É uma surpresa ouvir uma neta usar naturalmente termos e expressões sofisticadas numa conversa. Acima de tudo, diverte, aquele pitoco de ser humano falando como gente grande. "Fala é sintoma", como diziam Lacan, Freud e o Claudinho, meu jardineiro que faz hora extra como conselheiro espiritual. (Ok, não é exatamente o que Claudinho diz; mas é por aí, pode acreditar, o cara é bom).
No caso, certas surpresas na fala das novas gerações são sintomas evidentes das tendências de mutação da língua. Da nova gíria a novidades no uso de termos conhecidos, muito do que falam as crianças é o que nós, idosos, em breve, vamos criticar como maldades sacramentadas contra nosso indefeso português. Novos significados para velhos vocábulos, grafias exóticas, subversão da gramática...
Nem toda novidade é perversa, ou danosa. Que atire a primeira gramática o jornalista que nunca chamou de deadline o prazo final para entregar suas tarefas; ou aqueles que até hoje se referem como lead ao cabeçalho de seus textos.
Pois a neta, saltitando de contente, me disse que a tarde com as amigas, no SesiLab, centro de ciência e cultura disfarçado de parque de diversões, foi "bem satisfatória". Satisfatório, está lá, em todo dicionário: é algo regular, que atende minimamente as exigências de funcionamento. Algo mais ou menos, no limiar do insucesso. Os pulinhos da neta me diziam outra coisa da enorme satisfação dela.
Pouco depois, vi gente mais velha usando a mesma "satisfatória", para descrever grande alegria com alguma experiência. No caso da neta, desconfiei — e confirmei, ao assistir, com ela, um de seus programas preferidos — que o adjetivo vinha de alguma má tradução de desenho animado. Os desenhos de minha infância tinham pouco diálogo, na maioria. Os protagonistas preferiam perseguições e pouco saudáveis trocas de pancadas — a exceção eram os Flintstones e os Jetsons, que conversavam bastante para nos assegurar a perenidade das tradicionais relações familiares, trabalhistas e sociais, da Idade da Pedra ao futuro de ficção científica.
O "satisfatório", portanto, poderia ser uma tradução muito insatisfatória de "satisfying", palavra que, essa sim, expressa grande prazer com uma experiência qualquer. Aliás, quem buscar no google tradução para satisfying vai receber como resposta... "satisfatório". Fosse mais fiel às intenções dos falantes, o google e tradutores de desenho animado usariam "gratificante", por exemplo. Uma tradução muito mais satisfatória para a palavra em inglês.
Mas... e se essa troca vocabular for mais que um defeito desse mundo dos conhecimentos transmitidos por cérebros eletrônicos, que agem por reflexo, não por invenção? E se forem já uma sutil manifestação do avanço da inteligência artificial, um alerta sutil para nos acostumar a baixar expectativas, vendo um destino para a humanidade menos que satisfatório, cerceado por catástrofes climáticas, guerras e opressão incentivadas por líderes autoritários, trabalho precarizado e confusão e disputas vazias nos relacionamentos sociais?
É uma alternativa nada satisfatória. Que 2026 não se satisfaça em ver, impotente, as ameaças no horizonte, e mostre satisfatoriamente a capacidade humana de achar saídas para as crises, empatia com os outros habitantes do planeta e criatividade contra os fantasmas sombrios que ameaçam o futuro. Feliz Ano Novo!
Sergio Leo é jornalista, escritor e artista plástico
