Leitura

Para gostar de ler: conheça histórias de incentivo à leitura no DF

Na semana do Dia Nacional do Livro, o Correio conta histórias bem-sucedidas que reforçam o hábito da leitura

A última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024, constatou que os índices de leitura no país pioraram. Em relação a 2019, o país perdeu 6,7 milhões de leitores. Em, 2024, houve perda de 53% dos brasileiros acima de cinco anos nunca havia lido um livro na vida. Curiosamente, o consumo aumentou. A edição de 2025 da pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), indicou que houve aumento de 16% para 18% no número de compradores de livros, o que corresponde a 3 milhões de novos compradores. Uma coisa, no entanto, mudou pouco: o brasileiro lê menos de quatro livros por ano. É um número baixo se comparado aos nossos vizinhos chilenos, que têm os maiores índices da América do Sul, com 5,5 livros por ano. Mas a notícia boa é que o pequeno exército brasileiro de leitores não descansa e é obcecado por angariar novos soldados. 

Para celebrar o Dia Nacional do Livro, data escolhida para 29 de outubro para lembrar a transferência da Real Biblioteca Portuguesa para o Brasil em 1810, o Correio conta histórias de iniciativas de formação de leitores e incentivo à leitura bem-sucedidas no Distrito Federal e tocadas, sobretudo, pela paixão por essa que é uma das maiores invenções da humanidade.  

Pequenos leitores

Apaixonada pela literatura infantil, a jornalista Alessandra Roscoe começou com um clube de leitura para bebês, criado em 2008. Em 2013, veio o festival  Uniduniler, projeto de encontros e caravanas de leitura. Alessandra — também autora de livros como a Trilogia dos medos desconhecidos — tornou-se referência na área de leitura com bebês e formação de mediadores pelo Brasil inteiro, uma iniciativa que ela considera fundamental para plantar nos pequenos a semente do interesse pelos livros. 

Para Alessandra, a melhor forma de tornar uma pessoa leitora é pela intermediação, seja por meio de um mediador, de um parente ou de um amigo. "Esse vínculo afetivo que um livro aberto e um livro dado cria é muito importante. Tem que sentar para ler com o filho, estabelecer esse momento de carinho, afeto e criação de vínculo e laço a partir de uma leitura compartilhada", diz. O livro, acredita Alessandra, não vai encantar por si só. "A criança não sabe o que tem ali dentro, ela precisa do mediador. Tem que dedicar um tempo para ler junto com a criança e mergulhar um pouco no que ela traz de volta, porque é um lugar de experimentar sensações", explica.

Claudine Duarte faz questão de dizer que é da "galera da esperança, otimista". Há 10 anos, ela criou o Calangos Leitores para promover clubes de leitura em escolas do DF. Mais de 700 jovens passaram pelo projeto e hoje há sete clubes ativos  em centros de Ensino Médio da rede pública. Os estudantes leem uma média de quatro livros por semestre, sendo dois clássicos — um universal e um brasileiro — e dois contemporâneos —um best seller e um autor de Brasília. "Com essa seleção, a gente consegue conferir diversidade porque isso é importante para formar  o leitor", explica Claudine. Os livros  em formato físico são  distribuídos aos jovens leitores e ficam para eles.  "Ao fim do ano, eles terão lido entre oito e 10 títulos e terão formado uma minibiblioteca. E na, maioria das vezes, esse exemplar é partilhado em casa." Dois professores acompanham os alunos ao longo dos meses, mas a própria Claudine e outros voluntários fazem a mediação quando encerrada a leitura. O Calangos Leitores foi finalista do Prêmio Candango em 2018 e, em  2023, do Prêmio Jabuti. "Numa época de rede social, em que cada vez mais as pessoas estão completamente abduzidas pelo consumo digital, quando você coloca livros físicos nas mãos desses jovens, é lindo", diz Claudine, que conta apenas com doadores para tocar o projeto. Os encontros para discutir os livros duram em média duas horas. "E são duas horas conversando sobre o livro sem nenhuma consulta ao celular. Você vê uma completa desaceleração, uma completa concentração. E está provado por estudos de neuropsicólogos que a leitura do livro promove conexões maravilhosas no cérebro. A gente precisa ler e dar oportunidade."

