade, enquanto as mulheres caminham empenhadamente para a erudição.
Como você avalia esse desinteresse pelo conhecimento na sociedade do século 21?
Enquanto coletivo, estamos seduzidos por um lado lúdico e infantilizado diante da complexidade do mundo. A própria profusão de informação cria em nós o desejo de não ser responsável por nada. Antigamente, a cidadania trazia um compromisso maior com certas condutas sociais e com a confiança de que, fazendo a coisa certa, estaríamos protegidos. Hoje, essa confiança no sistema e nos poderes está abalada. O que buscamos é a desresponsabilização: avançar garantindo que não teremos culpa se algo der errado. Uma cidadania irresponsável torna-se infantil. Estamos todos cobiçando o estatuto da criança, que é inimputável. Tornamo-nos adultos fascinados pelo lúdico e pela facilidade. Pretendemos facilitar nossos gestos, obrigações e dias ao máximo, adotando interesses simplificados.
Como a civilização chegou a este ponto após milhares de anos de história?
Chegamos aqui por processos de conquistas e de barreiras que geraram ressentimentos, de forma muito parecida com o que ocorre com as crianças. Quando vislumbramos o paraíso, é difícil ficar à porta. Após todo o progresso, é insuportável para as multidões sentirem que ficaram do outro lado do vidro em relação à "vida boa". A contemplação da vida boa, prometida pela publicidade e pela política, mas impedida de se efetivar na vida da maioria, torna-se um engodo e uma agressão. Isso humilha as pessoas e acentua o ressentimento. Uma geração de ressentidos é propensa ao boicote e deixa de confiar em novas promessas.
Estamos nos afastando rapidamente de princípios éticos e legais?
Acho que sim. Primeiro afetam-se os valores e as convicções éticas das pessoas; uma vez afetadas, torna-se fácil fragilizar os sistemas jurídicos. Quando as pessoas deixam de saber o que é certo e errado e começam a escolher o pior de forma convicta, fica fácil descartar todo o sistema legal, esquecendo que a lei existe para garantir direitos e confiança.
Isso se conecta também com o nosso distanciamento da natureza e com a busca por uma existência virtual?
Estamos a caminho de uma cidadania cada vez mais imaterial, com uma ansiedade por existir numa dimensão que não é real. Todos parecem preocupados em construir um avatar digital onde se congelam numa imagem idealizada ou falsa, alimentando a ilusão de um saber absoluto dentro da tela. Essa ilusão de absoluto é proibida à humanidade. É a vulnerabilidade e o caráter efêmero da vida real que produzem a consciência e a urgência de vivê-la. Ao abdicar da experiência física em prol de uma cidadania virtual "perfeita", caímos na figura do Agilulfo de Calvino: algo encantador, mas que não existe. A humanidade não pode ser consumada de modo virtual. Se a experiência concreta não ocorre, a vida torna-se um espectro e um desperdício.
Diante desse cenário, qual é o papel da literatura hoje?
Em princípio, a literatura não pode nada, mas exercemos a escrita como se ela pudesse tudo. Não aceito escrever um livro como uma derrota anunciada. Mesmo sabendo que nada é garantido, a escrita nasce da percepção de que, se eu não puder vencer, serei ao menos uma testemunha. Esse é o papel histórico da literatura. Não escrevo para mudar o rumo do mundo, mas com a convicção de que um livro pode ajudar ou, no mínimo, testemunhar.
Onde você deposita a sua esperança no futuro?
A minha esperança está nas mulheres. Tento provocá-las a usar o volume de leitura e o conhecimento acumulado para reinterpretar e reivindicar o poder. As mulheres atravessaram séculos de agressão e estão empoderadas numa inteligência e num conhecimento superiores aos dos homens. Mas no imediato, não vejo uma solução simples. As pessoas têm optado por piorar as suas próprias condições porque acreditam que, ao escolher o pior, vão vitimizar o outro ou fazê-lo pagar por algo. Estamos agindo motivados pela vingança e pelo ataque, em vez de investir no aprofundamento do nosso próprio potencial. Essa dinâmica só deve mudar após perdas e sofrimentos significativos. Atualmente, vivemos o século dos imbecis porque os tiranos nunca foram tão honestos em relação às suas más intenções de excluir e atacar. Quem escolhe regimes baseados nisso está eticamente desestruturado, perdendo a noção elementar entre o bem e o mal.
O século dos imbecis
De Valter Hugo Mãe.
Biblioteca Azul,
344 páginas.
R$ 76,40
