Artes cênicas

Teatro independente e tradição popular ganham espaço nos palcos do DF

Dois festivais levam a produção cênica do Distrito Federal aos palcos do Plano Piloto e das cidades

Dois festivais de teatro ocupam os palcos do Distrito Federal esta semana. A partir de amanhã, o Festival Matilha reúne seis coletivos da cidade em uma programação que segue até domingo no Espaço Cultural Renato Russo, da 508 Sul, e o projeto Teatro é Popular leva os espetáculos do Mamulengo Fuzuê às cidades do DF para falar de uma tradição centenária. A diversidade de temas e estilos perpassa os dois eventos com uma programação que atende aos públicos mais diversos e de todas as idades.

Ênfase no coletivo

Criado pelo coletivo de teatro CeinCena, o Matilha — Festival de Teatro Independente começou em 2025 com a intenção de reunir os profissionais do teatro do DF para debater as perspectivas da cultura no quadradinho nos próximos 10 anos.

“Este ano, na segunda edição, que é totalmente independente, estamos fazendo uma corrente entre coletivos e artistas da cidade para discutir memória e território. A ideia é refletir sobre a memória para além das produções, o que a gente deixa de legado, a memória enquanto patrimônio e espaços físicos”, explica Dill Diaz, do CeinCena.

“O Matilha é um chamado para que a classe artística teatral possa andar em bando. Como a mostra é independente, existe uma crença grande dos artistas de estar fazendo isso juntos, da maneira mais tradicional que é pela bilheteria. A gente vai acreditar que o público vai endossar esse movimento para que a gente possa discutir temáticas urgentes.”

Entre essas temáticas, estão o protagonismo das mulheres na classe artística, a produção cênica da periferia, as implicações territoriais de fazer teatro no DF e temáticas mais gerais, como a violência de gênero, o meio ambiente e as mudanças climáticas, presentes em diversos espetáculos.

Na programação, além dos debates estão as apresentações de espetáculos do Teatro do Instante, ATA - Agrupação Teatral Amacaca, Cumbuca Cia. Teatral, Celeiro das Antas, Cia Novos Candangos e Coletivo Calcário.

Coletivo de Planaltina formado por seis pessoas, a Cumbuca Cia. Teatral vai apresentar o espetáculo De fio a pavio, adaptação de uma crônica do livro A moça tecelã, de Marina Colasanti.

Formado por jovens atores egressos do único curso técnico de teatro do Pronatec, a companhia nasceu em 2019 mas deu início a uma atuação mais efetiva em 2021. Participar do Matilha é importante porque dá ao grupo uma visibilidade nem sempre evidente quando se atua a 42 Km do Plano Piloto.

“O festival é muito importante porque dá visibilidade de ver que nas RAs tem espaço e tem cultura”, explica Carla Roque, produtora do Cumbuca. “O festival é um espaço para expor nosso trabalho para um público diferente e uma forma de conhecer outros coletivos, outras formas de fazer arte, ver jeitos diferentes de trabalhar. Isso é muito importante para quem está no meio artístico.”

Da Fercal, o Coletivo Calcário traz o espetáculo Calcário, no qual reflete sobre o próprio território ao explorar a realidade do bairro de conviver com uma fábrica de cimento.

Os dedos da mão do João é o espetáculo da Cia. Novos Candangos e Alice Stefânia traz Galhada, em tempos de fissura, com o Teatro do Instante.

O Celeiro das Antas, de Zé Regino, apresenta três espetáculos e a Agrupação Teatral Amacaca (ATA) participa com Se eu fosse eu — Clarices.

Camila Guerra, da ATA, aponta o Matilha e o CeinCei como pontos vitais de formação e consolidação do teatro brasiliense. O coletivo também é responsável pelo Festival de Teatro Amador, o Festa.

“Que mobiliza alunos secundaristas e do ensino fundamental a apresentarem suas peças de teatro e suas produções dentro do contexto escolar, na sala Martins Pena, com premiação. É um trabalho de base incrível”, diz. “E o Matilha é feito totalmente na guerrilha, por receita de bilheteria, o que não é fácil, porque o teatro feito em Brasília por receita de bilheteria é muito difícil.”

Faz parte da programação do festival uma mesa de debate com os participantes e convidados para refletir sobre a produção do DF.

Dill explica que a escolha do Espaço Cultural Renato Russo e do Teatro Galpão Hugo Rodas também é simbólica.

“São espaços emblemático importantes, com nomes que deixaram um legado imenso, por isso convidamos o ATA, um grupo que carrega a história do Hugo Rodas, para discutir o que pensa de futuro para classe artística de Brasília, onde vivemos tantas dificuldades de manutenção de grupos, de financiamento de projetos, de manutenção e carreira”, avisa Dill.

Tradição e história

A quinta edição do Teatro é Popular chega amanhã ao Complexo Cultural de Samambaia com oito apresentações do grupo Mamulengo Fuzuê e a Exposição Mamulengo Patrimônio Brasileiro.

Dois espetáculos do repertório do grupo — Benedito abençoado e bendizido e Chegança da burrinha calunga — serão apresentados até sexta-feira em montagens interativas e adaptadas conforme o público.

“O Teatro é Popular surgiu com essa intenção de que o teatro seja popularizado, acessível, por isso a gente faz questão de fazer em regiões periféricas e de levar estudantes da rede pública de ensino para os espetáculos”, diz o bonequeiro Thiago Francisco, idealizador do projeto e membro do Fuzuê.

Além do espetáculo, o público poderá conferir uma exposição com bonecos e bonecas de diversos mamulengueiros de diferentes regiões do Brasil, além de uma aula-espetáculo sobre a história desse gênero no DF.

“O mamulengo está presente no DF desde a construção da capital. Tinha apresentações de mamulengo nos intervalos da obra”, garante Francisco.

O mamulengo traz, na essência, uma linguagem direta com o público com uma dramaturgia pautada, normalmente, por assuntos e temas locais. Os personagens são tipos sociais com os quais o público costuma se identificar facilmente.

“São temas ligados à história da nossa sociedade, à nossa história”, explica Francisco.

Em Benedito, Abençoado e Bendizido, um trabalhador se apaixona pela filha do coronel e Chegança da burrinha calunga é a história de uma trupe de viajantes em busca de um lugar para poder viver.

“Traz bem essa figura dos retirantes, dos caminhantes, e a gente traz personagens presentes em outros folguedos populares. E eles enfrentam figuras fantásticas e dão um jeito de enganar a morte para continuar vivendo”, conta Francisco, que já passou por Samambaia, Ceilândia, Por do Sol e Sol Nascente com o espetáculo.

MATILHA – FESTIVAL DE TEATRO INDEPENDENTE — 2ª EDIÇÃO

De amanhã até domingo, no Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul). Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia social), no Sympla.

» NAHIMA MACIEL

TEATRO É POPULAR, COM MAMULENGO FUZUÊ

De amanhã a sexta-feira, no Complexo Cultural de Samambaia. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Alice Lira

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