A leitura dos livros e o posterior encontro com os autores é o ponto principal da Jornada Literária, que nasceu em 2016 para levar a literatura para escolas públicas do DF. Marilda Bezerra e João Bosco contam com verbas do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF) e de emendas parlamentares para realizar as atividades da jornada, que consiste em trabalhar os títulos com os jovens leitores ao longo do ano antes dos bate-papos com os autores. "A gente observou, há 10 anos, que tinha a feira do livro, livrarias, a Bienal do Livro e outros eventos literários, mas tudo no Plano Piloto", conta Marilda. "E a gente teve essa ideia de levar a literatura para as comunidades, periferias e outros territórios. Não queríamos uma festa literária, mas um programa de formação de leitores."

Para Marilda, formação de leitores se faz com mediadores treinados em oficinas, distribuição de livros selecionados por uma curadoria série e com o trabalho dos professores, combinação essencial para possibilitar o encantamento quando os leitores encontram os autores. "É uma coisa aparentemente simples, mas não é em todo evento literário que acontece assim. Se não houver um mediador para apresentar o livro para o estudante de um jeito que compreenda a narrativa e a leitura, dificilmente ele vai acessar o conteúdo e vai substituir por mídia de mais fácil acesso", diz.  

Leitura coletiva

Clubes de leitura são terrenos férteis para incentivo à leitura e há dezenas deles espalhados pela cidade. São gratuitos e abertos ao público, sendo que alguns podem ser acompanhados nas redes sociais. Sócia da Livraria Circulares, Ariana Frances aposta na ideia de leitura coletiva com três clubes que se reúnem periodicamente na loja: um de ficção, outro de poesia e um terceiro e mais recente de não-ficção, coordenado pela pesquisadora e bióloga Nurit Bensusan. "As livrarias conseguem trazer vozes diversas e deixar essa leitura mais coletiva. Quando a gente traz esse convite para as pessoas participarem de clubes do livro, isso cria um espaço para trocarem perspectivas, impressões e conexões, o que enriquece a experiência", diz Ariana. 

No Sebinho, Cida Caldas criou a Roda de Leitura, projeto que há 10 anos recebe, uma vez por  mês, os leitores para conversar sobre um livro previamente indicado. "A mediação é feita por mim, trago uma provocação para a roda, falo um pouco do autor, do contexto social que a obra traz. Depois, cada um dá sua opinião, o que achou da leitura e em que contribuiu. Tem gente que não fala nada, só escuta e está tudo bem", conta Cida. "Ler é um ato muito solitário. Quem gosta muito de literatura sempre quer conversar, falar do livro, indicar para as pessoas, então é muito bacana ter uma roda para compartilhar, porque às vezes, o que você aprendeu do texto, o outro não conseguiu ver."

A escritora e jornalista Maíra Valério criou o Lendo BSB, um clube de leitura de autores da cidade. Tudo começou com uma angústia: autora de três livros, ela notou certa dificuldade para os leitores encontrarem títulos de escritores da cidade. Decidiu então distribuir os livros por bibliotecas e, na sequência, teve a ideia do clube, em 2023, junto com o também escritor Kuzman. "A gente viu que existe interesse, que as pessoas não sabiam onde encontrar porque os autores daqui não estão nas livrarias, publicam independente. E você conhecer a literatura da sua cidade é conhecer um pouco mais da sua cidade", diz. Os títulos dos livros escolhidos e as datas dos encontros são publicados periodicamente no instagram @leia.bsb.

Na Livraria Paradeiro, Cristiano Moutella de Alencastro organiza encontro com autores e recebe eventos como a feira Qui Qui Qui e o Saruê, uma maneira, ele acredita, de estimular a leitura. "Temos feito muitos lançamentos de livros, que é sempre uma oportunidade muito boa, com roda de conversa, para um boca a boca", acredita. "Os eventos são uma oportunidade interessante porque as pessoas podem conhecer os autores e isso ajuda muito a estimular a leitura, principalmente quando envolvem algum tipo de participação", acredita.

 

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Divulgação - Encontro Leia BSB, com Maíra Valério
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